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Israel aumentou de forma substancial a compra de petróleo brasileiro, coincidindo com a ofensiva do governo de Benjamin Netanyahu sobre Gaza. Dados oficiais contidos no anuário de 2025 da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) revelam que as vendas do combustível nacional para Israel aumentaram em 51% entre 2023 e 2024. Nesse mesmo período, a exportação de petróleo do Brasil para o mundo sofreu um incremento de apenas 9%.
Não há qualquer registro de exportação de petróleo do Brasil para Israel entre 2015 e 2020. Em 2021, ainda no governo de Jair Bolsonaro, as vendas foram iniciadas. Em 2022, elas chegaram a 11 milhões de barris. Mas, em 2023, houve uma queda substancial e somaram 1,9 milhão de barris.
Foi justamente depois de Israel iniciar a operação em Gaza, após os ataques do Hamas em outubro de 2023, que uma nova onda de venda de combustível brasileiro foi registrada. Em 2024, elas subiram para 2,9 milhões de barris, um incremento de 51% em apenas um ano.
O dado, até então indisponível, confirma o Brasil como um dos principais fornecedores de petróleo aos israelenses durante a operação em Gaza, denunciada pelos tribunais internacionais como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
A informação era aguardada há meses por organizações da sociedade civil e parlamentares que denunciam o envolvimento brasileiro no abastecimento de recursos estratégicos utilizados pelo governo de Netanyahu em sua ofensiva militar na região e, em especial, em Gaza.
O que dizem as empresas petroleiras
A Petrobras afirmou que não vende o combustível para Israel desde outubro de 2023. Em nota, a empresa afirmou que ‘comercializa petróleo por meio de venda direta para refinadores estrangeiros e mantém controle de suas entregas até o destino’. ‘A Companhia não vende petróleo bruto ou óleo combustível para clientes de Israel desde 2023’, afirmou.
‘A Petrobras não é a única produtora e exportadora de petróleo do Brasil. Atualmente, as exportações da Petrobras correspondem a cerca de 40% do total de exportações de petróleo do Brasil. Os outros 60% são comercializados por outras empresas que atuam no país, como operadoras ou parceiras’, apontou.
Enquanto isso, a ANP diz não ter o detalhamento de quais são as empresas envolvidas nos números que ela divulga em seu anuário, já que os dados seriam do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Já a Shell se recusou a comentar ao ser questionada se estava usando petróleo retirado no Brasil para vender para Israel. ‘Devido a aspectos comerciais, a Shell prefere não comentar’, disse a empresa.
Mobilização
Mesmo assim, com a divulgação oficial dos dados da ANP, cresce a expectativa de que movimentos como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e sindicatos da categoria retomem com mais força a mobilização contra o envolvimento do Brasil com o regime israelense em pleno cenário de crimes de guerra e contra a humanidade.
Para fontes na campanha, o tema ganha contornos jurídicos, com implicações que ultrapassam a diplomacia comercial e tocam diretamente na ética e nos compromissos internacionais do país com os direitos humanos.
Os números confirmam o que já vinha sendo denunciado por entidades como a organização internacional Oil Change International, que em 2024 apontou o Brasil como o quarto maior fornecedor de petróleo cru a Israel desde o início da ofensiva militar.
Segundo a pesquisa, o produto brasileiro representou cerca de 9% do total consumido por Israel durante o conflito e teria sido comercializado pela Shell e pela TotalEnergies.
Até o fechamento desta edição, a TotalEnergies não tinha respondido aos pedidos de esclarecimento por parte da reportagem.
Na ofensiva em Gaza, o petróleo e combustíveis passaram a ser um elemento crítico nas negociações. Israel dificultou a entrada dos produtos no território palestino, alegando que seriam desviados pelo Hamas. A OMS e entidades humanitárias denunciaram o gesto que, em muitos casos, deixou hospitais sem energia.
No caso de Israel, as múltiplas frentes de guerra levaram as importações de combustíveis a atingir seu maior nível desde julho de 2022. As importações de gasolina, diesel, combustível de aviação e gasóleo estão estimadas em 74 mil barris por dia para junho, de acordo com os dados de remessa coletados pela empresa Kpler, que monitora o setor.
No caso do Brasil, os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o petróleo foi o principal produto exportado pelo Brasil a Israel em 2024, totalizando US$ 216 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão). O volume representa 30% do total vendido pelo Brasil ao mercado israelense.
