Para analistas, troca na diretoria da Petrobras é ‘normal’

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Valor Econômico

O anúncio, na noite de quarta-feira, da renúncia de quatro diretores da Petrobras foi recebido pelo mercado como um evento previsível, após a decisão do presidente Jair Bolsonaro de não reconduzir ao cargo o atual presidente da petroleira, Roberto Castello Branco.

Os diretores-executivos de Finanças, Andrea Almeida; de Comercialização, André Chiarini; de Exploração e Produção, Carlos Alberto Pereira de Oliveira; e de Desenvolvimento da Produção, Rudimar Lorenzatto, vão permanecer na companhia até que seus substitutos sejam indicados, o que deve ocorrer após a realização da Assembleia Geral Extraordinária marcada para 12 de abril.

Analistas ouvidos pelo Valor consideram que o processo é normal dentro de uma empresa quando há uma troca de comando e dizem que o fundamental no debate sobre o nível de autonomia da companhia será acompanhar as medidas que vão ser tomadas depois da posse do novo presidente, o general Joaquim Silva e Luna.

Entre os nove membros que integravam a diretoria no começo de 2021, apenas dois ainda não anunciaram a saída

No caso de Andrea Almeida, a renúncia era esperada, já que a executiva foi uma indicação de confiança de Castello Branco, com quem trabalhou na Vale. Carlos Alberto de Oliveira deve se aposentar após quatro décadas na petroleira.

Nos bastidores, a avaliação é que os quatro diretores que deixam a empresa eram nomes do mercado que saem por lealdade a Castello Branco, além de receio sobre o novo comando da companhia. Silva e Luna foi indicado pela União para a presidência da estatal em fevereiro, em meio a críticas do presidente Jair Bolsonaro à política praticada pela Petrobras de repassar preços internacionais no mercado interno de combustíveis.

Entre os nove membros que integravam a diretoria da Petrobras no começo de 2021, apenas dois ainda não anunciaram intenção de deixar a empresa. A exdiretora executiva de refino e gás natural Anelise Lara anunciou que deixaria a empresa antes do anúncio da troca na presidência, assim como o diretor executivo de governança e conformidade, Marcelo Zenkner.

Analistas acreditam que é improvável que a troca na diretoria da estatal indique que a União vai ter maior ingerência sobre a política de preços de combustíveis, tema que gerou a crise que levou à troca no comando da companhia. No mercado, a visão é que uma eventual mudança do tipo seria barrada pelo conselho de administração e pelos próprios mecanismos de controle internos da Petrobras.

Além disso, a expectativa é que nomes técnicos sejam escolhidos para a nova diretoria colegiada. O anúncio da escolha de Salvador Dahan, da Nissan, como novo diretor de governança da Petrobras essa semana corrobora essa visão.

“Goste ou não, a nova administração vai ser composta pelo presidente Bolsonaro. Mas não vejo uma mudança ´da água para o vinho´ [na diretoria]. Estaremos de olho no presidente da companhia, ele tem que prestar contas ao conselho”, disse um conselheiro da estatal sob condição de anonimato.

O próprio conselho de administração da petroleira, no entanto, também está passando por uma reformulação. Quatro membros pediram para não serem reconduzidos depois do anúncio da mudança na administração da estatal.

Para Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o problema em torno da saída de Castello Branco foi a forma “intempestiva” como a decisão foi tomada. “Óbvio que mercado não gostou em princípio da indicação de um militar para a Petrobras. Independentemente de ser general, não é do ramo. Não agradou, mas pode ser uma surpresa positiva. Tem que aguardar, como ele vai formar diretoria”, frisou Pires.

Para ele, a estatal segue com autonomia e prova disso é que Castello Branco, mesmo de saída, mantém a política de reajustes nos preços de combustíveis. “Acho que não houve intervenção na Petrobras. O mercado reagiu de maneira histérica, mas o Roberto [Castello Branco] está lá trabalhando com toda a autonomia que teve desde o primeiro dia. Talvez o Bolsonaro tenha sido o presidente que menos interveio na Petrobras”, diz.

O coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), Rodrigo Leão, concorda que a saída dos diretores não causa sobressaltos. Segundo Leão, os nomes indicados ao conselho de administração denotam abertura no leque de especialidades dos integrantes do colegiado, com executivos ligados também à governança e ao RH. “A Petrobras pode ter uma gestão mais cautelosa, mas não há indicação de interferência e nem de militarização da empresa. Não vejo motivo para o mercado estressar”, diz.

Na visão da Ativa Investimentos, as trocas na diretoria e no conselho corroboram com a expectativa de mudanças organizacionais na Petrobras. Para a XP Investimentos, a percepção de risco da petroleira vai continuar elevada até a transição do comando.

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