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O Brasil é o maior fornecedor isolado de petróleo para Portugal — 4,4 em cada 10 barris importados. O país europeu, porém, quer reduzir essa dependência e pretende contar para tal missão justamente com quem hoje lhe fornece esses recursos. A estratégia passa por uma parceria com o Brasil para desenvolver a produção de biocombustíveis em Portugal, com a construção de usinas em território luso, além de investir na produção de combustível sustentável de aviação (SAF) e de novas moléculas renováveis que, no longo prazo, poderão substituir parte dos combustíveis fósseis. Se possível, os projetos também deverão contar com capital brasileiro.
A aproximação entre Portugal e Brasil na produção de combustíveis menos poluentes, contudo, ainda não produziu contratos efetivos de joint venture, nem há empresas definidas ou cronograma, segundo Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia. Tudo permanece por definir. A expectativa, inclusive, era de dar passos mais largos na parceria na última semana. A ministra tinha uma agenda em Brasília, onde se encontraria com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que tem propagado o desejo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que empresas brasileiras estejam mais presentes em Portugal.
A viagem, que incluiria uma participação de Maria da Graça na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), foi adiada, mas, segundo ela própria, será retomada. Ao PÚBLICO Brasil, a ministra explica que o encontro com o colega brasileiro era uma prioridade. “A visita a Brasília e o encontro com o Ministro de Minas e Energia do Brasil eram o principal objetivo da viagem, que foi apenas adiada, com nova data a ser remarcada para breve”, frisa.
A ministra reconhece o desejo de instalação de usinas para produção de biocombustíveis e de SAF em Portugal, algo que seria “importante” para reduzir “substancialmente” a dependência do país de combustíveis fósseis, o que ganhou ainda mais urgência diante do conflito no Oriente Médio. “Mas, por enquanto, a visita ao Brasil será para contatos preliminares e exploratórios. Para além da reunião marcada com o ministro Alexandre Silveira, estava programada uma outra reunião com o Grupo Interministerial sobre o programa para combustível sustentável de aviação e uma visita à Embrapa Agroenergia, que espero que se venham a realizar”, assinala.
A intenção de estabelecer esse tipo de negócio com o Brasil parte do reconhecimento da liderança tecnológica do país no setor. Segundo Maria da Graça, o Brasil acumula há décadas experiência significativa em biocombustíveis avançados e SAF e, por isso, Portugal quer criar condições para a instalação de uma ou duas unidades de produção. O objetivo português se fortaleceu em maio de 2026, durante a visita oficial do presidente Lula a Portugal.
A ministra reforça, porém, que este processo está numa fase exploratória. “Se avançar, como gostaríamos, caberá à AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) acompanhar esses investimentos”, frisa. Ela não cita nomes, mas fontes do governo brasileiro não descartam a possibilidade de a Petrobras se associar com uma empresa petrolífera portuguesa para que a joint venture saia do papel. “O jogo está em aberto”, enfatiza um diplomata brasileiro ao PÚBLICO Brasil.
Escala industrial
Para o consultor em energias renováveis Luiz Piauhylino Filho, as falas da ministra reforçam que Portugal está mapeando primeiro a base científica e técnica da agroenergia brasileira antes de comprometer capital. Na avaliação dele, por enquanto, o que se vê é uma garantia diplomática e não de um compromisso comercial, e é preciso ficar atento a todo o processo para a entrada de biocombustíveis na União Europeia.
“Entre uma reunião exploratória e a entrada de um combustível renovável brasileiro no mercado europeu, há uma cadeia de etapas que inclui licenciamento, decisão de investimento, construção industrial, contratos de fornecimento e garantia de compra. Não há registro público de que qualquer uma delas tenha começado”, explica.
O Governo português diz apostar na expansão do biometano e do hidrogênio renovável, com licenciamento simplificado e incentivos à injeção na rede de gás. “Mas são duas coisas independentes. Portugal importa combustíveis líquidos e gás natural. A aposta no biometano e no hidrogênio é para substituir uma parte desse gás natural”, acrescenta.
Piauhylino Filho aponta quais produtos podem substituir os combustíveis fósseis líquidos: “O substituto natural do combustível fóssil líquido não é o biometano nem o hidrogênio, é o biocombustível líquido e o e-fuel, ou seja, diesel renovável (HVO), biodiesel, etanol, SAF e e-metanol”.
São produtos em que o Brasil já possui escala industrial, estando entre os maiores produtores mundiais de etanol e biodiesel, enquanto o bio e o e-metanol aparecem como uma fronteira para o transporte marítimo e a indústria pesada, setores em que a eletrificação avança mais lentamente.