No final de maio, a FUP (Federação Única dos Petroleiros) e a FNP (Federação Nacional dos Petroleiros) enviaram uma carta ao presidente Lula pedindo a suspensão imediata das exportações de petróleo brasileiro a Israel.
Fontes que fizeram parte da campanha indicaram que a ação dos petroleiros estava paralisada à espera de dados oficiais da ANP, que agora foram tornados públicos.
A pressão se intensificou no último dia 10 de julho, quando a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou um requerimento ao Ministro de Minas e Energia solicitando esclarecimentos sobre as exportações brasileiras de petróleo e derivados para Israel desde o início da guerra em outubro de 2023.
A revelação foi considerada ‘muito grave’ pela parlamentar. ‘O aumento de 51% das exportações da Petrobras para Israel é relevante e muito grave, pois significa que, na prática, se intensificou a exportação de petróleo brasileiro justamente quando o genocídio também se intensificou em Gaza’, afirmou Sâmia ao UOL.
‘Nosso mandato já havia entrado com um Requerimento de Informação para apurar a situação, e vamos ampliar a divulgação desses dados para os movimentos que defendem a Palestina’, disse. ‘É necessário intensificar a pressão para que a Petrobras interrompa o fornecimento, bem como seguir a mobilização pelo rompimento imediato de relações comerciais e diplomáticas com Israel’, defendeu.
O requerimento parlamentar traz oito perguntas centrais, abordando desde a existência de cláusulas de direitos humanos nos contratos de exportação até os mecanismos de fiscalização do destino do petróleo extraído no Brasil. A deputada também questiona se houve alguma revisão nas diretrizes de exportação após as decisões da Corte Internacional de Justiça, que reconheceu a plausibilidade de genocídio na Faixa de Gaza.
Relatora da ONU apontou para participação da Petrobras
Os dados ainda são publicados no momento em que a relatoria da ONU liderada por Francesca Albanese incluiu a Petrobras na lista de empresas que se beneficiam das ofensivas militares de Israel. Ela teria abastecido refinarias israelenses.
O documento denuncia que empresas – inclusive estatais – estariam lucrando com a destruição da Palestina, e cita expressamente a Petrobras como uma das corporações que integram a cadeia de fornecimento de combustível de aviação utilizado em bombardeios contra áreas civis.
Segundo o estudo usado por Albanese, a Petrobras participou diretamente em ao menos dois envios de petróleo e derivados para Israel em 2023. Nestes dois navios o produto movimentado era da Petrobras, operado em terminal de sua subsidiária Transpetro e em um dos casos em navio operado pela própria subsidiária.
‘O genocídio, ao que parece, é lucrativo. Isso não pode continuar. A responsabilização deve ser o resultado’, alertou Albanese em suas redes sociais.
Seu relatório levou o governo de Donald Trump a aplicar sanções contra a relatora e pedir sua demissão do cargo na ONU.
Sindicatos exigem transparência
Ao UOL, o diretor do Sindipetro, Leandro Lanfredi, afirmou ao tomar conhecimento dos números que vai exigir transparência por parte da empresa.
‘A Petrobrás foi construída pela luta dos trabalhadores brasileiros’, disse. ‘Consideramos inadmissível que bens naturais comuns do nosso país possam ser usados em um genocídio. Responsabilizamos a Petrobras pelas transações que já comprovamos que ocorreram e responsabilizamos o governo brasileiro pela continuidade da entrega de petróleo e derivados brasileiros sejam eles Petrobras, Shell, Total ou da empresa que forem’, afirmou.
‘Falar em genocídio, mas não só continuar, como aumentar essa exportação é participar deste crime que tanto revolta os trabalhadores e os povos de todo o mundo’, disse.
Segundo ele, o sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Petroleiros, já votaram em suas maiores instâncias deliberativas uma campanha para proibir essa entrega de petróleo e derivados brasileiros para Israel.
‘Exigimos transparência nas informações, inclusive de quem são os clientes da Petrobras em operações ship-to-ship (navio a navio) no Mediterrâneo e que possam ter como destino Israel. Não pouparemos esforços para impedir essa conivência e comércio que só serve para enriquecer os acionistas privados da Petrobras e demais petrolíferas’, completou.
Segundo ele, pelo menos duas triangulações foram registradas ainda em 2023, antes dos ataques do Hamas em 7 de outubro.
Navio Copper Spirit: partiu do Terminal de São Sebastião, operado pela Transpetro (subsidiária da Petrobras), chegando ao Porto de Asquelon, Israel, em abril de 2023 – ao lado da refinaria de Ashdod, responsável pelo combustível da Força Aérea Israelense.
