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Após quase uma década se desfazendo de ativos no exterior, a Petrobras passou a intensificar sua presença internacional. O movimento começou em 2024 e ganhou força neste ano com o anúncio da exploração de oito blocos na Costa do Marfim em setembro, na esteira da produção recorde registrada no Brasil e da alta do preço do petróleo nos mercados globais.
Entre os principais projetos está a exploração na costa ocidental da África, que tem semelhanças geológicas com o Brasil. O plano, porém, traz riscos e desafios regulatórios, além da lembrança de casos polêmicos de outras explorações fora de terras brasileiras.
A empresa aumentou sua presença na África recentemente por meio de São Tomé e Príncipe, Namíbia e Costa do Marfim, ao mesmo tempo em que avalia oportunidades em Gana. Além do continente, a Petrobras fortaleceu sua posição na América Latina com a descoberta do poço Sirius, na Colômbia, e, mais recentemente, em junho, por meio de um Memorando de Entendimento (MoU) com a Pemex voltado à avaliação de oportunidades no Golfo do México.
O primeiro passo dessa retomada de internacionalização foi dado em 2024, em São Tomé e Príncipe, quando a empresa passou a explorar três blocos em parceria com a Shell. A partir daí, a Petrobras ampliou sua operação no país, chegando a contar com cinco blocos de exploração.
É o contrário da estratégia que víamos a companhia realizar quatro anos atrás, que era a venda de ativos. O que vemos agora é a busca por expandir a atuação, o que é favorecido pela geração extraordinária de caixa. Tasso Vasconcellos, analista do UBS BB
Em 2020, a empresa havia concluído a venda da Petrobras Oil & Gas B.V., que operava na Nigéria, o que marcou formalmente o final da atuação no continente africano. Na América Latina, a companhia deixou de atuar nas distribuição de gás em países como Uruguai e Paraguai, além de ter vendido ativos no Chile e Colômbia.
Ao UOL, a empresa afirmou, por nota, que avalia continuamente oportunidades em novas áreas que sejam estratégicas para a recomposição de reservas e apresentem atratividade econômica. ‘Essas iniciativas integram a estratégia de diversificação do portfólio exploratório e de atuação em novas fronteiras’, pontuou.
Busca por reservas
A crescente internacionalização faz parte da estratégia da empresa para ampliar suas reservas e se preparar para o momento em que a produção dos poços do pré-sal entrar em declínio. É também de olho nesse horizonte que a companhia busca novas oportunidades de exploração na Foz do Amazonas.
‘A Petrobras possui um portfólio de desenvolvimento muito robusto no Brasil, mas também precisa continuar recompondo a base de recursos que sustentará a produção em longo prazo’, diz a analista Fiza Jan, da consultoria especializada no setor Rystad Energy,
Jan estima que a produção da Petrobras atinja o pico de 2,7 milhões de barris por dia (bpd) em 2028. No ano passado, a produção média diária foi de 2,45 milhões de barris.
Depois de 2028, deve haver um declínio na exploração, conforme a atual carteira de projetos em desenvolvimento amadureça. Segundo projeções da companhia, a partir de 2034, a produção no Pré-Sal da costa brasileira, que hoje responde por mais de 80% dos recursos explorados, tende a entrar em uma fase mais limitada.
‘Isso torna importante a incorporação de novas oportunidades de exploração. O portfólio internacional oferece à Petrobras uma via adicional para a reposição de recursos’, diz Jan.
A Petrobras alocou US$ 7,1 bilhões para pesquisa de novos campos em seu plano de negócios para o período de 2026 a 2030, incluindo US$ 2,4 bilhões para a categoria atividades de exploração, que abrange oportunidades em terra (onshore) e no exterior.
A empresa vem ampliando de maneira significativa as receitas e seus lucros. É uma das companhias petrolíferas mais lucrativas de 2026, o que acaba a colocando como player estratégico para disputar com outras companhias territórios com potencial elevado Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX
Do outro lado do oceano
O começo das operações da Petrobras no exterior foi em Angola em 1979. Por volta de 2010, a empresa detinha interesses em exploração ou produção, além deste país, também na Líbia, em Moçambique, na Namíbia, na Nigéria, em Senegal e na Tanzânia.
‘A empresa expandiu significativamente sua presença internacional durante a década de 2000, antes do surgimento do Pré-Sal. Após resultados mistos na exploração, ela reduziu gradualmente sua atuação internacional, culminando em sua saída da África em 2020’, aponta, em relatório, o time de analistas do Itaú BBA.
