O GLOBO
Após anunciar, na noite de quarta-feira, um reajuste de R$ 0,19 por litro na gasolina vendida nas refinarias, na esteira da ampliação dos subsídios federais aos combustíveis pelo governo, a Petrobras voltou atrás e retirou o aumento ontem. Com isso, o litro do combustível nas refinarias ficou R$ 0,19 mais barato, a menos de um mês do primeiro turno das eleições. Para o consumidor, o preço nas bombas poderá ficar 2% menor, segundo estimativas obtidas pelo GLOBO.
O reajuste parecia um movimento coordenado. Como já havia ocorrido outras vezes desde que os EUA e Israel atacaram o Irã, a Petrobras aproveitou os subsídios do governo para reajustar seus preços, em uma estratégia para evitar que a disparada nas cotações do petróleo chegasse ao consumidor final sem afetar tanto as finanças da estatal.
A aparência de coordenação desapareceu às 0h53 de ontem, quando a Petrobras divulgou uma correção do comunicado à imprensa distribuído às 20h44 de quarta-feira, sobre o reajuste da gasolina. Conforme a correção, não haveria mais aumento. Com o fim da subvenção de R$ 0,44 por litro de gasolina, introduzida em maio, o valor de venda na refinaria deixaria de ter esse desconto.
Mas, aplicada a desoneração de PIS e Cofins (R$ 0,63 por litro) do novo pacote de subsídios, o preço ao distribuidor ficou R$ 0,19 mais barato.
Questionada se consultou o Conselho de Administração ou representantes do governo para tomar as decisões, a Petrobras informou que “as decisões da companhia a respeito de reajustes de preços de combustíveis são tomadas exclusivamente no âmbito do Grupo Executivo de Mercado e Preços (Gemp)”, formado por diretores.
O comunicado da madrugada não cita motivos para o recuo; diz apenas que “diferentemente do informado anteriormente, a alteração no preço da gasolina da Petrobras nos pontos de venda corresponderá apenas à suspensão do desconto”, referindo-se à subvenção de R$ 0,44 por litro.
Uma explicação ouvida pelo GLOBO é que houve um mal-entendido. Para as equipes técnicas da estatal, o texto do decreto que determinou a desoneração de PIS e Cofins “foi complexo de entender”, conforme uma fonte que pediu anonimato. Quando entendeu melhor a troca de tipo de subsídio na gasolina — da subvenção, extinta, para a desoneração de tributos —, a Petrobras voltou atrás no aumento.
Integrantes do governo reforçam o discurso de erro de cálculo da empresa. A explicação é que todo movimento do Palácio do Planalto em torno do subsídio do combustível, conforme anunciado na quarta-feira, é feito de forma coordenada, combinada entre todos os envolvidos para evitar efeitos para o consumidor. Por isso, auxiliares de Lula avaliam que a Petrobras errou os cálculos.
Interferência política
Analistas de mercado viram o recuo da Petrobras como interferência política, diante da proximidade das eleições. Relatórios dos bancos de investimentos Itaú BBA e BTG Pactual apontaram que o recuo levantou desconfianças sobre a independência da política de preços da estatal.
Para Vitor Sousa, analista da corretora e gestora Genial Investimentos, “sem a menor sombra de dúvida” o recuo no reajuste deveu-se à eleição, já que a defasagem entre os preços no exterior e os valores praticados pela Petrobras está elevada.
Mesmo assim, para os investidores, uma nova disparada na cotação do petróleo, a US$ 107,63 o barril do tipo Brent (leia mais abaixo), falou mais alto. As ações preferenciais (PN, sem voto) da Petrobras fecharam em alta de 1,45% na B3, a R$ 49,12, enquanto as ordinárias (ON, com voto) subiram 1,77%, a R$ 54,64.
Segundo Sousa, a disparada do petróleo fala mais alto porque cerca de 80% dos resultados financeiros da Petrobras vêm da exploração e produção. Aumentos na cotação do petróleo significam ampliação de receitas.
— Se o petróleo vai a US$ 100 (o barril) é muito mais forte. No fim do dia, a gangorra, no saldo líquido, acaba favorecendo (as ações da Petrobras) — disse Sousa.
É um quadro diferente daquele de 2010 a 2014. Na ocasião, também houve avanço nas cotações do petróleo, e o governo Dilma Rousseff determinou o controle de preços no mercado interno pela Petrobras, também de olho nas eleições. O consumo doméstico crescia, era preciso importar, e a estatal queimava caixa ao vender no mercado brasileiro abaixo do que comprava lá fora.
— Foram quatro anos em que a Petrobras virou ferramenta de política monetária (para controlar a inflação) — disse Sousa, que considera os controles de preços de agora pontuais.
Mesmo assim, a Petrobras deveria reajustar seus preços de combustíveis por causa da defasagem em relação àqueles praticados no exterior, segundo Itaú BBA e BTG Pactual. A defasagem é maior no diesel, mercado no qual as importações respondem por de 25% a 30% da demanda doméstica.
érgio Araujo, presidente executivo da Abicom, entidade que representa importadores de combustível, não vê espaço político para a Petrobras reajustar o diesel nas refinarias, por causa do apelo eleitoral. A tendência, diz, é que os importadores continuem a trazer diesel mais caro do exterior, repassando ao preço final nas bombas. Desde o início da guerra no Irã, o diesel acumula alta de 13% ao consumidor, e a gasolina, de apenas 3,6%.
Embora o efeito no preço final de uma redução de R$ 0,19 por litro nas refinarias possa ser pequeno — uma queda de 2% nas bombas representa em torno de 0,1 ponto percentual de variação do IPCA, estima André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) —, a medida tem impacto na percepção das pessoas.
— Esse tipo de medida tem um efeito essencialmente temporário: reduz a inflação no curto prazo, mas não altera os fatores que determinam o preço do combustível — disse Braz. (Colaboraram Paulo Renato Nepomuceno e Geralda Doca)