Valor Econômico
A pandemia de covid-19 reduziu também a oferta de derivados de petróleo e a invasão da Ucrânia pela Rússia completou o serviço, tornando estratosféricos os preços do diesel e mais próxima a perspectiva de sua escassez em vários pontos do planeta no segundo semestre. Uma demanda sazonalmente elevada será mal atendida por uma capacidade de refino menor do que antes da pandemia e os estoques mais baixos do produto desde a crise de 2008.
A baixa elasticidade do petróleo e seus derivados impede que a elevação dos preços reduza rapidamente a demanda, de forma que custos altos conviverão esporadicamente, e com graus diferentes de intensidade, com a falta do diesel.
Pelo lado da oferta, a queda abissal da demanda durante a pandemia provocou a redução da capacidade de refino de algo entre 2,5 e 3 milhões de barris-dia. Os Estados Unidos, grande produtor e exportador, enfrenta agora uma alta demanda com uma redução da capacidade de produção de 1 milhão de barris, ou 5% (Bloomberg, 13 de maio) do refino total. A Rússia, que mesmo com o cerco financeiro e o boicote a seus produtos, pode estar vendendo mais petróleo hoje do que antes da guerra, especialmente para China, Índia e Turquia, mas não tem tido o mesmo desempenho em relação ao diesel. Ela ofereceu menos 1,3 milhão de barris em maio, a menor produção em 22 meses.
Se a pandemia reduziu a oferta, seu arrefecimento provocou um grande salto da procura em curto espaço de tempo. Com isso, quando estourou o conflito na Ucrânia, os estoques nos países desenvolvidos, os principais consumidores, estavam em seus níveis mais baixos em mais de uma década. Em maio, nos EUA, eles chegavam a 105 milhões de barris, menor nível sazonal desde 2006 (Reuters, 19 de maio). Na Europa, em fins de abril, somavam 378 milhões de barris, também para a época o menor volume desde 2008. Em Cingapura, não passavam de 6 milhões de barris, mais baixa quantidade desde 2006.
A transição para a energia renovável reduziu os novos investimentos na extração de petróleo e no refino. Um aumento da oferta pelos principais refinadores, a curto prazo, será marginal. A situação da Petrobras, que está usando pouco mais de 90% de sua capacidade de refino hoje, é praticamente a mesma dos grandes refinadores mundiais.
O desequilíbrio entre oferta e demanda de diesel também afeta os preços e as quantidades ofertadas dos demais derivados. As refinarias estão demandando mais petróleo para acelerar a disponibilidade de diesel, o que força as cotações do petróleo um pouco mais para cima. O tipo Brent para entrega em julho foi cotado a US$ 123 o barril no fechamento de maio, mais de 50% superior aos US$ 80 no início do ano. Por outro lado, com a capacidade de refino limitada, as refinarias, ao privilegiar o diesel, reduzem a produção de gasolina, cujos preços estão subindo e os estoques, encolhendo.
As perspectivas de curto prazo são negativas. Não há sinais de fim à vista para o conflito na Ucrânia, o único fato que poderia trazer alívio na oferta e nas cotações. As sanções à Rússia provavelmente não terminarão com a guerra, o que deixará um importante produtor à margem de boa parte dos mercados. Analistas estão prevendo uma temporada com maior número de furacões nos Estados Unidos no segundo semestre. E “furacão” foi a imagem usada ontem por Jamie Dimon, CEO do JP Morgan Chase, maior banco americano por ativos, para definir a atual conjuntura econômica. Ele disse que o petróleo poderá ir de US$ 150 a US$ 175 o barril no futuro próximo e que o aperto monetário promovido pelo Federal Reserve amplia as incertezas. “Nunca passamos por um ´quantitative tightening antes”, afirmou.
A Argentina já enfrenta escassez pontual de diesel em 8 províncias e racionamento em outras 7 (Gazeta do Povo, ontem), inclusive Buenos Aires. A Petrobras alertou o governo para a possibilidade de falta do produto. Não há boas opções a esta altura. Planejar um racionamento garante racionalidade no uso de um recurso escasso, destinando-o para assegurar abastecimento de bens e serviços essenciais. O governo indica que pretende aumento dos estoques e acrescentar uma proporção maior de biodiesel, mas a eficácia dessas medidas é limitada. Ambas elevariam os preços no curto prazo, caso fosse possível antecipar compras em um mercado apertado.
O Brasil tem um problema a mais: intervenções para diminuir o preço doméstico e por em risco as importações. É um caminho para o desabastecimento.