Visão Agro
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, em 15 de julho de 2026, uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com impacto direto sobre o etanol exportado pelo país. A cobrança entra em vigor em 22 de julho e tende a reduzir a competitividade do biocombustível nacional no mercado norte-americano, exigindo uma resposta comercial e institucional das usinas e entidades do setor.
A investigação norte-americana incluiu, entre os pontos questionados, a tarifa brasileira de 18% sobre o etanol importado e a alegação de falta de reciprocidade no acesso ao mercado nacional.
Dentro da bioenergia, o etanol é o produto brasileiro mais diretamente exposto à nova cobrança. Embora o USTR tenha retirado da medida determinadas mercadorias classificadas como produtos energéticos, as classificações aduaneiras normalmente utilizadas para o etanol combustível não aparecem entre as exceções. Outros biocombustíveis e derivados renováveis deverão ser avaliados conforme o código tarifário de cada operação, o que torna necessária uma conferência individual dos embarques.
Os Estados Unidos continuam sendo um destino relevante para o combustível renovável brasileiro. Entre janeiro e maio de 2026, o Brasil embarcou 65,254 mil metros cúbicos de etanol para o mercado norte-americano, aproximadamente 23,5% das exportações nacionais registradas no período. Em 2025, as vendas ao país somaram 255,361 mil metros cúbicos.
Impacto no setor
Na prática, a sobretaxa encarece o produto brasileiro para importadores e distribuidores dos Estados Unidos, podendo provocar renegociação de contratos, adiamento de compras ou substituição por oferta doméstica. Para as usinas, o principal risco está na redução das margens de exportação e no eventual redirecionamento de volumes para o mercado interno, movimento que pode aumentar a disponibilidade de etanol no Brasil e influenciar preços, estoques e decisões sobre o mix de produção.
A reação mais provável do setor será ampliar a pressão por uma solução negociada entre os dois governos. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) já defendeu que a política tarifária brasileira está dentro das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e que o diálogo técnico deve prevalecer. O próprio USTR informou que continuará aberto a negociações e poderá modificar a medida caso ocorram mudanças nas práticas questionadas.
No campo comercial, produtores e tradings devem revisar contratos, custos logísticos, condições de entrega e exposição cambial, além de acelerar a diversificação dos destinos. Mercados como Coreia do Sul, Países Baixos e outros países interessados em combustíveis de baixo carbono podem absorver parte dos volumes, enquanto a certificação ambiental do etanol brasileiro pode abrir espaço para aplicações ligadas ao Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês). O mercado norte-americano, porém, permanece estratégico porque o etanol de cana pode atender à categoria de biocombustível avançado do Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS, na sigla em inglês).