Sem leilões, produção de petróleo em terra recua 40% desde o fim do monopólio

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Fonte: O Globo

A produção de petróleo em terra chegou, literalmente, ao fundo do poço. Os campos terrestres espalhados principalmente pela Região Nordeste fecharam 2017 amargando seu pior desempenho desde o fim do monopólio da Petrobras no setor. De lá para cá, a produção de óleo terrestre caiu de 212 mil barris diários em 1998 para os atuais 127 mil por dia, uma queda de 40%, revelam dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O recuo acentuado começou a ganhar força nos últimos anos, dizem especialistas, com a paralisação das rodadas de licitações no país, a crise na Petrobras e a redução do preço do barril no mercado internacional.
O movimento, no entanto, é o inverso do que ocorreu em outros países, como Estados Unidos, Canadá, Argentina e Colômbia, que, nos últimos anos, tiveram avanço na exploração em terra com o advento de novas técnicas capazes de elevar a produção, mudando a geopolítica internacional do petróleo e afetando a Opep, organização que reúne os maiores exportadores de petróleo do mundo.
VENDA PARA APÓS QUESTIONAMENTO DO TCU
A produção em terra nos EUA utiliza técnicas não convencionais, como o fraturamento hidráulico (fracking). Dessa forma, o petróleo produzido a partir dessa técnica é chamado de tight oil. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), a produção subiu de 421,62 mil barris por dia, em 2010, para 4,485 milhões de barris diários no ano passado. Um aumento de quase 1.000%. Esse modelo de produção, porém, é alvo de críticas por seu impacto ambiental.
Assim, a produção em terra no Brasil responde atualmente por cerca de 8% do total extraído, contra 50,6% do pré-sal e 41,4% do pós-sal, diz a ANP. Porém, há uma expectativa de que esses números possam mudar nos próximos anos. Segundo empresários, a Petrobras — dona dos principais campos em terra — já está negociando com o mercado a venda de 69 campos terrestres, em um processo que foi iniciado há três anos e foi paralisado após questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU) no ano passado. Além disso, a própria ANP está desenhando um novo ambiente regulatório para atrair mais investidores, com redução de royalties e o uso das reservas como garantia bancária.
— Uma série de fatores ajuda a explicar o cenário hoje. A Petrobras vem demorando para vender os campos, ficamos muitos anos sem leilões e ainda tivemos a queda no preço do petróleo, que fez a Petrobras direcionar os investimentos para os campos do pré-sal. Por isso, temos um cenário diferente do exterior, em países como Equador, Peru, Canadá e Estados Unidos. Só o investimento vai aumentar a produção — disse Sergio Paez, presidente da Petrosynergy, empresa com 17 campos no Rio Grande do Norte, na Bahia e no Espírito Santo, que consumiram investimentos de R$ 150 milhões nos últimos 18 anos.
Local de produção Poços perfurados nos 312 campos em terra Produção média de petróleo por poço (em barris por dia) Produção de petróleo (em mil barris por dia) 545 20.000 1.351 Pré-sal 199 Mar convencional 1.176 108 1.830 127 Terra 1 7 2015 2016 2017 Fonte: ANP Poços perfurados nos 312 campos em terra 545 199 108 2015 2016 2017 Local de produção Produção de petróleo (em mil barris por dia) 1.351 Pré-sal Mar convencional 1.176 127 Terra

IMPACTO NA ECONOMIA DO INTERIOR DO PAÍS
Para as empresas, a venda dos campos pela Petrobras será essencial para destravar os investimentos. Isso porque, embora haja 22 companhias privadas extraindo petróleo terrestre no país, a Petrobras domina o setor, respondendo, segundo a ANP, por cerca de 92% do total produzido em terra. Procurada, a estatal não comentou o assunto. Segundo Anabal Santos Junior, secretário executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás (Abpip), a reativação da atividade em terra é importante para gerar empregos e reaquecer a economia do interior do país.
— Como a Petrobras vai investir em um campo que ela está querendo desinvestir? Enquanto isso, o país vê essa queda com a produção em terra. É preciso mudar esse cenário. As produtoras independentes têm uma alta média de 6% na produção ao ano enquanto a Petrobras tem queda de 20% anual — disse Junior.
Para mudar esse cenário e atrair mais investidores, a ANP vem fazendo uma série de mudanças nas regras do setor. Algumas delas envolvem diretamente os ativos que serão vendidos pela Petrobras. Segundo Décio Oddone, diretor-geral da ANP, os novos compradores dos blocos poderão prorrogar a fase de concessão dos contratos, uma demanda das empresas hoje, já que os atuais contratos estão para vencer. Oddone destacou ainda que os custos com o abandono de poços já fora de produção ficarão a cargo do operador original.
— É preciso mais investimento. O Brasil tem 30 mil poços perfurados até hoje. Isso é o que os EUA fazem por ano. Por isso, a concessão vai ser renovada de acordo com o plano de investimento apresentado pelo comprador para recuperar o campo. E com a parcela incremental desse aumento de produção haverá redução da cobrança de royalties. Isso vai aumentar a produtividade e estimular a produção. Outro ponto importante é que estamos regulamentando com os bancos o uso das reservas como garantia de financiamento. Essa mudança, que ficará pronta neste primeiro semestre, vai permitir às companhias acesso a mais recursos — antecipou Oddone.
OFERTA PERMANENTE DE BLOCOS
O diretor-geral da ANP lembrou ainda que a agência terá cerca de 1.500 blocos em terra em oferta permanente para as empresas interessadas em comprar novas áreas a partir de maio. Estarão nesse modelo campos das bacias do Espírito Santo, Recôncavo, Sergipe-Alagoas, Rio Grande do Norte e Ceará, além de espaços que não foram contratados em leilões anteriores:
— Vamos começar a receber as primeiras manifestações de interesse em maio. Será algo destinado a pequenas e médias empresas. Assim, a partir da 15ª Rodada, só vão entrar campos das chamadas novas fronteiras, como Parnaíba e Paraná.
Segundo Marcelo Campos Magalhães, presidente da PetroRecôncavo, embora o monopólio tenha acabado há 20 anos, a Petrobras ainda tem um domínio muito grande sobre o setor. É por isso, disse, que uma redução dos investimentos da estatal cria um efeito cascata, afetando até as companhias concorrentes, sobretudo, as de menor porte. Sem a demanda da Petrobras, muitos fornecedores e prestadores de serviços para os campos em terra acabaram fechando as portas.
— Em média, um poço falha a cada 24 meses. Como faz para arrumar se é difícil achar fornecedor? Por isso a produção sofre. Operamos, hoje, 12 campos no Recôncavo, na Bahia. Desde que começamos a atividade nessas áreas, em 2000, dobramos a produção — disse Magalhães, que investiu mais de R$ 450 milhões desde 2010.

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