Deputado preso por elo com lavagem via rede de combustíveis recebeu R$ 1,4 milhão sem origem, diz PF

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O Estado de S.Paulo

A quebra do sigilo bancário do deputado estadual Márcio Correia de Oliveira, o ‘Márcio Canella’ (União Brasil), revela que ele girou R$ 2,59 milhões em créditos, dos quais R$ 1,4 milhão de origem desconhecida, no período entre maio de 2025 e abril de 2026. Canella foi preso nesta quinta, 15, na oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal no Rio de Janeiro. Ex-deputado federal e ex-prefeito de Belford Roxo, ele é apontado como “articulador político” e elo do poder público com outros investigados por suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis.

O Estadão busca contato com a defesa de ‘Canella’, segundo deputado estadual fluminense mais votado nas últimas eleições, e com os demais citados na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a oitava fase da Unha e Carne. O espaço está aberto para manifestação.

Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – unidade de inteligência vinculada ao Ministério da Fazenda – indica que o grupo de ‘Canella’ movimentou R$ 7,64 bilhões no período entre 11 de maio de 2020 e 12 de março de 2026.

Os analistas do Coaf identificaram 2.171 comunicações de operações suspeitas naquele período envolvendo 835 pessoas físicas e jurídicas interligadas, com 1.989 ocorrências de depósitos em espécie que totalizam aproximadamente R$ 310 milhões concentrados na Região Metropolitana fluminense.

Em manifestação pelo decreto de prisão de ‘Canella’, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, destacou que os créditos em conta do deputado transitaram por uma pessoa jurídica – Brumar Empreendimentos e Participações Ltda – com repasses subsequentes a familiares e a integrantes de seu círculo político, além de anotações de repasses recorrentes em espécie, sem lastro contratual, superiores a R$ 139 mil.

Gonet detalha que a Polícia Federal reuniu elementos na sexta fase da Unha e Carne, em 7 de julho passado, que apontam para o envolvimento do deputado com “estrutura criminosa estável e permanente voltada a auferir vantagens econômicas de grande monta a partir de práticas ilegais para o controle de rede de postos de combustíveis no Rio de Janeiro, incluindo cooptação de agentes públicos, com posterior reinserção dos valores na economia formal por meio de transações sem valor econômico”.

O relatório do Coaf, anota o procurador, “relata indícios sugestivos de lavagem de ativos no setor de combustíveis”.

Ao autorizar a nova fase da Unha e Carne, o ministro Alexandre de Moraes determinou a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro, das quais 96 são postos de combustíveis utilizados para camuflar recursos de origem supostamente criminosa.

‘Canella’ já havia sido preso em flagrante na fase passada da operação porque a PF encontrou com ele um fuzil de calibre restrito. Na época, ele cogitava se lançar candidato ao Senado, mas desistiu por causa da operação e resolveu disputar a Assembleia Legislativa do Rio.

A ação cumpre seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão nos municípios do Rio, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Entre os alvos estão policiais civis.

Sigla ‘Canella’

A investigação é conduzida pelos delegados federais Geraldo Sérgio Silva de Almeida e André Joberto Torres Junior. Eles atuam na Delegacia de Repressão a Drogas. Em representação de 110 páginas, sustentam que ‘Canella’ teria capitaneado a indicação de Marcus Vinícius Amim Fernandes para a presidência do Detran do Rio e, em seguida, para a Secretaria de Polícia Civil, “articulando, inclusive, alteração legislativa na Assembleia Legislativa do Estado para viabilizar a nomeação”.

Documentos manuscritos apreendidos nas residências de outros investigados registram, segundo a investigação, distribuição sistemática de valores sob a sigla ‘Canella’, vinculada aos postos Jardim Uba e Auto Posto LP Francis.

Informação da Polícia Judiciária (IPJ), encartada nos autos da Operação Unha e Carne, mostra que Marcus Amim, por meio da Mamim Consultoria Ltda, de sua titularidade e de sua mulher, recebeu R$ 1,82 milhão da ADM Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina Ltda, em parcelas mensais fixas de R$ 70 mil, entre abril de 2024 e maio de 2026.

Esse padrão, segundo a PF, é compatível com contrato de aluguel ou consultoria fictícia destinado a dissimular remuneração por proteção e influência.

