
Valor Econômico
A visita de Joe Biden, em tom jovial e amistoso, ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, nunca deixou de ser um exercício questionável. Três meses depois, a recompensa para o presidente dos EUA não foi o tão esperado aumento da produção de petróleo, e sim um corte oficial de 2 milhões de barris por dia da parte do grupo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo ampliada (Opep+) que alinhou o cartel do petróleo com a Rússia desde 2016. A cinco semanas das eleições legislativas americanas, nas quais os preços da gasolina poderão desempenhar papel decisivo, isso parece uma afronta. Sugere também que a Arábia Saudita se aferra a suas relações com Moscou, ao mesmo tempo em que Vladimir Putin acirra sua guerra na Ucrânia. Os sauditas podem sentir que estão agindo na defesa de seus próprios interesses e nos do cartel, mas seus atos podem se revelar um equívoco estratégico.
Autoridades sauditas da Opep insistem em dizer que os cortes não tiveram motivação política. Defrontados com uma possível recessão na Europa e em outros continentes, que deprimirá a demanda, eles dizem que tentam, com isso, criar um piso para os preços, proteger a receita e aumentar a capacidade. Após cair 25% desde junho, os preços globais do petróleo subiram, em termos proporcionais, bem menos que o gás natural e o carvão alcançaram devido à guerra movida pela Rússia.
Mas a iniciativa de reduzir a produção agora é parte de uma luta mais ampla pelo controle do mercado global de petróleo. A Arábia Saudita ficou irritada com as tentativas lideradas pelos EUA, de influenciar os preços. Washington pressionou pela adoção de tetos de preços sobre o petróleo russo – para reduzir a receita de Moscou – por parte das democracias do G-7 (grupo das sete maiores economias ricas) e da União Europeia (UE). A Opep vê no gesto uma tentativa de alterar a correlação de forças em favor dos países consumidores, e teme que isso possa algum dia ser usado contra ela.
Os EUA, além disso, promoveram a maior liberação da história de sua reserva estratégica de petróleo para tentar reduzir os preços da gasolina nos postos dos EUA – uma intervenção tão substancial quanto os novos cortes da Opep.
O cartel tenta, então, reconquistar o controle do mercado e demonstrar que ainda tem poder de fixar o preço. A Arábia Saudita está certamente emitindo uma sinalização política, também, para um presidente dos EUA que a chamou de “pária” após o assassinato brutal do jornalista Jamal Khashoggi. Pretende, assim, mostrar que tem outros amigos, nas figuras de Pequim, Nova Déli e Moscou.
O príncipe herdeiro saudita corre o risco de estar agindo com excesso de autoconfiança. É pouco provável que China, Índia e Rússia ofereçam alguma coisa que se assemelhe à mesma proteção em termos de segurança à Arábia Saudita que os EUA prestaram por várias décadas. Puxar para cima os preços do petróleo agora pode aprofundar qualquer recessão iminente, acompanhada da resultante destruição da demanda. Uma Casa Branca furiosa insinuou que poderá agora liberar ainda mais petróleo dos estoques estratégicos.
A lição a ser tirada pelos EUA e os aliados é a de que seus parceiros árabes não são confiáveis em questões de energia, e que a Opep está determinada a maximizar a receita gerada por um ativo pelo qual a demanda terá de ser diminuída pelos esforços, liderados pelo Ocidente, de combater a mudança climática. Enquanto isso, não vê qualquer obrigação de proporcionar energia barata a seus clientes.
Os países consumidores ocidentais dispõem de poucas respostas de curto prazo na ponta da oferta, a não ser investir em combustíveis fósseis, contrariando seus objetivos climáticos. A resposta de longo prazo a todos os vários problemas de energia e de clima que eles agora enfrentam é a mesma: fazer esforços verdadeiros, que até agora praticamente não começaram, para reduzir a demanda por petróleo – e para acelerar a corrida na direção de fontes sustentáveis, verdes.