Balanço do órgão revela que quase metade dos postos fiscalizados este ano foram autuados no Estado; operações ocorrem em cenário de infiltração do crime e sonegação bilionária no setor.
O Globo Online
O Procon-RJ intensificou as ações de fiscalização no setor de postos de combustíveis em todo o Estado do Rio de Janeiro, resultando em um alto índice de autuações e interdições de estabelecimentos irregulares. O balanço do órgão, a pedido do Jornal O GLOBO, atualizado até 23 de julho de 2026, revela que, de 71 postos fiscalizados no ano, 33 foram autuados e 18 acabaram interditados. As sanções atingem 46,5% dos locais vistoriados em 2026, com forte concentração na Região Metropolitana, onde 27 estabelecimentos sofreram autuações e 17 foram lacrados.
As blitzes e vistorias promovidas pelo Procon-RJ ocorrem em um momento crítico para o setor de combustíveis fluminense, marcado pela infiltração do crime organizado e pela sonegação fiscal em massa. O GLOBO mostrou que a movimentação intensa de dinheiro vivo, a complexidade da distribuição e o faturamento bilionário transformaram as redes de postos em alvos estratégicos para facções criminosas, milícias, agentes do jogo do bicho e servidores públicos corruptos interessados em lavar recursos oriundos do crime.
O volume de interdições e infrações identificadas pelo Procon-RJ em 2026 dá continuidade ao rigor verificado em 2025. No ano anterior, a autarquia estadual realizou 129 fiscalizações, registrando 70 autuações e 35 interdições em diversas regiões do estado.
Na Região Metropolitana, foco principal das operações, foram 92 postos fiscalizados em 2025, com 56 autuações e 30 interdições. As ações do Procon-RJ também se estenderam de forma permanente pelas Baixadas Litorâneas, Costa Verde e Região Serrana, coibindo fraudes volumétricas, adulteração de combustível e irregularidades na documentação aos consumidores.
Levantamento do GLOBO aponta que, só nos últimos dez meses, nove operações colocaram sob suspeita mais de R$ 40 bilhões movimentados por redes de postos de combustível no estado.
A lista de crimes é extensa, da lavagem de dinheiro à abertura de empresas fantasmas em nome de “laranjas”. Ao todo, as ações cumpriram 109 mandados de busca e apreensão e 25 de prisão. Numa outra frente, com o objetivo de estancar a sonegação de impostos – outro problema grave e que pode acobertar mais condutas criminosas -, a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) identificou que 2.100 (95%) dos 2.205 postos do Rio apresentavam algum tipo de irregularidade. Só os que não cumpriam exigências do registro obrigatório sobre movimentação de combustíveis e volume de vendas eram 1.744, sobretudo na capital (636 postos), em Campos dos Goytacazes (86) e em São Gonçalo (81).
– É o setor que movimenta maior volume de recursos e o que tem a maior carga tributária. Se uma empresa não presta as informações de movimentação de entrada e saída de combustíveis, fica difícil rastrear o caminho do dinheiro – diz o titular da Sefaz, Guilherme Mercês.
Mais rentável que Droga
No domingo, O GLOBO já havia mostrado como tráfico e milícia no Rio sequestraram setores da economia popular, cobrando taxas e controlando a venda de produtos básicos, como o ovo e o tijolo, em áreas dominadas ou sob influência do crime. No caso dos combustíveis, operações como a Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, revelaram os tentáculos da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em esquemas bilionários de importações fraudulentas e de venda em postos espalhados pelo país. No Rio, as investigações desvendaram que grupos como o Comando Vermelho (CV) se infiltraram nesse filão, enquanto quadrilhas se especializaram em perfurar oleodutos e roubar cargas de combustíveis e lubrificantes.
– É um segmento que ainda movimenta quantidade significativa de dinheiro em espécie, o que dificulta o controle pelos órgãos de fiscalização. Além disso, existem diferentes formas de fraude, como adulteração das bombas, entrega de quantidade inferior à paga pelo consumidor e a venda de combustíveisadulterados por preços mais baixos – afirma Renan Mello, titular da Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro.
A questão levou o Ministério da Justiça e Segurança Pública a se reunir este mês com órgãos estaduais a fim de discutir estratégias conjuntas de enfrentamento no âmbito do Escritório Nacional Antifacção (ENA).