O inquérito ressalta que Marcus Amim figura como sócio oculto da Gasmix Alcântara Posto de Gasolina Ltda, ao lado de Christiano Gaspar Fernandes e Giovani Gaspar Fernandes, “sem registro societário formal, além de incompatibilidade entre a renda declarada e os dispêndios identificados”.

Outro alvo da operação, Pablo Jukiá Felix Ferreira, o ‘Pablo Russo’, é descrito como principal operador de fato da rede de postos de combustíveis – a maioria deles formalmente registrados em nome de sua mulher, Luana Oliveira, e da sócia dela, Luíse Correa -, “valendo-se de procurações para dissociar a propriedade formal do controle real dos ativos”, segundo a PF.

A investigação aponta para um advogado que, segundo a PF, repassava a Pablo Russo, com antecedência, agendas sigilosas de fiscalização do Procon, obtidas com servidores públicos do órgão. Mensagens extraídas de seu celular revelam o controle de cerca de 43 postos e disputas com distribuidoras quanto a cotas e preços, indicando a prática de cartel.

Na avaliação do procurador-geral, a representação da PF pela prisão dos investigados “está encorpada com significativos elementos sugestivos da operação de uma estrutura voltada à ocultação e à dissimulação de ativos provenientes de atividade criminosa organizada e da práticas ilegais no mercado de combustíveis”.

Paulo Gonet alertou, em sua manifestação, para o que chama de “perigo da liberdade” no caso do deputado. “Márcio Correia de Oliveira figura como articulador político e elo entre o poder público e os demais integrantes do grupo, sendo beneficiário recorrente de recursos transitados por interposta estrutura societária. O periculum libertatis subsiste na capacidade de articulação institucional, pelo seu papel de liderança na estrutura criminosa, e na aptidão para dar continuidade ao ciclo de captação e ocultação de valores, reforçado pela apreensão de armamento de calibre alto em sua residência.”

‘Hugo Canelão’

A Marcus Amim a PF atribui o papel de operador institucional e garantidor de blindagem do grupo, valendo-se dos cargos de cúpula no Detran e na Polícia Civil do Rio. Segundo a PF, Amim atuava para “proteger as atividades ilícitas da organização criminosa, sendo por isso remunerado por meio de consultoria fictícia e de participação societária oculta na empresa JR Conveniência Ltda e na Gasmix Alcântara”.

“Sua permanência em liberdade, dada a demonstrada capacidade de captura de instituições públicas, traduz risco à instrução processual e à ordem pública”, destacam os delegados federais Geraldo Sérgio Silva de Almeida e André Joberto Torres Junior.

Eles miram, ainda, um outro investigado, Hugo Corrêa da Cruz, o ‘Hugo Canelão’, que teria “papel estratégico na engrenagem delitiva, atuando na interface entre os núcleos político e econômico da organização criminosa”.

Segundo a PF, “para além do estreito vínculo de subordinação e lealdade a ‘Márcio Canella’, de quem é afilhado político e principal preposto, ‘Hugo Canelão’ transita como administrador de campo e supervisor ostensivo dos estabelecimentos varejistas de combustíveis titulados por Luana e Luísi, assegurando o escoamento e a regularidade fática das atividades empresariais utilizadas para a lavagem de capitais”.

Luana e Luísi figuram como sócias formais de mais de vinte postos de gasolina situados em Niterói, São Gonçalo e Região dos Lagos, “ostentando evolução patrimonial fulminante e incompatível com seus antecedentes”. Luana recebia até 2021 remuneração de R$ 1.800 mensais e passou a subscrever cotas de empresas de capital social milionário e movimentou mais de R$ 60 milhões em suas contas pessoais, destaca a PF.

Paralelamente, afirma a PF, Hugo Canelão desempenha a função de liderança e articulação político-eleitoral no município de São Gonçalo, “viabilizando a retroalimentação do poder político que confere sustentação ao grupo”.

A PF diz que Canella é o “patrono político e articulador de alto escalão da organização criminosa investigada, ostentando, ainda, a condição de destinatário de valores advindos das diversas infrações penais por ela perpetradas” – os delegados fazem referência ao “vasto acervo de relógios de altíssimo valor, associado aos dois veículos de luxo 0km/seminovos e às duas motocicletas de grife” apreendidos em poder do deputado na fase anterior da operação.

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