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Fonte: Terra

Decisão brasileira aumenta a importação de combustível sem tarifa na esperança de que o mercado dos estados unidos se abra para o açúcar brasileiro
A gritaria de plantadores de milho insatisfeitos com o presidente Donald Trump é tamanha que ganhou até um porta-voz informal. Randy Miller, produtor do estado de Iowa, aparece da rede americana de TV NBC ao jornal britânico Financial Times. A reclamação é contundente: “Nosso próprio país está nos esfaqueando nas costas”. Uma vez eleitor de Trump, o setor se sente traído pela política do republicano. Cerca de 40% do milho americano é transformado em etanol e grande parte do mercado é de refinarias que o utilizam na mistura de combustível. Uma medida de Washington, no entanto, autorizou as petroquímicas a não usar o etanol, deixando os produtores sem compradores. Uma lei da gestão Barack Obama obrigava as empresas a usar biocombustíveis na mistura para diminuir a emissão de carbono. A briga esquentou e a solução veio de um lugar inesperado: o Brasil. O etanol americano estocado será desovado aqui, graças a uma medida do governo Bolsonaro.
Portaria do ministério da Economia, publicada no sábado 31 de agosto, permite que Brasil importe 750 milhões de litros de etanol por um ano com isenção de tarifa. A cota anterior era de 600 milhões de litros. O que ultrapassar essa quantidade será tarifado em 20%. Donald Trump usou o Twitter para celebrar: “O Brasil permitirá que mais etanol americano entre no país sem tarifas, uma decisão que as usinas brasileiras estão comemorando”, publicou, em referência ao leque maior de opções de compra que as refinarias nacionais terão a partir de agora. Aqui, o etanol é tradicionalmente misturado ao combustível refinado e, segundo dados de 2018, 99,7% das importações vêm dos Estados Unidos.
“Foi um importante gesto, feito pelo Brasil, para demonstrar que queremos o livre mercado”, afirma Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Com a aproximação dos presidentes Trump e Bolsonaro, um acordo bilateral de livre comércio tem sido discutido desde julho. A medida do governo brasileiro teria sido uma manobra estratégica para que o País possa futuramente exportar, sem sobretarifas, açúcar para os EUA. O açúcar é atualmente tarifado em US$ 339 por tonelada e o preço sem impostos já é alto: US$ 266.
OTIMISMO O etanol brasileiro é produzido principalmente da cana-de-açúcar e a Unica acredita que tem mais a ganhar do que perder com o medida. No etanol, a concorrência é mínima. São 150 milhões de litros que poderão vir a mais dos Estados Unidos, enquanto, no ano passado, o Brasil produziu 33 bilhões de litros e importou 1,5 bilhão.
No entanto, nem todo produtor concorrerá de igual para igual contra o etanol americano. Agricultores no Nordeste podem ser prejudicados, pois a indústria não é tão competitiva quanto a estrangeira. Mas o clima geral é de otimismo. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial brasileiro e o acordo bilateral é uma prioridade no governo federal. “Mesmo com perdas locais, foi uma importante demonstração de que o Brasil quer se tornar mais parceiro dos EUA”, diz Marcos Fava Neves, especialista em agronegócio e mercado da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Eles representam um mercado em potencial importantíssimo.”
O toma lá dá cá ainda é uma aposta de que o açúcar brasileiro seja bem vindo ao mercado americano. No entanto, do lado de lá, os produtores agrícolas não diminuirão os ataques a Donald Trump, que quer se reeleger no ano que vem e certamente trocará benefícios por votos. Isso pode acabar travando futuras negociações entre Estados Unidos e Brasil. “Foi dado o primeiro passo, mas qualquer conversa, no futuro, vai depender do que os americanos fizerem”, diz Gussi, da Unica. “Cedemos até o limite para que a produção nacional não seja comprometida. Mais do que isso, seremos prejudicados.”

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