Daí a importância que o especialista atribui à parceria entre Portugal e Brasil: “A parceria de biocombustíveis não é um detalhe lateral da transição energética portuguesa. É a única alavanca que toca a maior das dependências de Portugal”. No entanto, emenda Piauhylino Filho, falta conectar, no discurso e na política pública, o Brasil que fornece o petróleo cru e o Brasil que oferece a molécula renovável capaz de substituí-lo no mesmo nicho de combustível líquido.
Fábricas em fase exploratória
Piauhylino Filho identifica três elementos necessários para viabilizar capital privado para esse tipo de projeto: garantia de demanda, por meio de contratos de longo prazo para compra da produção — o chamado offtake —, uma moldura fiscal definida e clareza sobre o que o Estado colocará na operação. “Vontade política atrai o investidor até a porta. O que o faz entrar é o contrato de offtake e a segurança regulatória”, resume.
O diagnóstico coincide com o especificado no relatório Fuelling the Future, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial em janeiro de 2026, em parceria com a Bain & Company. Segundo o documento, cerca de 10% da nova capacidade de combustíveis limpos anunciada para 2030 chegaram à decisão final de investimento.
O relatório estima que o investimento anual precisa saltar de cerca de 22 bilhões (mil milhões) de euros para 87,7 bilhões de euros até 2030 e recomenda políticas baseadas em desempenho, partilha de risco entre os setores público e privado e compromissos antecipados de compra.
Portugal já executou em outra ocasião o modelo que agora propõe ao Brasil. Em setembro de 2023, a Galp aprovou um investimento de cerca de 400 milhões de euros para construir, em Sines, uma unidade de biocombustíveis avançados e SAF, em joint venture com a japonesa Mitsui (75% e 25% do capital, respectivamente). Com capacidade para 270 mil toneladas anuais, a planta produzirá diesel renovável e SAF a partir de resíduos. A previsão atual é de início da operação ainda em 2026.
O caso mostra o tempo necessário para transformar uma parceria em produção: quase três anos entre a decisão de investimento e a primeira molécula, mesmo com capital comprometido, sócio definido e licenciamento em curso.
Siga o dinheiro
Enquanto Portugal descreve a parceria com o Brasil como exploratória, o setor brasileiro de SAF já entrou em fase de execução. A Petrobras entregou, em dezembro de 2025, os primeiros volumes produzidos no país por coprocessamento: 3.000 metros cúbicos, equivalentes a cerca de um dia de consumo de querosene de aviação nos aeroportos do Rio de Janeiro. Em outubro último, a Refinaria Duque de Caxias tornou-se a primeira da América Latina a obter a certificação ISCC CORSIA para a produção e comercialização de SAF.
A estatal prevê investir 1,3 bilhão de euros até 2030 na adaptação do parque de refino e no desenvolvimento de bioprodutos. A primeira planta dedicada à produção de SAF e diesel renovável será instalada na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, São Paulo, com tecnologia HEFA da Honeywell UOP. A Replan e o Complexo de Energias Boaventura também se preparam para produzir SAF.
A Acelen, do grupo Mubadala Capital, está desenvolvendo na Bahia uma refinaria de combustíveis sustentáveis com investimento total estimado em 1,17 bilhão de euros. A unidade, em São Francisco do Conde, terá capacidade para produzir 1 bilhão de litros anuais de SAF e diesel renovável, com início de operação previsto para 2029. O projeto utilizará, inicialmente, óleo de cozinha usado e óleo de soja como matérias-primas e já tem cerca de 90% da comercialização dos biocombustíveis estruturada.
Já a JetBio, do grupo americano Summit Agricultural Group, prevê investir cerca de 1,66 bilhão de euros em uma unidade em Paulínia, com operação prevista para 2030 e 90% da produção destinada à exportação. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por sua vez, informa que as conversas sobre financiamentos para tais projetos se aceleraram.
A conta que a Europa está pagando
O movimento português em direção ao Brasil não é isolado. Desde o início do conflito no Oriente Médio, os países da União Europeia gastaram 35 bilhões de euros a mais em energia do que o habitual, segundo o comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, em declarações em Nicósia, em 13 de maio, ao fim de uma reunião informal de ministros da Energia do bloco. Na oportunidade, ele disse que a Europa vive uma crise de combustíveis fósseis, e não uma crise energética.
É nesse cenário que a legislação europeia aperta o calendário. O regulamento ReFuelEU Aviation, em vigor desde 2025, obriga os fornecedores a misturar 2% de SAF no combustível de aviação disponível nos aeroportos da UE neste ano, 6% em 2030, 20% em 2035 e 70% em 2050, com uma submeta específica para combustíveis sintéticos a partir de 2030.
O Brasil tem matéria-prima, escala industrial e projetos em andamento. Portugal tem demanda, acesso ao mercado europeu e uma meta de reduzir sua dependência dos combustíveis fósseis. O que ainda falta é transformar a aproximação política entre os dois países em uma operação concreta — e fazer o xadrez energético sair do tabuleiro e chegar à indústria.
(Público Brasil)