Valor Econômico
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A eletrificação avança no mercado automotivo, mas com velocidade menor do que a prevista, dando sobrevida aos modelos a combustão e maior destaque aos biocombustíveis. E são os modelos híbridos que ganham mais força. A opção mais comum é a dos veículos que recuperam a própria energia nas freadas, mas os plug-ins, com motor elétrico carregável em tomadas ou estações de carga, estão crescendo. A combinação deste tipo de tecnologia com um combustível mais limpo é a fórmula que muitas montadoras apostam para cumprirem a promessa de uma indústria menos poluente.
“A guerra é contra a descarbonização”, afirma Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). O dirigente diz que saltos tecnológicos estão acontecendo e que, para esse processo seguir adiante de forma sustentável, ele precisa ser complementado por novas opções ligadas aos híbridos. “Vamos ter combustão e elétricos convivendo por muito tempo ainda. Alguns países avançam um pouco mais, talvez a China chegue a 50% do mercado, mas você ainda vai ter a realidade de que os países são diferentes”.
O Brasil, que trabalha com a tecnologia flex há muitos anos, pode dar um salto à frente. A combinação da tecnologia das baterias de marcas chinesas com o know-how e o costume do consumidor local com o etanol torna-se uma fórmula importante nesse mercado. Há ainda o impulso do Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve), que entrou em vigor no ano passado e que exige uma redução gradual, porém drástica, das emissões dos carros até 2032.
“Aí entra a questão do híbrido flex”, diz Gilberto Martins, diretor de assuntos regulatórios da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). “Você usa a nova tecnologia [eletrificação] e ainda continua usando o cenário do combustível renovável que o Brasil tem amplamente disponível”, diz. Martin aponta que o fato de 50% da energia do país já ser renovável, combinado com a tecnologia do híbrido flex, dá ao Brasil vantagem em relação a outros na descarbonização.
Montadoras já começaram a correr atrás das oportunidades. A Toyota foi a primeira a trazer ao mercado um híbrido flex, misturando eletrificação e um motor a combustão capaz de rodar tanto com gasolina quanto com etanol. A previsão é que 2026 termine com ao menos outros 15 modelos do tipo, de marcas como BYD, Chevrolet, Grupo Stellantis, Renault, Geely, GAC, entre outras que estão em fase de desenvolvimento.
Milad Kalume Neto, diretor executivo da K. Lume Consultoria, espera uma alta acelerada de modelos com essa tecnologia nos próximos anos, especialmente com a chegada dos eletrificados chineses com motores flex. “O movimento para utilização do flex híbrido tende a se consumar como uma das melhores alternativas, principalmente aqui no Brasil”, afirma. A visão é que os elétricos ainda seguirão como um nicho do mercado, e que os híbridos serão a forma das marcas alcançarem outra fatia importante, mantendo-se dentro das novas regras de emissões.
“Por mais que o uso dos carros elétricos esteja em ascensão, o mercado de biocombustíveis é extremamente perene e robusto”, defende Gabriel Estevam, diretor de PD&I da Ambipar, empresa que desenvolveu um etanol a partir de resíduos das indústrias de alimentos e bebidas. Estevam lembra que carros 100% elétricos dependem de novas estruturas de abastecimento, enquanto os híbridos conseguem operar utilizando eletricidade e etanol de forma sinérgica.
Os próximos passos também englobam o alcance que essa tecnologia dos híbridos flex pode ter para a exportação para outros mercados. O representante da Anfavea aponta para possibilidades importantes principalmente em mercados em que a introdução do etanol já está em processo, como Índia, de países da África e dos vizinhos na América do Sul. “É uma possibilidade muito grande, até pelo Brasil ser pioneiro nessa tecnologia flex”, diz Martins. “Nesse momento de transição, nem todos os países vão conseguir acompanhar a velocidade do veículo elétrico”, afirma.
O consultor Kalume Neto diz que a janela de oportunidade para as vendas está aberta, e faz um alerta: “Não pode esperar 2060”.