Fonte: Valor Online
Em seu primeiro discurso como presidente da Petrobras, o economista Roberto Castello Branco, disse ontem que a empresa “escapou de ser rebaixada para a segunda divisão”, após a crise financeira e moral que varreu a companhia em meio aos desdobramentos da Operação Lava-Jato. Ao comentar sobre o perfil de sua gestão, afirmou que pautará sua administração na meritocracia e na liberdade de preços, em um sinal contrário aos temores de uma eventual intervenção política na companhia no governo Jair Bolsonaro.
Em tom elogioso às gestões de Pedro Parente e de Ivan Monteiro, os dois presidentes que o antecederam, o executivo afirmou que assume a companhia em uma situação muito melhor do que aquela encontrada em sua primeira passagem pela estatal, como conselheiro, entre 2015 e 2016, e que isso foi possível graças aos avanços na governança da empresa.
“Construiu-se sólida governança corporativa, rigorosas normas de ética e integridade foram implementadas e punidos os criminosos”, discursou. “Encontrei naqueles dias sombrios [2015-2016] uma Petrobras que se defrontava com duas crises, uma crise moral e uma crise de dívida, a primeira acarretando a segunda. A companhia havia sido saqueada por uma organização criminosa composta por políticos corruptos, capitalistas inimigos do capitalismo e pequeno grupo de funcionários", completou.
Castello Branco tomou posse ontem, em meio à renúncia do presidente do conselho, Luiz Nelson de Carvalho, e do conselheiro Francisco Petros.
A saída dos dois membros do conselho se dá semanas após um episódio que gerou ruídos nos bastidores da administração da empresa, envolvendo a presença de militares nos corredores da companhia durante o período de transição de governo. Há duas semanas, enquanto se preparava para a transição, o almirante Bento Albuquerque, novo ministro de Minas e Energia, se instalou nos escritórios da Petrobras, no Rio, onde manteve reuniões de trabalho.
O Valor apurou que, na ocasião, Albuquerque pediu à então presidente substituta da estatal, Solange Guedes, uma sala para ele e nove assessores - incluindo um cozinheiro - dentro da Petrobras. A presença de Albuquerque na estatal foi interpretada, por fontes próximas da companhia, como uma tentativa do novo ministro de ocupar espaço na petroleira e despertou a preocupação sobre até que ponto, na gestão de Jair Bolsonaro (PSL), o governo e os militares terão ingerência sobre a Petrobras. A estatal informou, na ocasião, que descartava ceder um gabinete permanente para o Ministério de Minas e Energia dentro da sede da companhia.
Albuquerque esteve ontem na cerimônia de posse e adotou um tom de sintonia com o novo presidente da Petrobras. O ministro reforçou, por exemplo, que o governo não vai interferir na formação dos preços do mercado de combustíveis brasileiro. Durante a cerimônia, Albuquerque esteve acompanhado de colegas da Marinha, como o almirante Julio Soares de Moura Neto, a quem Castello Branco saudou como o "mais longevo Comandante da Marinha do Brasil" e que foi seu colega de turma no Colégio Naval, dentre outros almirantes. "A Petrobras me fez reencontrar a Marinha", saudou Castello Branco.
Nos últimos anos, a Petrobras adotou uma série de medidas que a alçaram ao Nível 2 de governança da B3: aumentou o número de membros independentes no conselho de administração, de 30% para 40%; e implementou um programa de prevenção da corrupção, que prevê um processo de "due diligence" de integridade para fornecedores e profissionais da empresa. Além disso, reformou o estatuto social, condicionando a prática de subsídios a indenizações por parte do governo; também criou comitês técnicos estatutários compostos por gerentes executivos que terão a função de analisar previamente e emitir recomendações sobre os temas que serão deliberados pelos diretores, que não podem mais decidir isoladamente.