Com amplos investimentos americanos no país, a retomada da refinação de petróleo é fundamental, mas pinta um horizonte de dificuldades, diz Reuters
Exame Online
0O Centro de Refino de Paraguaná, no oeste da Venezuela, já foi um símbolo da riqueza petrolífera do país e da ambição de transformar suas vastas reservas de petróleo em combustíveis e receitas de exportação.
Hoje, o complexo, com capacidade de 955 mil barris por dia, localizado no estado de Falcón, opera com apenas uma fração desse volume.
Segundo reportagem da Reuters, a deterioração é resultado de décadas de abandono e não está ligada diretamente aos fortes terremotos que atingiram o país no mês passado.
Antes dos tremores, jornalistas da agência visitaram as refinarias de Amuay e Cardón, que compõem o complexo de Paraguaná, além de outra refinaria ativa da Venezuela. Foram entrevistados trabalhadores, terceirizados, moradores e especialistas do setor.
‘Tudo parece feio e enferrujado’, diz um funcionário da refinaria de Amuay. Tanques de resíduos a céu aberto estão quase cheios, e vazamentos escorrem por tubulações e estações de válvulas.
Os trabalhadores relataram que anos de subinvestimento, falhas nos equipamentos e escassez de peças deixaram o complexo incapaz de produzir o combustível necessário ao mercado venezuelano.
Abandono e investimento
Trabalhador em uma refinaria da Petroleos de Venezuela SA ( PDVSA), perto de Punto Fijo (Diego Giudice/Bloomberg) (Diego Giudice/Bloomberg)
A reportagem identificou sinais de degradação avançada e pouca manutenção nas três refinarias visitadas. O cenário evidencia os enormes desafios para recuperar a infraestrutura petrolífera do país, mesmo diante da promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atrair US$ 100 bilhões em investimentos estrangeiros para o setor.
Analistas ouvidos pela Reuters afirmam que as refinarias são, ao mesmo tempo, alguns dos ativos mais deteriorados da Venezuela e os mais importantes para os consumidores locais. Ainda assim, devido à sua condição, são consideradas pouco atraentes para investidores estrangeiros.
Os recentes terremotos, que deixaram mais de 5 mil mortos e provocaram ampla destruição, agravaram as perspectivas do setor. O analista de energia, Oswaldo Felizzola, afirmou à Reuters que a prioridade do governo é a reconstrução das áreas afetadas pela tragédia.
Segundo ele, grandes investimentos em refino devem ficar para 2027 ou mais tarde, enquanto o foco imediato permanece na produção de petróleo. A recuperação total da capacidade de refino exigiria pelo menos US$ 20 bilhões, uma estimativa compartilhada por outros especialistas.
Apesar de algumas petroleiras americanas e multinacionais terem demonstrado interesse na Venezuela após a mudança política em janeiro, há pouco incentivo para a recuperação das refinarias locais. Os Estados Unidos já possuem refinarias capazes de processar o petróleo pesado venezuelano.
Isso reduz as chances do governo interino de Delcy Rodríguez conseguir recursos externos para restaurar o parque de refino. Além disso, os combustíveis vendidos no mercado interno continuam sendo comercializados a preços muito abaixo do custo de produção.
Uma refinaria próxima à cidade de Amuay – uma unidade que usa um processo de refinamento específico chamado flexicoking – que transformava resíduos pesados em combustíveis de melhor qualidade está parada e escurecida pela corrosão. Um engenheiro aposentado disse que a instalação foi desmontada para fornecer peças a outros setores da refinaria.
Grandes empresas do setor continuam cautelosas, inclusive em áreas consideradas mais promissoras, como a produção de petróleo e gás natural. A ExxonMobil e ConocoPhillips, por exemplo, deixaram o país em 2007, após a expropriação de seus projetos pelo governo de Hugo Chávez.
Embora diversas companhias tenham assinado memorandos de entendimento para exploração e produção, as negociações para contratos definitivos têm avançado lentamente após mudanças na legislação energética venezuelana.
Precariedade
Funcionário da estatal venezuelana PDVSA agita bandeira iraniana após a chegada de um petroleiro daquele país trazendo combustível para aliviar a escassez (AFP) (AFP/AFP)
Uma nova lei aprovada neste mês permite que empresas privadas operem refinarias, atividade antes exclusiva da estatal PDVSA. Analistas ouvidos pela Reuters, porém, afirmam que o modelo continua pouco atrativo, em parte por impor um novo imposto de até 5% sobre a receita bruta das refinarias.
A situação operacional permanece crítica. A PDVSA não consegue produzir combustível suficiente para atender à demanda interna, estimada em cerca de 250 mil barris por dia, apesar de a Venezuela possuir algumas das maiores reservas de petróleo do mundo.
O complexo de Paraguaná não recebeu grandes reparos neste ano, segundo trabalhadores e contratados. A empresa chinesa Jiazhan Shaelion, uma das principais prestadoras de serviços da PDVSA, reduziu suas atividades e ainda não chegou a um novo acordo contratual com a estatal.
Ao renovar licenças para que empresas estrangeiras atuem na Venezuela, o governo Trump excluiu companhias de países considerados adversários, como China, Irã, Rússia, Coreia do Norte e Cuba.
Nas refinarias menores de Puerto La Cruz e El Palito, equipes locais vêm realizando reparos emergenciais desde o ano passado. Em El Palito, uma linha de transmissão de energia falhou durante os terremotos de junho, interrompendo as operações por cerca de duas semanas.
A refinaria voltou a operar em meados de julho, mas deverá parar novamente para manutenção e inspeções pós-terremoto nas próximas semanas.
Enquanto as refinarias se deterioram, a produção e as exportações de petróleo bruto aumentaram. Desde janeiro, as exportações venezuelanas subiram para cerca de 1,2 milhão de barris por dia, de menos de 800 mil. Especialistas avaliam que, no atual ambiente político, o interesse dos Estados Unidos está concentrado em manter o petróleo venezuelano fluindo para o mercado internacional, e não em financiar a recuperação do parque de refino.
Outro obstáculo é o preço extremamente baixo da gasolina na Venezuela, um dos menores do mundo. A venda de combustível barato limita a geração de receita para a PDVSA e reduz a capacidade de financiar obras de recuperação.
Economistas afirmam que um aumento nos preços poderia ajudar o governo a obter recursos, mas a medida é considerada politicamente arriscada em meio ao descontentamento social após a resposta considerada insuficiente aos terremotos.