Navio Garrincha: pertencente à frota da Transpetro, saiu do terminal da Baía de Guanabara (RJ) em fevereiro de 2023 com petróleo da Petrobrás. Fez uma operação ship-to-ship no Egito antes de seguir para Israel.
Após outubro de 2023, as exportações diretas para Israel diminuíram abruptamente oficialmente. ‘Mas isso não significou um fim no fornecimento – apenas sua ocultação’, escreveu o sindicalista.
‘O petróleo passou a ser redirecionado para países como Itália, Turquia e, sobretudo, Egito. Nessas rotas, navios com petróleos e derivados brasileiros realizam transferências ‘ship-to-ship’ (STS) em alto-mar, dificultando o rastreio do destino da carga e qual empresa que fez essa movimentação’, disse.
Casos dessa nova fase:
Navio MILOS (IMO 9746619): partiu de Santos em dezembro de 2023 com petróleo brasileiro. Transferiu carga no Egito, que possui oleodutos conectados a Israel.
Navio FREUD (IMO 9804461): repetiu a operação em fevereiro de 2024.
Israel rejeita acusação de genocídio
Procurada pelo UOL, a diplomacia de Israel afirma que, desde 2024, tem usado as reuniões do Conselho de Segurança da ONU, da Assembleia Geral e as audiência em diferentes tribunais para rejeitar a noção de que estaria cometendo um genocídio em Gaza.
Durante as audiências na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia em janeiro de 2024, os representantes legais de Israel alegaram que a denúncia conduzida pela África do Sul era ‘infundada’ e uma ‘calúnia’. Sua versão era de que a ação era de aplicação do ‘direito de autodefesa’ após os ataques do Hamas em 7 de outubro.
Na defesa feita por Christopher Staker, advogado que representou Israel na Corte, ‘as inevitáveis fatalidades e o sofrimento humano de qualquer conflito não são, por si só, um padrão de conduta que demonstre plausivelmente uma intenção genocida’.
Em maio deste ano, numa carta enviada para a ONU para protestar contra a decisão de um alto dirigente da entidade de questionar se Israel estava agindo para prevenir um genocídio, o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, acusou o representante internacional de usar a palavra genocídio como arma. Segundo ele, a palavra foi pronunciada ‘sem provas, mandato ou restrição’.
Venda de combustível brasileiro a Israel sobe 51% em meio a ofensiva a Gaza
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Israel aumentou de forma substancial a compra de petróleo brasileiro, coincidindo com a ofensiva do governo de Benjamin Netanyahu sobre Gaza. Dados oficiais contidos no anuário de 2025 da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) revelam que as vendas do combustível nacional para Israel aumentaram em 51% entre 2023 e 2024. Nesse mesmo período, a exportação de petróleo do Brasil para o mundo sofreu um incremento de apenas 9%.
Não há qualquer registro de exportação de petróleo do Brasil para Israel entre 2015 e 2020. Em 2021, ainda no governo de Jair Bolsonaro, as vendas foram iniciadas. Em 2022, elas chegaram a 11 milhões de barris. Mas, em 2023, houve uma queda substancial e somaram 1,9 milhão de barris.
Foi justamente depois de Israel iniciar a operação em Gaza, após os ataques do Hamas em outubro de 2023, que uma nova onda de venda de combustível brasileiro foi registrada. Em 2024, elas subiram para 2,9 milhões de barris, um incremento de 51% em apenas um ano.
O dado, até então indisponível, confirma o Brasil como um dos principais fornecedores de petróleo aos israelenses durante a operação em Gaza, denunciada pelos tribunais internacionais como crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
A informação era aguardada há meses por organizações da sociedade civil e parlamentares que denunciam o envolvimento brasileiro no abastecimento de recursos estratégicos utilizados pelo governo de Netanyahu em sua ofensiva militar na região e, em especial, em Gaza.
O que dizem as empresas petroleiras
A Petrobras afirmou que não vende o combustível para Israel desde outubro de 2023. Em nota, a empresa afirmou que ‘comercializa petróleo por meio de venda direta para refinadores estrangeiros e mantém controle de suas entregas até o destino’. ‘A Companhia não vende petróleo bruto ou óleo combustível para clientes de Israel desde 2023’, afirmou.
‘A Petrobras não é a única produtora e exportadora de petróleo do Brasil. Atualmente, as exportações da Petrobras correspondem a cerca de 40% do total de exportações de petróleo do Brasil. Os outros 60% são comercializados por outras empresas que atuam no país, como operadoras ou parceiras’, apontou.