‘O portfólio foi posteriormente desmantelado à medida que a Petrobras passava por um importante período de desalavancagem, alocação de capital mais rigorosa e racionalização do portfólio, concentrando recursos no Brasil e, particularmente, em suas reservas altamente produtivas do pré-sal’, afirma Jan.
A África retornou ao centro da agenda de exploração da companhia apoiada por descobertas recentes ao longo da margem atlântica do continente e por semelhanças geológicas com bacias de fronteira brasileiras, como a Margem Equatorial.
Em uma entrevista à Reuters em junho, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard afirmou: ‘somos especialistas em exploração no Brasil, e a correlação com a África é inequívoca. Precisamos ir para onde somos desejados’.
Para Jan, a estratégia atual parece ‘mais focada na criação de opções exploratórias onde a Petrobras acredita que sua capacidade técnica pode conferir-lhe vantagem competitiva’.
Oportunidade de momento ou sustentável?
Os conflitos recentes no Oriente Médio elevaram as cotações do petróleo a níveis bem acima do esperado no começo do ano, o que favoreceu investimentos no setor. Na visão dos analistas, uma queda nos preços da commodity pode representar algum risco para a viabilidade das operações, mas os projetos visam o longo prazo.
Antes do conflito entre Estados Unidos e Irã, em janeiro, o barril do petróleo Brent em Londres custava próximo de US$ 60. Esse valor ultrapassou os US$ 110 com a escalada dos confrontos. Neste semana, está rondando a casa dos U$100.
A Petrobras elaborou seu plano para o período de 2026-2030 com base em um cenário de preços mais baixos, projetando o Brent a cerca de US$ 63 o barril em 2026 e US$ 70 nos anos subsequentes. ‘No entanto, não considero que a estratégia internacional dependa da manutenção dos preços do petróleo nos patamares elevados observados recentemente’, avalia Jan.
De acordo com a analista, um cenário de preços do petróleo estruturalmente mais baixos poderia levar a Petrobras a reduzir o ritmo de perfuração, ceder participações ou concentrar capital em projetos mais promissores. ‘O sucesso geológico provavelmente exercerá maior influência sobre o ritmo dos investimentos do que as oscilações de curto prazo nas cotações’, acrescenta.
Vasconcellos, do UBS, lembra que a indústria petrolífera trabalha com projetos de longo prazo e que uma plataforma leva, em média, cinco anos para entrar em operação. As empresas do setor, portanto, já trabalham com o risco de uma deterioração dos preços em períodos como esse. Ele avalia que a Petrobras vem sendo cautelosa nas decisões sobre os novos investimentos.
Ainda assim, a presença no exterior representa maiores desafios para a empresa. A própria Petrobras já atravessou desafios importantes por operar no exterior, como em 2006, quando o presidente da Bolívia à época, Evo Morales, decretou a nacionalização do setor de hidrocarbonetos, representando prejuízo à Petrobras. Hoje, a expansão também enfrenta riscos, especialmente em termos de licenças.
No caso da Colômbia, onde a companhia fez a maior descoberta de gás do país, o projeto conta com uma série de desafios. Com investimentos previstos em conjunto com a empresa local Ecopetrol de até US$ 5 bilhões, a exploração tem dificuldades de natureza regulatória e de infraestrutura.
O Itaú BBA aponta que o projeto ainda requer licenciamento ambiental, a conclusão de aproximadamente 120 consultas prévias com comunidades potencialmente afetadas, a construção de infraestrutura de transporte offshore e a conexão à rede nacional de gás.
Em fevereiro deste ano, autoridades do governo da Namíbia afirmaram que não iriam reconhecer a compra de participações offshore na Bacia de Luderitz anunciada por Petrobras e TotalEnergies até que as empresas sigam o processo adequado para aprovação. As principais preocupações estão ligadas a temas de compliance, incluindo a participação de funcionários com potenciais conflitos de interesses no processo decisório.
Para Vasconcellos, há um risco de diversificação, dada a complexidade de atuar em outro país.. Cordeiro pondera que, quando comparada com outras petrolíferas, a Petrobras tem investimentos relativamente pequenos no exterior. ‘Levando em conta empresas do Oriente Médio, Estados Unidos e Europa, não há a mesma experiência.’
Em nota, a Petrobras afirmou que considera a avaliação de riscos como parte fundamental do processo de análise de novos investimentos e oportunidades. Segundo a empresa, qualquer ampliação de presença segue os ritos de governança da companhia, com análises de mérito técnico, econômico e ambiental, avaliação de riscos, financiabilidade e aderência estratégica.