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Silva e Luna fala em conciliar consumidor e acionista, e ações sobem mais de 5%

Folha de S. Paulo

Em sua posse como presidente da Petrobras, nesta segunda (19), o general Joaquim Silva e Lima disse que um dos principais desafios de sua gestão será conciliar os interesses de consumidores e acionistas. Ele não adiantou, porém, como atingir esse resultado.

Em seu discurso, Silva e Luna tentou tranquilizar investidores, ao mesmo tempo que tocou em um ponto sensível ao presidente da República, crítico da imprevisibilidade sobre os reajustes de preços dos combustíveis.

“Não há dúvidas de que os principais desafios são: fazer a Petrobras cada vez mais forte, trabalhando com visão de futuro, com segurança, respeito ao meio ambiente, aos acionistas e à sociedade em geral, de forma a garantir o maior retorno possível ao capital empregado”, afirmou.

“E fazer tudo isso conciliando interesses de consumidores e acionistas, valorizando os nossos petroleiros, buscando reduzir volatilidade [dos preços] sem desrespeitar a paridade internacional”, completou.

As declarações agradaram ao mercado, e as ações da Petrobras fecharam o dia em alta de 5,44% (preferenciais, sem direito a voto) e 5,03% (ordinárias, com direito a voto), na contramão do Ibovespa, que caiu 0,15%.

A cerimônia reforçou o avanço de militares sobre o setor de energia: ao lado de Silva e Lima, compuseram o palco os almirantes Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, Rodolfo Sabóia, diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), e Eduardo Bacellar Leal Ferreira, presidente do conselho da Petrobras.

Silva e Luna foi nomeado pelo conselho de administração da Petrobras na sexta (16), quase dois meses após sua indicação pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele já vinha trabalhando na empresa, mas, nesta segunda, assinou o termo de posse e recebeu o crachá da companhia.

Também tomou posse a nova diretoria da empresa, que pela primeira vez desde 2007 não tem mulheres.

“Confesso que me sinto honrado pela confiança e impactado pela responsabilidade. Entendo que essa sensação me mantém num ponto de equilíbrio entre a ousadia e a prudência”, disse Silva e Luna. Desde já, hipoteco minha lealdade, meu senso de responsabilidade e todas as minhas energias no cumprimento dessa honrada missão.”

Sua indicação para substituir Roberto Castello Branco se deu em meio à escalada de preços no início do ano, gerou em investidores temor sobre novas intervenções na política de preços e levou a empresa a perder R$ 102, 5 bilhões em valor de mercado em apenas dois dias.

Na cerimônia desta segunda, o ministro de Minas e Energia também sinalizou aos investidores, ao defender a manutenção do plano de venda de ativos da empresa – segundo ele, essencial para a redução da dívida e aumento da capacidade de investimento da companhia.

“[Os desinvestimentos] são fundamentais para atrair ainda mais agentes nacionais e internacionais para o setor”, afirmou. Ele defendeu também a nomeação de Luna, que nunca trabalhou no setor de petróleo, chamando o novo presidente de “gestor altamente experimentado, com ampla e diversificada atuação profissional”.

Silva e Lima indicou quatro novos diretores, em substituição aos executivos que decidiram deixar a empresa com Castello Branco. Os nomes também foram aprovados pelo conselho de administração na sexta. Outros quatro diretores da gestão anterior aceitaram o convite para permanecer nos cargos.

Para as vagas abertas na direção, foram nomeados apenas funcionários de carreira da Petrobras, escolhidos pelo general durante o processo de transição. Um nono executivo chegará depois, para assumir a diretoria de Governança e Conformidade.

O presidente do conselho de administração da companhia disse que a lista de escolhidos de Silva e Luna “reforça o compromisso da empresa com a meritocracia”.

“Ao ex-presidente Castello Branco e aos quatro diretores que hoje deixam a Petrobras agradeço a contribuição e faço votos de sucesso e saúde”, afirmou, em uma rara referência ao ex-presidente da empresa no evento.

A cerimônia foi realizada na sede da companhia, comum público restrito. A imprensa acompanhou o evento pela internet. Todos os presentes usavam máscara, mas a proteção foi retirada pelos executivos que discursaram.

Ligado aos sindicatos de petroleiros, o Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) viu no discurso de Silva e Lima uma tentativa de distensionar os conflitos entre governo e acionistas.

“A favor desse objetivo pesam um conselho de administração e uma direção-executiva compostos por gestores cuja trajetória está mais ligada à indústria petrolífera e à Petrobras do que ao mercado financeiro e de capitais”, disse o pesquisador do Ineep William Nozaki.

“Contra esse objetivo pesam a manutenção do amai plano estratégico e das política de desinvestimentos e de preços dos combustíveis.”

“O novo presidente fez questão de ressaltar que tem como meta garantir o maior retorno possível ao capital empregado. O mercado não acreditava em uma virada brusca de ideologia para a empresa, mas, sem dúvida, esse discurso foi bastante amigável e positivo para o investidor”, afirmou o analista da Clear Corretora, Rafael Ribeiro.

“Agora, resta saber como serão adotadas as medidas, mas, no primeiro impacto, o discurso foi bem recebido pelo mercado.”

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