Enquanto isso, a ANP diz não ter o detalhamento de quais são as empresas envolvidas nos números que ela divulga em seu anuário, já que os dados seriam do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Já a Shell se recusou a comentar ao ser questionada se estava usando petróleo retirado no Brasil para vender para Israel. ‘Devido a aspectos comerciais, a Shell prefere não comentar’, disse a empresa.
Mobilização
Mesmo assim, com a divulgação oficial dos dados da ANP, cresce a expectativa de que movimentos como o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) e sindicatos da categoria retomem com mais força a mobilização contra o envolvimento do Brasil com o regime israelense em pleno cenário de crimes de guerra e contra a humanidade.
Para fontes na campanha, o tema ganha contornos jurídicos, com implicações que ultrapassam a diplomacia comercial e tocam diretamente na ética e nos compromissos internacionais do país com os direitos humanos.
Os números confirmam o que já vinha sendo denunciado por entidades como a organização internacional Oil Change International, que em 2024 apontou o Brasil como o quarto maior fornecedor de petróleo cru a Israel desde o início da ofensiva militar.
Segundo a pesquisa, o produto brasileiro representou cerca de 9% do total consumido por Israel durante o conflito e teria sido comercializado pela Shell e pela TotalEnergies.
Até o fechamento desta edição, a TotalEnergies não tinha respondido aos pedidos de esclarecimento por parte da reportagem.
Na ofensiva em Gaza, o petróleo e combustíveis passaram a ser um elemento crítico nas negociações. Israel dificultou a entrada dos produtos no território palestino, alegando que seriam desviados pelo Hamas. A OMS e entidades humanitárias denunciaram o gesto que, em muitos casos, deixou hospitais sem energia.
No caso de Israel, as múltiplas frentes de guerra levaram as importações de combustíveis a atingir seu maior nível desde julho de 2022. As importações de gasolina, diesel, combustível de aviação e gasóleo estão estimadas em 74 mil barris por dia para junho, de acordo com os dados de remessa coletados pela empresa Kpler, que monitora o setor.
No caso do Brasil, os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o petróleo foi o principal produto exportado pelo Brasil a Israel em 2024, totalizando US$ 216 milhões (aproximadamente R$ 1,2 bilhão). O volume representa 30% do total vendido pelo Brasil ao mercado israelense.
No final de maio, a FUP (Federação Única dos Petroleiros) e a FNP (Federação Nacional dos Petroleiros) enviaram uma carta ao presidente Lula pedindo a suspensão imediata das exportações de petróleo brasileiro a Israel.
Fontes que fizeram parte da campanha indicaram que a ação dos petroleiros estava paralisada à espera de dados oficiais da ANP, que agora foram tornados públicos.
A pressão se intensificou no último dia 10 de julho, quando a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) apresentou um requerimento ao Ministro de Minas e Energia solicitando esclarecimentos sobre as exportações brasileiras de petróleo e derivados para Israel desde o início da guerra em outubro de 2023.
A revelação foi considerada ‘muito grave’ pela parlamentar. ‘O aumento de 51% das exportações da Petrobras para Israel é relevante e muito grave, pois significa que, na prática, se intensificou a exportação de petróleo brasileiro justamente quando o genocídio também se intensificou em Gaza’, afirmou Sâmia ao UOL.
‘Nosso mandato já havia entrado com um Requerimento de Informação para apurar a situação, e vamos ampliar a divulgação desses dados para os movimentos que defendem a Palestina’, disse. ‘É necessário intensificar a pressão para que a Petrobras interrompa o fornecimento, bem como seguir a mobilização pelo rompimento imediato de relações comerciais e diplomáticas com Israel’, defendeu.
O requerimento parlamentar traz oito perguntas centrais, abordando desde a existência de cláusulas de direitos humanos nos contratos de exportação até os mecanismos de fiscalização do destino do petróleo extraído no Brasil. A deputada também questiona se houve alguma revisão nas diretrizes de exportação após as decisões da Corte Internacional de Justiça, que reconheceu a plausibilidade de genocídio na Faixa de Gaza.
Relatora da ONU apontou para participação da Petrobras
Os dados ainda são publicados no momento em que a relatoria da ONU liderada por Francesca Albanese incluiu a Petrobras na lista de empresas que se beneficiam das ofensivas militares de Israel. Ela teria abastecido refinarias israelenses.
