‘Ninguém previu o petróleo neste patamar’, diz presidente da Petrobras

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O Globo

No dia em que o barril de petróleo alcançou US$ 117, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirma que o cenário para as cotações mudou drasticamente nos últimos 20 dias e que a empresa começa a discutir como lidar com isso. Ela não antecipa os próximos passos da estatal, mas afirma que o país “aprendeu com erros do passado” e critica a gestão da empresa sob o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro por repassar imediatamente para as bombas a volatilidade do petróleo (“perdemos dinheiro e market share”). A executiva argumenta que investidores globais priorizam previsibilidade, vis a vis ganhos de curto prazo.

Magda antecipa que a Bacia da Foz do Amazonas pode ter duas plataformas e que, com 40 projetos para ampliar a capacidade de FPSOs no pré-sal e pós-sal, conseguirá manter o ritmo de produção, sem o declínio que era esperado pelo mercado para os próximos anos, até ter início a atividade na Margem Equatorial.

Os detalhes dessa estratégia estarão no próximo Plano de Negócios da companhia que, sinaliza a executiva, deve ter uma cifra de investimentos robusta, maior do que a atual.

Qual é a visão dos investidores neste novo cenário global de preços em alta?

Quando começou a Guerra do Golfo, eu ouvi de um investidor global que não se briga muito com o preço do petróleo e que a estabilidade e a previsibilidade valem muito mais. A empresa tem que demonstrar serenidade. É isso que os grandes fundos, de Houston, Cingapura e Londres falam: investimento de longo prazo tem que ser previsível.

É o contrário, às vezes, do que ocorre com investidores de curto prazo no Brasil, que estão, muitas vezes, preocupados com a especulação. E é isso que a gente vem perseguindo (previsibilidade). Dos 16 grandes fundos globais que investem na Petrobras, 13 têm recomendação de compra (da ação) e outros flutuam entre compra e neutro.

Muitos investidores do setor de petróleo têm buscado a América do Sul, em meio à instabilidade no Oriente Médio. Como fica o Brasil?

A América do Sul somos nós. A Guiana está crescendo, mas lá são duas plataformas. A Venezuela tem um cenário incerto. Se a gente falar de América do Sul, estamos falando da Petrobras. Temos hoje uma empresa que é a sétima maior produtora de petróleo do mundo, localizada na décima maior economia do mundo. O petróleo é o primeiro produto de exportação (do Brasil) por dois anos seguidos, e este ano vai se repetir.

E como a Petrobras está lidando com os preços dos combustíveis?

Aí eu vou voltar para o dia 12 de março. Os ataques ao Irã foram em 28 de fevereiro. A gente sempre espera 15 dias para ver a tendência. E a nossa preocupação é sempre o diesel, a gente foi buscar um aumento de preço (em março) e o governo disse assim “eu vou subsidiar”. Entendemos que foi suficiente. De lá para cá, nós tivemos uma volatilidade imensa.

E temos de colher com os aprendizados do passado. E um aprendizado importante de 2018 e 2019 é que fomos perseguir pari passu os preços internacionais e, no final, buscando ganhar muito dinheiro, acabamos perdendo dinheiro e market share, que foi difícil recuperar depois. (Em 2019, a fatia da Petrobras no mercado de diesel brasileiro caiu de 88% para 77% e, na gasolina, de 87% para 76%, com a concorrência dos importados).

Mais adiante, quando teve a alta dos preços do petróleo ao longo do ano de 2022, essa instabilidade gerou uma confusão interna na companhia (entre abril e junho de 2022, a Petrobras teve três trocas de presidência), que foi extremamente criticada pelos investidores de longo prazo, que entenderam que a empresa perdeu valor com aquela confusão.

Mas, presidente, a solução encontrada agora, que foi o subsídio do governo, não é uma solução que se mantém por muito tempo, pelo seu impacto fiscal.

Eu não vou falar de governo.

Eu quero perguntar sobre cenário. O preço do petróleo está alto há bastante tempo, e isso talvez não estivesse no radar. Como lidar com a nova conjuntura?

Quando o preço do petróleo foi para US$ 120 em meados do ano, todas as expectativas eram de que ele decrescesse. E que a guerra durasse pouco. A maioria das apostas era do preço para níveis de US$ 65 e US$ 70 no fim desse ano. Isso norteou a ação gerencial da companhia.

A média de preço do terceiro trimestre foi bem menor que a do segundo trimestre, referendando as expectativas dos analistas. Há 20 dias esse cenário se reverteu. Ninguém imaginou que nós íamos ter um final de outubro com o barril a US$ 116.

