Demanda de petróleo e gás continua firme

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O setor de óleo e gás, que vive uma fase de expansão no Brasil, tem como pautas prioritárias o aprimoramento do processo de licenciamento ambiental, o fortalecimento das agências reguladoras e arcabouços fiscal e regulatório para manter e atrair investimentos. Essa agenda consta no panorama geral do setor 2023, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP). O estudo indica aportes de US$ 180 bilhões em exploração e produção de 2022 a 2031, com produção total de 5,2 milhões de barris por dia no país no fim do período.

O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, lembra que a demanda continuará relevante nos próximos anos, garantindo segurança energética enquanto a transição para o baixo carbono avança. “É preciso manter o ambiente de negócios com a estabilidade de regras e segurança jurídica para que os investimentos continuem”, defende.

Diversas petroleiras tocam planos para elevar a produção no Brasil. A Petrobras, por exemplo, pretende instalar 11 plataformas no pré-sal até 2027, quando estima uma produção de 3,1 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boed, que inclui gás). Desse volume, 2,4 milhões de barris virão do pré-sal, considerando a parcela própria da estatal.

Em seu plano estratégico 2023-2027, a empresa prevê investimentos de US$ 78 bilhões, 83% dos quais destinados à exploração e produção, com foco no pré-sal. A revisão já feita da estratégia sinaliza, para o plano 2024-2028, maiores investimentos em descarbonização, busca por autossuficiência em derivados e reposição das reservas, com a exploração de novas fronteiras, como a Margem Equatorial, área costeira que vai da Guiana ao Rio Grande do Norte, objeto de polêmica ambiental por ser uma área bastante sensível.

A Petrobras teve, em maio, licença negada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar na Foz do Amazonas e aguarda reavaliação. Há outras empresas com blocos na região aguardando licenças.

Dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informam que o Brasil produziu 4,48 milhões de barris de óleo equivalente por dia em julho, com 74,9% oriundos do pré-sal. A Petrobras respondeu por 3,96 milhões de boed. O diretor-geral da ANP, Rodolfo Saboia, mostrou, em apresentação para o mercado financeiro em São Paulo, em agosto, que a produção dos campos marítimos com base nas reservas 2P (provadas e prováveis) atingirão o pico antes de 2030.

Desse modo, é importante incorporar novas descobertas comerciais e sugeriu a exploração da Margem Equatorial — onde há potencial em águas profundas e ultraprofundas nas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.

A Shell é uma das que também aguardam licenças na Margem Equatorial. A petroleira detém nove blocos na região, nas bacias de Barreirinhas e Potiguar. Opera sete deles e os outros dois são operados pela Petrobras. Flavio Rodrigues, vice-presidente de relações corporativas da Shell Brasil, defende estabilidade jurídica nos regimes regulatórios e fiscais do setor e diz que a inclusão de novas áreas nas ofertas permanentes da agência é lenta.

“É imprescindível que tenhamos maior previsibilidade, com um calendário regular de novas áreas de exploração e a abertura de novas fronteiras no país, como a Margem Equatorial”, diz o executivo.

Em agosto, a Shell notificou a ANP sobre indício da presença de hidrocarbonetos no poço Suçuarana-1, no bloco C-M-659, na bacia de Campos, em lâmina d´água de aproximadamente 2.900 metros. O consórcio é formado por Shell (40%, operadora), Chevron (35%) e Quatar Energy (25%). “Pretendemos continuar participando dos leilões da agência”, destaca.

Segundo a ANP, as sessões públicas para o 4º ciclo da oferta permanente de concessão e o 2º ciclo da oferta permanente de partilha de produção estão previstas para 13 de dezembro de 2023. Para o primeiro, há 87 empresas inscritas e aptas a fazer oferta. Para o segundo, o prazo para apresentar documentos de qualificação e declaração de interesse, acompanhada de garantia de oferta, vai até 28 de setembro.

