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Valor Econômico

A troca no comando da Petrobras, por intervenção do presidente Jair Bolsonaro, deve tumultuar o ambiente de negócios e gerar incertezas sobre a abertura do refino, na avaliação de um executivo da estatal e de pessoas envolvidas nas operações já em andamento.
Das oito refinaras à venda – duas estão em estágios mais avançados. A Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, segue a mais célere, com oferta de US$ 1,65 bilhão (R$ 8,87 bilhões). Fontes ligadas às negociações não veem risco, por ora, de voltarem atrás no “deal” (negócio). O risco seria o novo presidente reverter a decisão de privatizar e desfazer a operação. Para essas fontes, foi o governo que incentivou a venda das unidades. “Seria um retrocesso enorme de agenda. A estatal, porém, ainda não anunciou a assinatura do contrato, sujeito à aprovação do conselho da companhia”.
No caso do Ultra, as conversas ainda estão mais preliminares para concluir a venda. Uma pessoa a par do assunto disse que a venda decorre de uma Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Cade. Além disso, interessa à Petrobras reduzir a dívida e criar um mercado real para os derivados de petróleo, retirando da estatal o poder de fixar preço. A estatal recebeu uma oferta entre cerca de US$ 1,2 bilhão e US$ 1,4 bilhão.
A venda das refinarias é um dos principais pilares para redução da dívida companhia. A intenção da empresa é reduzir o endividamento bruto dos US$ 79,6 bilhões em setembro de 2020 para US$ 60 bilhões em 2022 – patamar a partir do qual espera aumentar a remuneração aos acionistas para além do mínimo obrigatório.
O programa de desinvestimentos, além de RLAM e Refap, do Rio Grande do Sul, inclui a Reman (AM), Rnest (PE), Regap (MG), Lubnor (CE), SIX (PR) e Repar (PR).
“Quem está interessado em comprar as refinarias não sabe se vai poder fazer preço do seu produto [sem uma interferência estatal nos preços da Petrobras]. É muito importante ver quais as mensagens que o novo presidente da Petrobras vai dar daqui para frente”, afirmou o executivo da estatal, sob a condição de anonimato.
Na sexta-feira, Bolsonaro indicou o general da reserva Joaquim Silva e Luna, diretor-geral da Itaipu Binacional, para substituir Roberto Castello Branco. A troca, ainda sujeita ao crivo do conselho de administração, ocorre em meio a ameaças de uma nova greve dos caminhoneiros e manifestações de insatisfação do presidente da República em relação à política de preços da empresa – baseada em reajustes sem periodicidade, alinhados aos preços internacionais.
Sobre as queixas dos caminhoneiros, em suas primeiras declarações após a indicação, Silva e Luna disse que uma empresa tem que enxergar as “questões sociais”. Ele negou, porém, que Bolsonaro tenha pedido mudanças na política de preços da empresa. “O caminhoneiro está se manifestando, mas a sociedade inteira percebe isso. Isso aí são considerações que têm que ser analisadas junto com o conselho [da empresa], junto com a equipe”, disse, no sábado.
A liberdade de preços no mercado é uma premissa importante para o investidor, na hora de decidir sobre a compra de uma refinaria – negócio de margens baixas e que vem perdendo atratividade no mercado global, em meio ao processo de transição energética para uma economia de baixo carbono.
A alienação das refinarias da Petrobras está atrasada. Com base no acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), para a abertura do refino no Brasil, a empresa se comprometeu a concluir a venda de oito unidades, a metade da capacidade nacional, até o fim de 2021. A expectativa inicial era ter assinado os contratos de todas em 2020.
Para um importante executivo de um dos maiores bancos estrangeiro do país, a venda das refinarias ajuda a desfazer a pressão política de que a Petrobrás é quem controla o preço da gasolina por conta do monopólio. “Seria uma burrice não seguirem isso em frente Dito isso, o interesse de potenciais compradores pode diminuir por conta desses rompantes de intervenção do governo”, afirmou esse executivo.
Considerada joia da coroa, a Repar tem sido sondada por grandes grupos, entre eles Raízen (grupos Cosan e Shell), mas não se chegou a um acordo de preço. A Petrobras esperava uma oferta mais robusta, próxima de US$ 3 bilhões. A Raízen e outros interessadas querem o ativo, mas não acham que devem pagar muito caro por ele. “ É preciso ter calma”, disse fonte próxima da Raízen.
Para o chefe de pesquisa da área de exploração e produção de petróleo da Wood Mackenzie na América Latina, Marcelo de Assis, a troca na Petrobras lança incertezas que dificultam a venda de ativos que já tenderiam a despertar o interesse de poucos investidores.
“Fica um ponto de interrogação grande. Se o plano do governo é controle de preços para gestão de inflação e apaziguar certos setores, vender refinarias dificulta. Além disso, potenciais compradores vão ser ainda mais cautelosos e isso deve se refletir nos preços ofertados”, disse. “Isso impacta no caixa da Petrobras e, consequentemente, na redução da dívida e pagamento de dividendos”, complementa Assis.
A interferência de Bolsonaro na Petrobras afasta principalmente investidores estrangeiros, segundo assessores próximos a grupos que monitoram os desinvestimentos da companhia. Esses investidores, que já estavam reticentes com o histórico de interferência governamental nos negócios da estatal, viram na troca do comando da petroleira um agravante do risco de segurança institucional. “A Petrobras estava recuperando credibilidade no mercado internacional e isso vai por água abaixo com uma canetada”, disse uma das fontes.
A sensação de maior insegurança também atinge grupos de capital brasileiro, segundo as fontes, embora esses investidores conheçam mais as instabilidades típicas do país. Além das refinarias, a estatal está vendendo a Gaspetro e a Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG) e suas ações na petroquímica Braskem.
A avaliação de uma outra fonte é que havia um sinal amarelo, quase vermelho. “Agora acendeu um alerta”. Se a nova gestão não aplicar uma política realista de preços, havendo interferências, o risco passa a ser mesmo real e, certamente, afetará todo o programa de desinvestimentos, diz.
Procuradas, Mubadala, Petrobrás, Ultra e Raízen não retornaram os pedidos de entrevista.

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