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Fonte: O Globo

A Petrobras alterou a periodicidade do reajuste de preços da gasolina em suas refinarias. A estatal anunciou ontem que as variações poderão acontecer em intervalos de até 15 dias, e não mais diariamente, como foi estabelecido em junho do ano passado. Para que a mudança, que teria ocorrido por pressões políticas, não cause perdas financeiras, a estatal vai adotar um mecanismo de proteção conhecido como hedge. A menor frequência dos reajustes deve aliviar, em parte, o bolso do consumidor. Analistas de mercado, porém, não têm consenso sobre se a medida é ou não positiva para a companhia.
Apesar da mudança, o diretor financeiro da Petrobras, Rafael Grisolia, afirmou que a companhia não alterou sua política de preços para a gasolina, que continuará acompanhando a evolução dos preços internacionais do petróleo e avariação do câmbio. Segundo ele, o mecanismo de hedge, que será usado por até 15 dias, vai permitir que a empresa obtenha um resultado financeiro equivalente ao que alcançaria com os reajustes diários. Ele garantiu que o valor do repasse será o equivalente à variação acumulada nos 15 dias em que não houve reajuste.
METODOLOGIA CRITICADA
Não é a primeira vez que a Petrobras sofre pressões para mexer na sua política de preços. Desde julho do ano passado os reajustes eram diários, em vez de mensais. Em janeiro deste ano, em meio a uma forte pressão política e da sociedade, a estatal passou a reajustar os preços do GLP, o gás de botijão, a cada três meses. Antes, com aumentos que acompanhavam o mercado, muitos consumidores, por não poder pagar o botijão, começaram a usar lenha e álcool, causando acidentes.
Depois, no fim de maio, veio a greve dos caminhoneiros, que reclamavam da falta de previsibilidade no preço do diesel. A paralisação, que durou dez dias e causou transtornos à economia do país, levou o governo a conceder subsídios ao produto até o fim deste ano.
Segundo Grisolia, o objetivo da medida é dar mais flexibilidade à gestão da política de preços da gasolina, sem prejudicar a saúde financeira da Petrobras. No acumulado do ano, até ontem, o reajuste efetuado pela estatal nas refinarias (sem impostos) era de 32%, segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Pelos dados do IBGE, a gasolina acumula alta na bomba alta de 9,43% no ano, enquanto a inflação medida pelo IPCA está em 2,85% para o mesmo período.
— Achamos importante trazer alguns mecanismos financeiros para que possamos ter opção em momentos de volatilidade do câmbio e do preço da gasolina no mercado internacional. São instrumentos que dariam proteção de até 15 dias, no máximo, período em que a Petrobras manteria os preços nas refinarias estáveis. Ao fim de cada período desses, viria um reajuste —disse Grisolia.
O diretor de Refino e Gás, Jorge Celestino, admitiu que a mudança na periodicidade dos reajustes atende a“algumas reivindicações que vinham sendo feitas pelos agentes de mercado ”, que cobravam da Petrobras a adoção de mecanismos e ferramentas para mitigara volatilidade dos preços dos combustíveis. Celestino negou que a medida tenha qualquer relação coma proximidade das eleições e com os rumores de que os caminhoneiros estariam ameaçando nova greve.
—A Petrobras vem evoluindo em sua política de preços desde 2016. Vínhamos estudando que ferramentas poderíamos implementar para tornara Petrobras mais competitiva e rentável. Obviamente atendemos também aos sinais que o mercado e outros agentes têm encaminhado à Petrobras, de que a companhia precisava implementar mecanismos e ferramentas que mitigassem essa volatilidade —disse Celestino.
SEM EFEITOS NO CAIXA
O anúncio da Petrobras foi recebido com cautela por analistas. Relatório do banco BTG afirma que “o fato de a Petrobras não divulgar quando vai ou não usar o hedge pode reduzira previsibilidade de preço a curto prazo ”. Com isso, segundo o banco, a medida pode ser negativa para os distribuidores, “que dependem da transparência (da Petrobras) para arbitrar preços”.
Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, considera a medida positiva, com pouco impacto no caixa da estatal. Ele disse que isso dará à Petrobras mais um instrumento para evitar perdas, inclusive para a sociedade, como ocorreu coma greve dos caminhoneiros.
A XP, por sua vez, aponta em relatório a clientes que a medida “deve ser lida como negativa, pois pode ser interpretada como um retrocesso na política de preços, dado que a empresa ficaria mais exposta a potenciais perdas em momentos de volatilidade”. Já o diretor de Consultoria de Dowstream da IHS, Felipe Perez, considera a decisão positiva para a Petrobras. Mas ressaltou que os compradores de combustível ficam mais vulneráveis, pelo fato de a estatal sera única vendedora no país.
Para David Zylbersztajn, exdiretor da ANP, a Petrobras poderia ter optado por um prazo maior, de 30 dias. Mas vê o uso do hedge como positivo para a estatal, porque evita perdas financeiras. Para o consumidor, diz, também é bom, pois permite maior previsibilidade de preços:
—Com um calendário de 15 dias, a Petrobras não corre risco de perder espaço no mercado com importações, já que é um período curto para haja avanço nesse tipo de operação.

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