Então, o que fazer?

Agora vamos ter de discutir isso. Estamos começando a tratar desse assunto, de um cenário que não era previsível por nenhum dos analistas que nos dão suporte. O que nós vamos fazer não está definido. Ainda estou discutindo isso com a minha diretoria e com a minha equipe. Mas temos que fazer alguma coisa em relação a isso. O que nós vamos fazer não está definido.

O fato de a empresa não atuar mais na distribuição limita essas possibilidades? O presidente Lula, no debate presidencial do último domingo, mencionou que se ressente de a Petrobras não ter mais a BR.

Eu acho que a Petrobras perde porque ela perde margem (de lucro). A verticalização agrega valor em todas as indústrias do mundo. Mas a sociedade perde mais. A venda da BR trouxe uma possibilidade de especulação que não existia antes. A Petrobras tinha entre 25% e 30% do market share da revenda. Eu não posso chamar 25% de monopólio, mas isso é suficiente para segurar um pouco a especulação desenfreada.

Em março (quando a Petrobras aumentou o preço do diesel e o governo federal lançou subsídios fiscais para amortecer o impacto desta alta), a margem da distribuição na revenda do diesel aumentou 158%, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.

Se a Petrobras estivesse na revenda, essa especulação seria muito mais contida. Temos uma cláusula de não competição com a Vibra até agosto de 2029. Mas, no nosso plano de negócios (o atual vai de 2026 a 2030), o nosso conselho de administração já é recomendou a volta para distribuição

O cenário da eleição altera os rumos do novo plano de negócios?

Não. Os projetos de petróleo levam de sete a dez anos para maturar. E o que temos? Em média, temos duas plataformas por ano. E desde o ano passado incluímos no plano de negócios projetos de desenvolvimento complementar, ampliando o limite da capacidade das plataformas (FPSO), como Almirante Tamandaré. Ela foi a primeira supergigante com operação de 225 mil barris por dia. E essa capacidade já subiu para 270 mil. Somando outras unidades, serão 520 mil barris de petróleo adicionais.

É como se eu tivesse transformando em zero o tempo de contratação de três plataformas de grande porte. Portanto, é uma antecipação de projeto e de produção sem precedentes. No próximo plano, a gente pode esperar esse tipo de projeto.

E serão quantos ao todo?

Ao longo de quatro anos, talvez uns 40 projetos.

E como isso se reflete na produção?

Se antes você previa um declínio nos campos, porque estamos falando de um recurso não renovável, agora haverá um platô (manutenção) da produção, até 2034 ou 2035, que é mais ou menos quando espera que vai começar a Margem Equatorial.

Há a possibilidade de uma plataforma no Rio Grande do Norte, considerando que tudo dê certo. No Amapá, é possível talvez a gente possa pensar em duas plataformas, se forem confirmadas as nossas expectativas. E aí vamos precisar de Belém e Oiapoque como bases de apoio. Isso mostra a importância da Margem Equatorial e a absoluta relevância do Arco Norte para o Brasil hoje.

E há outras áreas com potencial além da Margem Equatorial?

Nós acabamos de comprar (no leilão realizado no início deste mês) e pagamos caro por blocos na Bacia de Campos. Pode ter coisa grande ali. É uma área que se conhece há tanto tempo no Brasil (a Bacia de Campos começou a ser explorada na década de 1970), mas é numa lâmina d’água muito profunda e havia um limite tecnológico.

Hoje, nossa sonda no Oiapoque (Margem Equatorial) está a 2.880 metros de profundidade. Dez anos atrás, o limite tecnológico era 2.700 metros. Hoje já há tecnologia para 3.400 metros. Mas nós não furamos ainda no Brasil mais de 3.000 metros.

Mas ano que vem ou já em 2028, vamos ver as licenças do Ibama, mas estamos muito otimistas com essa aquisição (na Bacia de Campos). É no pós-sal, mas numa profundidade muito grande, mais de 3.000 metros. Existe potencial para uma surpresa interessante o que seria um bom revamp (salto na produção) para o Norte Fluminense. Eu sempre digo para todo mundo e isso não é blefe: quem apostar contra a Petrobras vai perder.

É possível esperar que o novo Plano de Negócios, a ser divulgado no mês que vem, venha com previsão de mais de US$ 109 bilhões, que foi o valor do planejamento anterior, para 2026-2030?

Não sei. O petróleo está a mais de US$ 100 (Em novembro de 2025, quando foi divulgado o plano atual, a cotação do barril estava em torno de US$ 60)

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