Folha de S. Paulo
Quando os petroleiros voltaram a atravessar o estreito de Hormuz em maior número, o preço do petróleo recuou como se a crise estivesse a caminho de uma solução rápida.
Os mercados enxergaram novamente os barris saindo do golfo e projetaram esse movimento para o futuro, mas a passagem de navios por alguns dias está longe de representar a normalização de uma cadeia que depende de terminais, oleodutos, seguradoras, tripulações e rotas marítimas operando de maneira previsível.
A distinção entre reabertura e normalização ajuda a entender por que o petróleo pode continuar caro e volátil mesmo depois de uma trégua. Instalações danificadas levam tempo para ser reparadas, estoques precisam ser recompostos e os custos dos seguros permanecem elevados enquanto armadores e empresas de energia considerarem plausível uma nova interrupção.
Em junho, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), a oferta mundial recuperou cerca de 4 milhões de barris por dia, mas ainda estava mais de 9 milhões abaixo do nível anterior à guerra. Os fluxos do golfo reagiram mais rapidamente do que a produção, em parte porque petróleo armazenado em terra e no mar foi colocado em circulação.
Essa diferença revela a característica central da crise. A limitação mais perigosa já não está apenas na quantidade de petróleo que pode ser extraída, mas na capacidade de transportá-lo com segurança, regularidade e custo aceitável.
Hormuz concentra uma parcela extraordinária das exportações do golfo, enquanto o mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandab formam uma segunda área de vulnerabilidade. Um ataque breve, uma inspeção mais demorada ou uma decisão cautelosa das seguradoras pode reduzir a oferta efetivamente disponível sem que um único poço seja fechado.
Até agora, a economia mundial contou com vários amortecedores. Governos liberaram reservas estratégicas, refinarias chinesas consumiram estoques acumulados anteriormente, volumes armazenados em navios chegaram ao mercado e a demanda asiática caiu com a redução da atividade, o encarecimento dos combustíveis e as dificuldades de abastecimento.
Esses mecanismos impediram que a perda de produção no golfo se traduzisse integralmente em preços mais altos, embora tenham deixado estoques governamentais e comerciais muito menores. Apenas em junho, a China retirou cerca de 41 milhões de barris de suas reservas de petróleo bruto.
A expansão da produção nas Américas completou essa defesa improvisada, e o Brasil teve um papel maior do que costuma aparecer no debate doméstico.
A AIE calculou que as exportações da bacia do Atlântico aumentaram 3,5 milhões de barris por dia desde fevereiro, com avanços importantes nos Estados Unidos, no Brasil, no Canadá e em outros produtores.
A agência também elevou em mais de 600 mil barris diários sua projeção para o crescimento da oferta das Américas em 2026, levando o total esperado a 1,5 milhão. Parte crescente desses carregamentos seguiu para a Ásia, substituindo barris que deixaram de sair normalmente do Oriente Médio.
Os números brasileiros explicam essa contribuição. A produção de petróleo alcançou 4,3 milhões de barris por dia em maio, quase 17% acima do volume registrado um ano antes. O pré-sal respondeu por cerca de quatro quintos da produção nacional de petróleo e gás, impulsionado por grandes plataformas capazes de operar em escala comparável à de países tradicionalmente associados à geopolítica da energia.
A produção brasileira já havia superado 4 milhões de barris diários em alguns meses de 2025, e a entrada de novas unidades em Búzios e em outros campos vinha ampliando a oferta antes mesmo da crise.
Esse aumento não eliminou o choque do golfo, cuja dimensão excede com folga a expansão de qualquer produtor individual, mas ajudou a evitar uma alta ainda mais intensa dos preços internacionais. O Brasil tornou-se, ao lado de Estados Unidos, Canadá, Guiana e Argentina, parte de uma nova geografia da segurança energética, na qual a produção atlântica compensa parcialmente a vulnerabilidade das rotas do Oriente Médio.
Um país que durante décadas acompanhou as crises do petróleo principalmente como importador e tomador de preços passou a oferecer ao mercado mundial uma parcela relevante do seguro contra essas mesmas crises.
A mudança traz oportunidades e responsabilidades. Preços mais altos elevam receitas de exportação, royalties e arrecadação, embora também pressionem combustíveis, fretes e inflação. A produção doméstica abundante reduz a vulnerabilidade externa, mas não desconecta o consumidor brasileiro do preço mundial, sobretudo quando o país exporta petróleo bruto e ainda importa alguns derivados.
Políticas de preços que ignorem essa realidade apenas deslocam o custo para a Petrobras, para o orçamento público ou para os investimentos futuros.
A renda gerada pelo petróleo pode financiar a preparação para uma economia que consumirá menos combustíveis fósseis nas próximas décadas. O uso prudente desses recursos fortaleceria as contas públicas, ampliaria a infraestrutura de energia e aceleraria investimentos em eletrificação, biocombustíveis e tecnologias de baixo carbono.
A transição energética ganha consistência quando dispõe de financiamento e segurança de abastecimento durante o percurso, em vez de depender da expectativa de que a demanda por petróleo desaparecerá antes que as alternativas estejam disponíveis em escala.
O mercado talvez esteja certo ao prever que a circulação por Hormuz continuará melhorando, mas atribui pouca importância ao tempo necessário para recompor instalações, estoques e confiança. Enquanto essa recuperação permanecer incompleta, a oferta brasileira continuará ajudando a limitar os danos de uma crise distante que chega rapidamente ao preço dos transportes e dos alimentos.
O Brasil não controla os estreitos do Oriente Médio, mas sua produção passou a influenciar o custo econômico de mantê-los abertos.