O documento denuncia que empresas – inclusive estatais – estariam lucrando com a destruição da Palestina, e cita expressamente a Petrobras como uma das corporações que integram a cadeia de fornecimento de combustível de aviação utilizado em bombardeios contra áreas civis.
Segundo o estudo usado por Albanese, a Petrobras participou diretamente em ao menos dois envios de petróleo e derivados para Israel em 2023. Nestes dois navios o produto movimentado era da Petrobras, operado em terminal de sua subsidiária Transpetro e em um dos casos em navio operado pela própria subsidiária.
‘O genocídio, ao que parece, é lucrativo. Isso não pode continuar. A responsabilização deve ser o resultado’, alertou Albanese em suas redes sociais.
Seu relatório levou o governo de Donald Trump a aplicar sanções contra a relatora e pedir sua demissão do cargo na ONU.
Sindicatos exigem transparência
Ao UOL, o diretor do Sindipetro, Leandro Lanfredi, afirmou ao tomar conhecimento dos números que vai exigir transparência por parte da empresa.
‘A Petrobrás foi construída pela luta dos trabalhadores brasileiros’, disse. ‘Consideramos inadmissível que bens naturais comuns do nosso país possam ser usados em um genocídio. Responsabilizamos a Petrobras pelas transações que já comprovamos que ocorreram e responsabilizamos o governo brasileiro pela continuidade da entrega de petróleo e derivados brasileiros sejam eles Petrobras, Shell, Total ou da empresa que forem’, afirmou.
‘Falar em genocídio, mas não só continuar, como aumentar essa exportação é participar deste crime que tanto revolta os trabalhadores e os povos de todo o mundo’, disse.
Segundo ele, o sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Petroleiros, já votaram em suas maiores instâncias deliberativas uma campanha para proibir essa entrega de petróleo e derivados brasileiros para Israel.
‘Exigimos transparência nas informações, inclusive de quem são os clientes da Petrobras em operações ship-to-ship (navio a navio) no Mediterrâneo e que possam ter como destino Israel. Não pouparemos esforços para impedir essa conivência e comércio que só serve para enriquecer os acionistas privados da Petrobras e demais petrolíferas’, completou.
Segundo ele, pelo menos duas triangulações foram registradas ainda em 2023, antes dos ataques do Hamas em 7 de outubro.
Navio Copper Spirit: partiu do Terminal de São Sebastião, operado pela Transpetro (subsidiária da Petrobras), chegando ao Porto de Asquelon, Israel, em abril de 2023 – ao lado da refinaria de Ashdod, responsável pelo combustível da Força Aérea Israelense.
Navio Garrincha: pertencente à frota da Transpetro, saiu do terminal da Baía de Guanabara (RJ) em fevereiro de 2023 com petróleo da Petrobrás. Fez uma operação ship-to-ship no Egito antes de seguir para Israel.
Após outubro de 2023, as exportações diretas para Israel diminuíram abruptamente oficialmente. ‘Mas isso não significou um fim no fornecimento – apenas sua ocultação’, escreveu o sindicalista.
‘O petróleo passou a ser redirecionado para países como Itália, Turquia e, sobretudo, Egito. Nessas rotas, navios com petróleos e derivados brasileiros realizam transferências ‘ship-to-ship’ (STS) em alto-mar, dificultando o rastreio do destino da carga e qual empresa que fez essa movimentação’, disse.
Israel rejeita acusação de genocídio
Procurada pelo UOL, a diplomacia de Israel afirma que, desde 2024, tem usado as reuniões do Conselho de Segurança da ONU, da Assembleia Geral e as audiência em diferentes tribunais para rejeitar a noção de que estaria cometendo um genocídio em Gaza.
Durante as audiências na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia em janeiro de 2024, os representantes legais de Israel alegaram que a denúncia conduzida pela África do Sul era ‘infundada’ e uma ‘calúnia’. Sua versão era de que a ação era de aplicação do ‘direito de autodefesa’ após os ataques do Hamas em 7 de outubro.
Na defesa feita por Christopher Staker, advogado que representou Israel na Corte, ‘as inevitáveis fatalidades e o sofrimento humano de qualquer conflito não são, por si só, um padrão de conduta que demonstre plausivelmente uma intenção genocida’.
Em maio deste ano, numa carta enviada para a ONU para protestar contra a decisão de um alto dirigente da entidade de questionar se Israel estava agindo para prevenir um genocídio, o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, acusou o representante internacional de usar a palavra genocídio como arma. Segundo ele, a palavra foi pronunciada ‘sem provas, mandato ou restrição’.