Petrobras se prepara para começar a importar gás argentino

Raízen deixou Oxxo após tentativa de contrato com alvo de operação 
08/09/2025
Interesse da Petrobras consolida etanol de milho frente ao de cana 
08/09/2025
Mostrar tudo

Eixos

De olho na janela do verão, 19 empresas, entre produtores e comercializadores, movimentam-se para explorar as oportunidades de integração.

Sai o novo decreto do mandato do biometano. Petrobras acena para aquisição de plantas existentes do biocombustível. A cobertura do estúdio eixos no 12º Fórum do Biogás. ANP abre contratos legados. Agenda regulatória do gás em xeque. Novo gasoduto Rússia-China e mais.

Até então de fora dos primeiros movimentos de importação de gás natural da Argentina, a Petrobras começa a se preparar para explorar oportunidades de trazer molécula do país vizinho.

A estatal já avançou nos trâmites: obteve autorização do governo argentino para importar até 1 milhão de m³/dia, na modalidade interruptível, via Bolívia.

A fonte é seu gás próprio. A companhia, por meio de sua subsidiária Petrobras Operaciones S.A., tem uma fatia de 33,6% no ativo Rio Neuquén, na Bacia de Neuquén, e que é operado pela estatal argentina YPF.

Petrobras e YPF, aliás, mantêm um acordo não vinculante, até 2027, para avaliação de possíveis oportunidades de negócios em exploração e produção.

O gás argentino é, para a empresa, uma peça extra dentro do seu portfólio:

  • “A Petrobras está constantemente avaliando oportunidades para otimização do seu portfólio de comercialização/suprimento”
     
  • “Nesse contexto, o gás argentino passa a compor uma oportunidade adicional em base interruptível para a composição do portfólio de oferta de gás natural da Petrobras”, esclareceu a companhia à agência eixos, ao ser questionada sobre as oportunidades no país vizinho.

A expectativa é que no próximo verão uma nova janela de oportunidades de importação do gás argentino se abra.

As perspectivas de integração já movimentam 19 empresas, entre produtores do país vizinho e comercializadores do lado de cá da fronteira (veja na seção quem é quem, mais adiante)

A seguir, a gas week faz um giro pelas perspectivas de integração do Cone Sul.

  • Mas, antes, aquele convite para você se conectar ao sexto episódio do videocast gas week, com a diretora-presidente da Energisa Distribuição de Gás, Débora Oliver.  Assista na íntegra

O que esperar da próxima janela

A expectativa no mercado é de que, a partir de outubro, até abril de 2026, a janela de importação da Argentina volte a se abrir, na modalidade interruptível.

É nesse período que, sazonalmente, o consumo interno cai e a Argentina tem excedentes para exportar.

Mas a tendência é que as operações comecem a ganhar mais tração a partir de janeiro, quando começam a valer os novos preços mínimos de exportação – mecanismos previstos nos contratos do Plano Argentino de Fomento à Produção de Gás Natural (Plan Gas.Ar), no governo de Alberto Fernández.

Para melhorar a competitividade do gás argentino, o governo de Javier Milei vai reduzir os preços mínimos a partir de 2026 – mas, por força dos contratos do Plan Gas.Ar, só deixarão de existir em 2028.

Tecpetrol, produtora de óleo e gás do Grupo Techint, estima que o preço do gás argentino conseguirá chegar ao Brasil, assim, 19% mais barato do que o valor praticado nas primeiras operações de teste, em abril deste ano.

É “pouco menos de US$ 1 por milhão de BTU”, afirmou o gerente da unidade Brasil da Pluspetrol, Pablo Campana, no quinto episódio do videocast gas weekAssista na íntegra

“[A redução do preço mínimo] favorece o dinamismo do mercado, a arbitragem de preços que há entre um mercado e outro, mas ainda temos um preço mínimo”, ressalvou.

Campana acredita que, mesmo com algumas limitações, haverá mais atividades na próxima janela.

“Vamos ter, eu imagino, alguns volumes pequenos, [mas] mais regulares, mais constantes. E também podemos esperar alguma coisa, algum volume mais importante, mas por prazos mais curtos”, avalia.

Sem novos investimentos estruturais, a capacidade de exportação da Argentina ao Brasil, via Bolívia, no verão, limita-se a uma faixa de 3 milhões a 4 milhões de m³/dia.


Argentina tenta ancorar novo gasoduto

A capacidade da Argentina de exportar volumes firmes ao Brasil depende de novos investimentos na malha de gasodutos do país.

