Fonte: Valor Econômico
A venda direta de etanol das usinas para os postos de combustíveis é vantajosa em uma análise regional, principalmente em São Paulo, onde há alta produção e consumo do combustível. Por outro lado, em diversas regiões do país, a necessidade de investimentos para as usinas chegarem a pontos de venda seria muito alta e inviabilizaria financeiramente a venda. A visão é do coordenador do Grupo Esalq-Log, José Vicente Caixeta Filho, sobre a aprovação ontem pelo Senado da venda direta.
Como já informado pelo Valor, um estudo do coordenador técnico da EsalqLog, Thiago Guilherme Péra, mostra que a venda do biocombustível em São Paulo poderia reduzir os custos de logística em 30%. A informação foi usada pelos senadores como recurso para a aprovação do projeto ontem.
Mas Caixeta lembra que São Paulo não é um retrato do país. “As usinas não possuem logística suficiente para chegar aos milhares postos espalhados pelo Brasil, não há infraestrutura para muitas regiões, como dutos, ferrovias e bitrens”, diz. Ele lembra que das 341 unidades produtoras de etanol em 292 municípios do país, 47% ficam em São Paulo, 17% em Goiás e 10% em Mato Grosso. O resto é residual.
“A necessidade da cadeia de suprimentos de etanol ter o envolvimento efetivo do agente de distribuição é importante para o ganho de eficiência em escala nacional, em decorrência de uma série de fatores, envolvendo gestão de estoques de forma a garantir o suprimento do combustível em todos os períodos do ano, evitando a falta na entressafra; ganhos de eficiência na entrega do combustível; eficiência na alocação da frota e economia de escala na contratação de fretes. Além disso, muitas distribuidoras possuem instalações que se integram com canais de distribuição de outros combustíveis (óleo diesel e gasolina, por exemplo), possibilitando economias de escopo e de escala no transporte”, diz Caixeta.
O pesquisador também lembra que a dependência do transporte por caminhões mostrou-se preocupante recentemente, com a greve dos caminhoneiros; de forma que o correto seria o país investir dutovias. Em 2017, foram movimentados aproximadamente 2 bilhões de litros de etanol nas dutovias, apenas 8% da produção.
No caso de navegação de longa distância pela costa brasileira (cabotagem), em 2017 foram movimentados por volta de 1,3 bilhão de litros de etanol, principalmente para abastecer as regiões Norte e Nordeste do país. Este também é outro ponto que precisa ser incentivado em vez da venda direta.
“O modelo de distribuição de etanol vigente no país, respaldado pela ANP, que consiste na comercialização usina-distribuidora-posto, apresenta características importantes, como negociações em grandes volumes, otimização de fretes e relacionamento comercial”.
Com um cenário de venda direta, admitindo-se que o consumo de cada município não fosse alterado, cada usina deveria assumir o papel de distribuidora e atender 123 postos na média em 15 municípios diferentes, diz Caixeta.