Altos investimentos em eletrificação da Europa e a mudança para uma frota dominada por carros elétricos vêm sendo anunciados pela Alemanha e outros países. Entretanto, a UE admitiu que, em 2030, os carros europeus ainda serão movidos, majoritariamente, por combustíveis fósseis. Sozinha a eletrificação não conseguirá nem se aproximar da diminuição de CO2 necessária para se atingir as metas do Acordo de Paris.
O etanol é um biocombustível de baixo risco, que também produz biogás e bioeletricidade. O projeto brasileiro de descarbonização da matriz energética por meio de biocombustíveis (Renovabio) é uma forma concreta de avançar na transição energética.
A crise energética atual chama a atenção para a insegurança e volatilidade das energias renováveis intermitentes (solar e eólica, por exemplo) e os riscos geopolíticos dessa crise, como o aumento da inflação mundial, menor crescimento e queda do apoio para a transição em direção a energias de baixo carbono.
Ainda há um longo caminho a ser percorrido até que a oferta de energia renovável aumente. Hoje, os combustíveis fósseis são a fonte de 83% da energia global, sendo responsáveis por dois terços das emissões de gases de efeito estufa. Apesar de uma diminuição no uso de petróleo e carvão, o gás natural continuará tendo um papel central no mundo energético. Estamos vivendo o risco de uma transição energética mal administrada, com forte influência da China, que vive uma crise energética sem precedentes no país, ao mesmo tempo em que domina a fabricação de componentes-chave no mundo: 72% dos módulos solares do mundo, 69% das baterias de íon-lítio e 45% das turbinas eólicas, além de controlar grande parte do refino de minerais essenciais para a energia limpa, como cobalto e lítio.
Neste contexto, o hidrogênio tem sido apontado como um agente fundamental da transição energética, sendo uma fonte de energia de baixo ou zero carbono, especialmente em setores que são difíceis de eletrificar. Apesar de não ser fonte primária de energia, o hidrogênio pode ser usado como elemento para armazenar e transportar energia a granel. Se a energia renovável for convertida em hidrogênio, ela pode ser armazenada a baixo custo por longos períodos, e convertida em eletricidade quando necessário. Desta maneira, locais ensolarados e ventosos podem exportar energia limpa através do hidrogênio. A expectativa é alta, já são mais de 350 grandes projetos de produção de hidrogênio em andamento e o investimento acumulado pode chegar a US$ 500 bilhões até 2030.
O Morgan Stanley estima que as vendas anuais de hidrogênio podem chegar a US$ 600 bilhões até 2050, um grande crescimento em relação às vendas atuais de US$ 150 bilhões. Contudo, o processo de obtenção do hidrogênio continua caro, o que significa que essa alternativa mais ecológica ainda não é competitiva.
Neste cenário o risco de desaceleração da transição é eminente, o que traria consequências desestabilizadoras na questão climática. A médio prazo, os críticos sugerem que os formuladores de políticas da União Europeia devem se concentrar em formas realistas de reduzir o uso de petróleo, como o uso de biocombustíveis convencionais e avançados.
Veículos elétricos não são carros de emissão zero. As emissões dos automóveis devem ser medidas em uma base correta, não apenas no escapamento do carro, mas sim considerando o ciclo de vida do transporte, incluindo as emissões à montante da produção de eletricidade.
Além da redução da poluição nos grandes centros, há uma pauta geopolítica para a Europa eleger o carro elétrico como solução para a mobilidade. A eletrificação resolve o problema de dependência que o continente tem em relação ao combustível. Adotar o biocombustível como solução para a redução de CO2 seria manter a dependência de matérias-primas importadas. Contudo, a União Europeia precisa se concentrar na quantidade de petróleo usada a cada ano no seu setor de transporte. As políticas adotadas até agora não proporcionarão a descarbonização do transporte europeu.
A COP26 trará ao centro das discussões o fato que não há mais tempo a perder. Ao contrário da eletrificação e das células de hidrogênio, que ainda necessitam altos investimentos em desenvolvimento de tecnologias e infraestrutura, os biocombustíveis, e em especial o etanol, apresentam a possibilidade de implementação imediata, com o uso da infraestrutura vigente e gerando a redução instantânea de gases de efeito estufa. O etanol é um biocombustível de baixo risco gerado pela cana de açúcar, que também produz biogás e bioeletricidade. O projeto brasileiro de descarbonização da matriz energética por meio de biocombustíveis (conhecido como Renovabio) é uma forma concreta de avançar na transição energética por meio de um sistema de incentivos de preços efetivos e transparentes.
O fato é que o carbono (emissões de CO2) ainda precisa ser adequadamente precificado no mundo, de forma a permitir na prática a transição para as energias de baixo carbono. Não podemos abandonar a necessidade de incentivos através do sistema de preços para fazer uma transição gradual para projetos energéticos que gerem lucros, empregos e renda, e ao mesmo tempo emitam menos gases de efeito estufa.