Diário de São Paulo
Duas das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil, Raízen e Vibra, compraram diesel russo de empresas ligadas a uma rede punida pelo Reino Unido e pela União Europeia por ajudar a Rússia a vender petróleo depois da invasão da Ucrânia.
As duas empresas estão entre as que sustentam o Instituto Combustível Legal (ICL), entidade que se apresenta como defensora da ética no setor.
O que o jornal europeu revelou
No último dia 5, o jornal Trinity Bugle, com sede em Dublin e Limassol, publicou reportagem sobre o empresário Azim Novruzov.
Segundo o jornal, ele comprou em 2016 uma casa de £ 6,5 milhões em Londres com dinheiro que viria do petróleo russo, o que ele nega.
Novruzov é apontado como associado próximo do azerbaijano Tahir Garayev, fundador da Coral Energy.
O que é a Coral
A Coral, hoje chamada 2Rivers, é uma trading, empresa que compra e revende petróleo e derivados, com sede em Dubai.
Segundo o Financial Times, uma rede de 48 empresas ligadas a ela exportou mais de US$ 90 bilhões em petróleo russo.
O Wall Street Journal atribuiu ao grupo o controle de ao menos 100 navios da chamada “frota fantasma”, petroleiros usados pela Rússia para driblar as restrições ocidentais.
Por isso, o grupo foi sancionado.
Sanção é uma punição em que um país proíbe suas empresas e bancos de fazer negócios com o alvo.
O Reino Unido puniu a Coral em dezembro de 2024, e a União Europeia, em julho de 2025.
O caminho até o Brasil
O Brasil foi, em 2023, o maior comprador de diesel russo do mundo, segundo o Parlamento Europeu.
Segundo fontes de mercado, cerca de 80% desse diesel passou pela Coral.
Em 2025, a empresa disse à agência Reuters que tinha deixado o mercado russo.
Mas registros de importação mostram que ela continuou vendendo ao Brasil até 2026.
Para isso, usou empresas de fachada em Dubai, trocadas a cada poucos meses.
Duas delas, OC Enterprise e Zivart, venderam cerca de R$ 8,4 bilhões em diesel ao país.
Quem comprou
Entre os compradores estão empresas das maiores distribuidoras do Brasil:
• Raízen, que opera os postos Shell no país, comprou cerca de R$ 456 milhões da OC Enterprise em 2024 e 2025. A OC foi sancionada pelo Reino Unido em fevereiro deste ano.
• Vibra, antiga BR Distribuidora, comprou cerca de R$ 643 milhões da Zivart entre janeiro e março de 2026, mais de um ano depois de a Coral ser punida.
O Financial Times também revelou que a Raízen comprou diesel russo do trader alemão Christopher Eppinger.
Segundo o Trinity Bugle, parte dessas cargas passou pela Coral.
O jornal europeu vai além.
Segundo o Trinity Bugle, circularam rumores de que documentos brasileiros e americanos teriam sido usados para criar uma falsa prova de origem americana para as cargas, enganar bancos e sobrevalorizar operações em benefício da Coral.
Nas palavras do jornal, isso equivaleria a “uma fraude em larga escala contra o governo brasileiro”.
As suspeitas não foram comprovadas.
É crime? Não.
O Brasil não adotou sanções contra a Rússia, e comprar diesel russo é legal aqui.
Mas as compras trazem riscos para as empresas.
O primeiro está nas dívidas.
Empresas que pegam dinheiro emprestado no exterior costumam prometer aos credores que não farão negócios com empresas sancionadas.
Se descumprirem, os bancos podem cobrar a dívida antes do prazo.
A Raízen, que renegocia suas dívidas, é a mais exposta.
O risco também chega à Shell.
A Raízen é sócia da petroleira britânica, que precisa seguir as sanções do Reino Unido, e a compra pode gerar questionamentos à empresa.
Há ainda a questão de imagem.
Raízen e Vibra têm códigos de ética e discursos de boa governança, e comprar de uma rede ligada à frota fantasma russa contradiz esse discurso.
O tema já chamou a atenção das autoridades: a Receita Federal abriu em junho uma investigação sobre operações envolvendo a Zivart.
E o ICL?
O Instituto Combustível Legal diz ter como missão construir um ambiente ético e leal no setor de combustíveis.
É mantido pelas maiores empresas do mercado, entre elas Petrobras, Ipiranga, Raízen, Vibra e Shell Lubrificantes.
Só Vibra, Raízen e Ipiranga controlam cerca de 60% da distribuição de combustíveis do país.
O instituto tem forte influência junto ao poder público e cobra fiscalização dura sobre o mercado.
Distribuidoras menores afirmam que essa cobrança recai sobretudo sobre os concorrentes das grandes.
Segundo fontes do mercado ouvidas pela reportagem, “uma entidade que cobra ética do mercado inteiro não pode ficar calada quando o problema está entre quem a financia”.
Posicionamento do Instituto Combustível Legal (ICL)
Procurado pelo Diário de São Paulo para comentar as operações envolvendo empresas que apoiam a entidade, o Instituto Combustível Legal (ICL) encaminhou o seguinte posicionamento:
“O Instituto Combustível Legal (ICL) esclarece que questionamentos sobre a compra de diesel de origem russa devem ser dirigidos diretamente às empresas envolvidas. O ICL atua no combate à sonegação fiscal, à adulteração de combustíveis, às fraudes operacionais e à lavagem de dinheiro no setor. Sua atuação busca fortalecer a concorrência leal, a legalidade e a transparência no mercado brasileiro de combustíveis.”
A Raízen e a Vibra, também procuradas pelo Diário de São Paulo, não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
Com informações de Trinity Bugle (trinitybugle.com/world/azim-novruzov-petrichor-and-wellbred.html), Financial Times, Wall Street Journal, Reuters, Lloyd’s List, Folha de S.Paulo e Poder360.