Opinião: Vale a pena carro elétrico no Brasil?

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Folha de S.Paulo

Por Ronaldo Lemos – Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. Link externo, e-mail de Ronaldo Lemos
Há pouco tempo um amigo que mora em Nova York (EUA) tomou a decisão de comprar um carro elétrico de última geração e escrever sobre a experiência. Ele descreve alguns pontos que são surpreendentes para quem está acostumado a dirigir um carro “normal”.
A primeira diferença é que o carro não tem botão de partida, nem liga e desliga. É só entrar nele e dirigir, já que não há ignição. Também não tem chave. O carro é acionado diretamente pelo celular, por meio do bluetooth. Basta se aproximar portando o celular que as portas vão se abrir automaticamente.
Além disso, o pedal do freio passa a se tornar progressivamente inutilizado. Isso ocorre porque o carro pode ser guiado basicamente só com um único pedal. Ao ser pressionado ele acelera. Ao contrário, quando deixa de ser pressionado, freia o carro e usa a energia cinética gerada assim para carregar as baterias.
Por fim, o carro possui piloto automático e modo “full-self drive capability” (capacidade de auto-direção total). Com o recurso ele é capaz de dirigir sozinho, especialmente em autoestradas ou em congestionamentos. Meu amigo relata que levou um tempo para perder o medo de usar essas capacidades, especialmente em altas velocidades, mas que aos poucos já aprendeu a confiar em quando podem ser utilizadas.
Dá para ter um carro como esse no Brasil? A resposta para essa pergunta é: depende do que você espera do uso do carro. Neste momento, várias das funcionalidades estão desabilitadas no país ou a empresa avisa que não estão disponíveis oficialmente. Assim, o uso fica por conta e risco do usuário.
Além disso o país não possui a infraestrutura necessária para carregar carros assim. Apesar de a autonomia chegar a mais de 400 quilômetros, não há estações de carga rápida pelo país. Isso em geral requer tomadas trifásicas de 400v e mesmo assim o tempo de carregamento pode chegar a nove horas.
Sem essa infraestrutura, são várias as complicações para o usuário. Alguns instalam a estação de carga na própria casa. Mesmo assim, ficam limitados em até onde dá para ir de forma conveniente e com autonomia.
Por que tudo isso é importante para o Brasil? Porque basta olhar para o que está acontecendo tanto na China como nos EUA para ver que o futuro dos carros é a eletricidade. O presidente americano Joe Biden acaba de anunciar um plano de US$ 2,2 trilhões para investimentos em infraestrutura. Desse valor, US$ 174 bilhões serão destinados a incentivar os carros elétricos fabricados nos EUA, com incentivos fiscais e até subsídios para o consumidor.
Além disso o governo federal vai fazer repasses a estados e municípios instalarem mais de 500 mil estações de carregamento espalhadas pelo país até 2030. O plano vai também eletrificar ônibus escolares e outros veículos de uso público, como caminhões do correio.
Em um momento em que o Brasil começa a perder de forma acelerada seu parque industrial de montadoras de veículos, tudo isso representa uma chamada clara: é hora de se reinventar. É nesse sentido que vale ter carros elétricos no Brasil: não como objetos de consumo individual, mas sim como parte da cadeia produtiva do país. É provável que em breve carros movidos a petróleo se tornem sinal de subdesenvolvimento.
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