Em janeiro deste ano, o consórcio formado por Shell (30%), TotalEnergies (45% e operadora) e Repsol Sinopec (25%) decidiu investir US$ 1 bilhão em Sudoeste de Lapa, na bacia de Santos, com produção prevista para 2025. A Shell, além das bacias Potiguar e Barreirinhas, atua nas bacias de Campos e Santos e produz no Brasil cerca de 400 mil barris de óleo equivalente por dia, com 15 milhões m3 de gás. Até o fim deste ano, prevê iniciar a operação da usina termelétrica de Marlim Azul, em Macaé (RJ), que usará gás do pré-sal.

Outra que elegeu o pré-sal como foco é a francesa TotalEnergies. Prevê aportes de US$ 800 milhões anuais nos próximos quatro anos. “A estratégia da empresa em óleo e gás é de investir em ativos de baixo custo e baixas emissões de CO2”, afirma Charles Fernandes, diretor- geral no Brasil.

A petroleira produz hoje cerca de 140 mil barris por dia e deve chegar a 200 mil boe diários até 2026. Em dezembro de 2022, a TotalEnergies arrematou um novo bloco não operado em águas profundas, na bacia de Campos, ficando com 30%. E segue avaliando oportunidades no modelo de oferta permanente ou nos leilões tradicionais nas bacias de Campos e Santos.

O líder de óleo e gás da consultoria BIP, Pedro Souza, diz que uma cotação do barril que viabilize novos projetos é determinante para os investimentos no setor. “A guerra entre Rússia e Ucrânia tem sustentado a cotação do petróleo Brent em patamares elevados e, até o momento, não há sinal de trégua”, ressalta.

O consultor aponta a demora para obter licenças ambientais com um desafio ao avanço do setor no Brasil. “Nos próximos cinco anos, os investimentos no pré-sal devem ser superados pelos da Margem Equatorial”, observa Souza. Ele lembra que até agora 42 blocos na região já foram concedidos pela ANP, com 14 petroleiras interessadas na nova fronteira.

No Brasil, diz a sócia da área de petróleo, gás e offshore do escritório Vieira Rezende Advogados, Daniela Davila, o setor segue aquecido em função da cotação em alta do barril. Ela vê, por conta das descobertas na Guiana, um aumento da competição por equipamentos escassos, como embarcações de apoio, por exemplo.

A advogada aponta outros gargalos para o setor no Brasil, especialmente em relação à produção e escoamento do gás natural. “Os desafios da reinjeção precisam ser superados e a criação do mercado consumidor também precisa ser equacionada”, diz.

Se o Brasil conseguir explorar e produzir óleo e gás de forma sustentável, com o emprego de novas tecnologias e considerando sua matriz energética diversificada, as atividades ainda podem durar por muitos anos, acredita a advogada. “O grande desafio do milênio é a geração de energia com preservação do meio ambiente”, ressalta.

Neste ano, o consumo médio de gás natural, sem considerar o segmento térmico, vem se mantendo estável, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás). O maior destaque do primeiro semestre é o consumo médio industrial, com alta de 4,2% em comparação a igual período de 2023.

Já o consumo térmico teve uma queda de 19,65%, por conta do maior volume de água dos reservatórios, o que vem trazendo menos necessidade de energia termelétrica. Para o presidente da Abegás, Augusto Salomon, a abertura do mercado de gás — que ocorre de maneira mais tímida do que o setor esperava — depende do aumento da oferta de gás natural e, para isso, é preciso expandir a infraestrutura, principalmente a malha de transporte.

Salomon lembra que o Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol) vai reduzindo sua capacidade de transporte à medida que se aproxima do Rio Grande do Sul, limitando a oferta e impedindo a expansão do mercado de gás na região Sul. Segundo ele, é preciso que a ANP acelere sua agenda regulatória “para que novos investimentos possam aumentar a capacidade de suprimento da região Sul”.

O Programa Gás para Empregar, do Ministério de Minas e Energia, visa estimular a criação de infraestrutura de escoamento e transporte e viabilizar o gás natural como matéria-prima para a indústria de fertilizantes, química e para geração de energia. A iniciativa, avalia o governo, pode atrair R$ 94 bilhões do setor privado. “Vemos com bons olhos a disposição do governo de dar ao gás natural a atenção que merece como fonte de energia”, afirma Salomon. E acrescenta: “Novos investimentos são fundamentais para viabilizar excedentes de gás do pré-sal”.
Fonte: Valor Econômico

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