Reduzir o preço da gasolina é uma burrice intolerável

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Fonte: Folha de São Paulo

A Petrobras reduziu o preço da gasolina, mostrando que seus dirigentes não entenderam nada do que aconteceu no mundo e no Brasil ao longo dos últimos anos. É um erro estratégico grotesco da nova gestão da estatal brasileira, sob o governo Temer, que repete a matriz com que Lula e Dilma destruíram a empresa.
Neste momento, a imprensa (tão crítica aos governos do PT) aprova a redução como se marcasse a independência da nova administração. Pobre opinião pública nacional que tem como porta-voz um jornalismo tacanho. Quando o monopólio estatal de petróleo quebrar novamente, os analistas vão ficar com a mesma cara com que assistiram a vitória de Donald Trump. “Ah é, é?!”
Quando cai o preço internacional do óleo, aumenta o prejuízo da Petrobras (do Brasil, em verdade, uma vez que a empresa é estatal).
A Petrobras está falida. Se não fosse uma companhia estatal, seria vendida a preço de banana para uma empresa saudável, que demitiria a maior parte de seus funcionários, venderia seus prédios faraônicos e usaria seu patrimônio em poços de petróleo e refinarias para pagar as dívidas. Como pertence ao Estado brasileiro, ela é salva com dinheiro do tesouro, diretamente, ou, indiretamente, através de financiamentos do BNDES, e segue empregando mais funcionários do que necessita e tomando decisões que beneficiam a política econômica do governo, embora destruam o valor da companhia.
Por duas vezes nas últimas semanas, a nova direção da Petrobras anunciou reduções do custo dos combustíveis nas refinarias, alegando que o preço para o consumidor final cairia (não é verdade: os postos não repassam a redução para o preço final). O resultado dessa medida é um impacto positivo na inflação e uma queda das receitas da empresa. Bom para o governo, péssimo para a Estatal, exatamente como ocorreu durante os 13 anos do governo petista.
A alegação da empresa sob nova administração é que, conforme ocorre nos Estados Unidos, o preço da gasolina na bomba vai oscilar com o petróleo no mercado internacional. OK, mas os preços praticados pelos países produtores tradicionais de petróleo são menores do que os necessários para extração da matéria prima no Brasil (mais cara porque é predominantemente submarina e, agora, cada vez mais oriunda de águas profundas, o caríssimo petróleo do pré-sal).
A melhor solução para esse déficit estrutural seria reduzir a extração de petróleo do pré-sal e importar gasolina ao preço internacional, barato. Mas, se o nacionalismo brasileiro exigir a produção deficitária, cobrar do consumidor um preço final suficiente para pagar os custos da extração. Seria o caso de perguntar ao eleitor brasileiro: você quer ser cidadão de país produtor de petróleo, como Lula e Dilma prometeram? Então pague os custos na bomba e no preço final dos produtos que têm combustíveis na sua cadeia de produção ou distribuição.
O resultado, neste caso, será uma gasolina mais cara, talvez em torno de R$ 10,00 por litro, se computados todos os custos. O “bilhete premiado”, slogan do estelionato lulista, custa mais do que o preço internacional do petróleo. Por tudo isso, quando a Petrobras, sob governo Temer, reduz o custo dos combustíveis derivados de petróleo, comete um erro estratégico para a empresa, pois se ela aumentasse os preços poderia crescer sua margem de lucro.
A medida também representa um desserviço ao mundo e ao meio ambiente, uma vez que a gasolina barata incentiva o uso do carro particular, aumenta o congestionamento nas grandes cidades brasileiras e as emissões de gases de efeito estufa.
A redução do custo de combustíveis nas refinarias faz mal para a indústria do álcool, menos poluente: quanto mais barata a gasolina, menos competitivo o etanol.
Se a notícia da queda do preço da gasolina tivesse saído em editorias de Meio Ambiente, os jornais provavelmente teriam prestado atenção ao efeito negativo que a redução poderá ter, por aumentar a demanda e o uso de um combustível fóssil e altamente poluente.
Certamente teria mais destaque o fato de que ao ameaçar o álcool, a política de preços da Petrobras deve reduzir o consumo e a própria sustentabilidade da cadeia de produção de um combustível que não contribui para o “efeito estufa”, mas é totalmente dependente de compras estatais.
Com tudo somado, o efeito da redução de preços é ruim para o país: a Petrobras venderá mais gasolina no mercado interno (receberá reais para isso); vai ter menos combustível para exportar (receberá menos dólares); vamos ter mais poluição e talvez um uso ainda maior de carros particulares para o deslocamento dos brasileiros; o álcool, menos poluente, ficará mais caro, proporcionalmente, e deve vender menos, deixando de beneficiar o ar das grandes cidades.
Se a Petrobras subisse o preço da gasolina, teria uma receita maior em reais e o consumo cairia, liberando mais gasolina para exportação (recebendo dólares por ela); o álcool ficaria mais competitivo, cresceria seu consumo, geraria mais empregos no campo e o ar das cidades ficaria melhor.
Moral da história: no curto prazo, a medida anunciada pela diretoria da petroleira estatal pode ser boa para a empresa (aumenta o consumo de gasolina nas próximas semanas) e para o governo (reduz a pressão inflacionária).
Em médio e longo prazos, no entanto, é ruim para a companhia (reduz suas receitas); para o governo (tem que cobrir parte do déficit da estatal; deixa de receber uma receita extra de impostos sobre o combustível mais caro) e para o Proálcool; para a poluição das grandes cidades e para o aquecimento global. Em outras palavras: reduzir o preço da gasolina é uma burrice intolerável, que o Brasil já assistiu nos últimos 13 anos e não deveria mais aceitar.
Leão Serva foi secretário de redação da Folha de São Paulo, é jornalista, escritor e coautor de Como Viver em SP sem Carro

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