Transportadora Gas del Norte (TGN), do grupo Techint, desenhou um projeto de um novo gasoduto de 750 km (Neuquén-La Carlota), estimado em US$ 2 bilhões, e que visa aumentar a capacidade de envio do gás da Bacia de Neuquén, de olho tanto na demanda do Brasil quanto do mercado interno.

A TGN está concebendo o gasoduto com uma capacidade incremental de 20 milhões de m³/dia, sendo a metade disso destinada ao mercado brasileiro – o projeto pode ser redimensionado, a depender da demanda.

A transportadora também vê a necessidade de investir cerca de US$ 500 milhões na expansão do sistema atual, independente se a rota de exportação se derá por Bolívia, Chaco Paraguaio ou Uruguaiana.

Em julho, o projeto do oleoduto Vaca Muerta Oil Sur foi bem sucedido ao captar US$ 2 bilhões junto a bancos privados

Embora se trate de um projeto de óleo, mais fácil de se financiar, Campana destaca que o caso demonstra que projetos, se bem estruturados, podem se viabilizar no país vizinho.

O desafio será ancorar os novos gasodutos em contratos de longo prazo no Brasil – a Tecpetrol, por exemplo, espera fechar esses contratos até o fim de 2026, para que seja possível fornecer gás firme ao Brasil em 2028-2029.

Uruguai também se coloca como rota possível

Uruguai quer propor um projeto de um gasoduto para ligar Vaca Muerta ao Brasil, disse a ministra da Indústria e Energia, Fernanda Cardona, em uma entrevista à Bloomberg News. A ideia é iniciar as obras até 2030.

O Paisito também quer se posicionar como opção de rota para a integração do mercado de gás do Cone Sul, a exemplo do governo do Paraguai – país que não produz gás e tenta atrair investimentos em fertilizantes nitrogenados e geração de energia para data centers com o gás argentino.

A infraestrutura ociosa da Bolívia é, hoje, a única opção existente para transportar o gás argentino aos grandes centros de consumo do Brasil.

Em 2024, os governos do Brasil e Argentina anunciaram a criação de um grupo de trabalho para estudos conjuntos das rotas alternativas:

  • interligação via Uruguaiana (RS);
  • a rota pelo Chaco Paraguaio;
  • uma nova rota pelo Uruguai até o Rio Grande do Sul;
  • e o gás natural liquefeito (GNL).

rota uruguaia é vista com ceticismo pelo diretor-geral da TGN, Daniel Ridelener:

“O caminho mais óbvio é pela Bolívia. Outro que poderia ser bastante óbvio é por Uruguaiana… Se esse gasoduto for construído, estaremos fechando um anel de gás muito interessante. Há um terceiro caminho que o Paraguai propôs recentemente. Nessa área, há um corredor bioceânico, uma rota que liga o norte do Chile ao Oceano Atlântico e ao Brasil”

“Um quarto caminho, que do meu ponto de vista é muito pouco competitivo, é atravessar o Rio da Prata e chegar pelo Uruguai. E o quinto caminho, que acredito ser complementar, é via GNL”, analisou o executivo argentino, em encontro com jornalistas, no Rio de Janeiro, em agosto.

Em entrevista ao videocast gas week, o gerente sênior de Pesquisa da divisão de Gás e Energia do Cone Sul da Wood Mackenzie, Javier Toro, fez ressalvas à viabilidade de novas rotas.

“Com a perspectiva do aumento da produção doméstica [no Brasil] nos próximos dez anos, existe pouco espaço para fazer investimentos para trazer esse gás argentino de maneira mais firme com novos investimentos”, disse. Assista na íntegra

Segundo ele, a rota Uruguaiana-Porto Alegre, por exemplo, é um projeto que faz mais sentido a longo prazo: “Nos próximos dez anos, a produção nacional vai conseguir suprir grande parte do mercado doméstico brasileiro. Esse gasoduto faz sentido quando essa produção nacional começa a cair”.

Na visão da vice-presidente da Excelerate Energy para a América do Sul, Gabriela Aguilar, existe também um potencial de desenvolvimento de uma integração via GNL small-scale.

“A briga é qual é o mais conveniente: construir gasodutos novos ou fazer o transporte de GNL via terrestre. É uma briga que tem que ser bem consistente e bem analisada”, comentou, no videocast gas week. Assista na íntegra

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *