Etanol começa a ganhar força como combustível marítimo 

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 Brasil Agro 

Empresas de transporte marítimo, incluindo a Maersk e a mineradora Vale (VALE3), estão recorrendo ao etanol como combustível marítimo para reduzir as emissões, já que a oferta abundante e o custo mais baixo o tornam mais atraente do que outros combustíveis de baixo carbono, com a expectativa de que seu uso comercial se expanda já a partir do próximo ano.

O uso do etanol no transporte marítimo poderia abrir um novo canal de demanda para o combustível, que em alguns países é misturado à gasolina, ao mesmo tempo em que oferece aos armadores outra via para reduzir o uso de combustíveis convencionais e cumprir as metas de redução de emissões.

O interesse renovado surge em meio à crescente pressão sobre o setor de transporte marítimo global para gerenciar a incerteza dos preços do petróleo, à medida que as hostilidades no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz, uma via navegável vital, destacam os riscos do abastecimento de combustíveis convencionais.

“A volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis reforça o argumento de longo prazo a favor da diversificação de combustíveis”, disse Chris Chatterton, consultor marítimo do Global Centre for Green Fuels (GCGF).

“O que distingue o etanol neste contexto é que ele pode ser implantado de forma gradual – como uma mistura com metanol em navios já preparados para metanol, sem grandes adaptações e sem compromisso de capital com uma estratégia de combustível único.”

O setor de transporte marítimo vem testando alternativas ao óleo combustível, incluindo gás natural liquefeito, amônia, biodiesel e metanol.

Testes com etanol em navios a metanol

O grupo de navegação Maersk concluiu suas duas primeiras viagens com 100% de etanol no primeiro trimestre e na semana passada, após testes anteriores com misturas de 10% e 50% de etanol em uma embarcação projetada para funcionar tanto com metanol quanto com óleo combustível.

A Maersk vê o etanol como um complemento ao metanol, que surgiu nos últimos anos como um combustível alternativo para o transporte marítimo, embora o metanol verde continue com oferta limitada.

“Vale a pena explorar o etanol porque ele tem um mercado global estabelecido e infraestrutura existente, além de compartilhar propriedades semelhantes às do metanol”, disse um porta-voz da Maersk à Reuters.

O grupo de navegação X-Press Feeders, com sede em Cingapura, informou que também testou uma mistura de combustível marítimo composta por 10% de etanol e 90% de metanol em um navio porta-contêineres em Roterdã.

A Vale, que utiliza navios para transportar minério de ferro, informou que firmou contrato com a chinesa Shandong Shipping Corp para construir duas embarcações que podem operar com etanol, metanol ou óleo combustível pesado.

O etanol pode ser utilizado em um motor compatível com metanol já existente sem grandes adaptações, de acordo com fabricantes de motores, incluindo a suíça Everllence.

O número de navios compatíveis com metanol deve chegar a 450 até 2030, ante 107 em 2025, segundo dados da DNV. Cerca de 313 desses 450 navios são novas construções encomendadas.

Chatterton, da GCGF, disse que o metanol verde, derivado de recursos renováveis, enfrenta restrições de abastecimento no curto prazo.

“A Maersk deixou claro que a disponibilidade de metanol é um dos principais desafios na ampliação do uso de combustíveis alternativos, e é exatamente por isso que o etanol está sendo introduzido na mistura”, disse Chatterton.

Abundância de milho nos EUA e no Brasil

A principal matéria-prima do etanol é o milho, que os principais produtores, os Estados Unidos e o Brasil, têm em abundância. O metanol convencional é derivado de combustíveis fósseis.

O Departamento de Agricultura dos EUA projetou um abastecimento doméstico de milho de 17 bilhões de bushels para 2025-2026, o maior já registrado, à medida que a produtividade melhora.

A Associação de Combustíveis Renováveis, um grupo de produtores de etanol dos EUA, afirmou que, se o etanol conquistar 5% do mercado global de combustíveis marítimos, isso aumentaria a demanda em 4 a 5 bilhões de galões e a demanda por milho em 1,5 bilhão de bushels.

O grupo comercial de biocombustíveis dos EUA, Growth Energy, tem feito lobby por regras tributárias que incentivem o uso de mais etanol.

Eficiência do etanol

O etanol contém cerca de 35% mais energia por quilo do que o metanol, o que significa que os navios precisam de menos combustível para percorrer a mesma distância. No entanto, o etanol ainda fica atrás do óleo combustível convencional em termos de conteúdo energético, exigindo cerca de 50% a mais de combustível em peso para atingir a mesma produção de energia.

Dependendo da localização e do volume, o custo do etanol é amplamente comparável ao do óleo combustível convencional com baixo teor de enxofre (LSFO, na sigla em inglês), mas é mais barato que o metanol verde.

O etanol custava cerca de US$700 por tonelada métrica com base no carregamento nos EUA e mais de US$800 com base na importação na Ásia no início de junho, segundo dados do Conselho de Grãos e Bioprodutos dos EUA.

Em comparação, o LSFO custa mais de US$750 por tonelada na Ásia, enquanto o metanol verde pode facilmente custar mais de US$1.000 por tonelada, segundo fontes do setor.

Chatterton espera que mais operações comerciais de abastecimento de etanol surjam nos próximos 12 a 24 meses, com Santos, no Brasil, e Cingapura, principal centro de abastecimento, provavelmente liderando o movimento.

Cingapura vem desenvolvendo infraestrutura e normas com o objetivo de ampliar o uso de vários combustíveis marítimos alternativos.

“Espera-se que haja atividades adicionais iniciais no Golfo dos Estados Unidos, ligadas às cadeias de abastecimento de etanol impulsionadas pela exportação”, disse Rostom Merzouki, vice-presidente global de sustentabilidade da sociedade de recomendação de navios ABS.

Merzouki espera que as primeiras operações-piloto no noroeste da Europa se expandam para outros centros-chave de abastecimento até o final da década de 2020 (Reuters, 12/6/26)

Be8 planeja colocar etanol de trigo no mercado em 2027

Erasmo Carlos Batistella, da Be8: ‘Nos próximos três anos, vamos ampliar nosso leque’ – Foto: Editora Globo

Empresa também espera que o BeVant passe a representar até 20% do faturamento em três anos.

A empresa de biocombustíveis Be8 planeja colocar no mercado em 2027 seu etanol à base de trigo. Foi o que afirmou o CEO da companhia, Erasmo Carlos Batistella. O produto integra uma estratégia de ampliação e diversificação de catálogo, com a intenção de fornecer para as diversas cadeias de transporte.

‘A Be8 nasceu como uma empresa de biodiesel e está fazendo um movimento para se transformar em uma plataforma de energias renováveis. Nos próximos três anos, vamos ampliar nosso leque”, diz Batistella.

A unidade industrial para a produção do etanol de trigo – além de DDG e glúten vital – fica em Passo Fundo (RS). Está com 70% das obras concluídas. A previsão é de término ainda neste ano, com início de operações em março de 2027.

A Be8 também está com um projeto em andamento no Paraguai para a fabricação de Combustível Sustentável de Aviação (SAF, na sigla em inglês). Batistella disse que essa produção tem início previsto para 2030, ano para o qual há uma perspectiva de aumento de demanda pelo biocombustível.

A unidade industrial responsável por essa produção, a Omega Green, deve começar a operar em 2029. Deve usar diversos óleos vegetais, como soja, milho, girassol e canola. O projeto de engenharia e os processos de licenciamento ambiental e de construção já estão concluídos.

“É uma tecnologia flex. Vai usar a que trouxer maior redução de emissões. Temos uma estratégia tanto no Brasil quanto no Paraguai para garantir o fornecimento da matéria-prima”, explicou, sem detalhar como será essa estratégia.

A Be8 ainda deve colocar em operação no ano que vem uma fábrica de hidrogênio verde (H2V), um investimento de R$ 38,7 milhões em fase inicial. O projeto, que recebeu apoio do governo do Rio Grande do Sul, inclui a instalação de um posto de abastecimento de veículos.

E, na produção do biodiesel, vem ampliando o uso da gordura animal como matéria-prima. De 2023 para 2025, esse aumento foi de 15,2%. “A Be8 está fazendo um movimento para se transformar em uma plataforma de energias renováveis. Nos próximos três anos, vamos ampliar nosso leque”, afirma Erasmo Carlos Batistella, presidente da Be8

No ano passado, a Be8 contabilizou um lucro líquido de R$ 488,12 mil, “em linha com o planejado”, informou, em relatório de sustentabilidade. A receita líquida cresceu 36% para R$ 10,01 bilhões, e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) aumentou 21,8%, para R$ 809,09 mil.

A expectativa para 2026 é crescer entre 10% e 15% na receita. Batistella disse que medidas de eficiência das plantas industriais e aquisições – que serão consolidadas no balanço este ano – devem ser determinantes para o resultado.

“O primeiro trimestre ficou bem em linha com o que orçamos. Precisamos compreender como o ano se desenha com todo esse aspecto geopolítico, mudanças de imposto sobre combustível, subsídio a combustível. E temos visto demanda maior de exportação”, resumiu.

Corrida da Copa Truck, em interlagos. Be8 é a fornecedora oficial de combustível para a categoria – Foto Duda Bairros

Batistella conversou com a reportagem no último fim de semana, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, durante a quarta etapa da Copa Truck, o campeonato brasileiro de corrida de caminhões. A Be8, com o BeVant, é a fornecedora oficial de combustível para a categoria.

Os caminhões de corrida começaram a receber o combustível neste ano. A parceria entre a Copa Truck e a Be8 – que também dá nome a competição – tem duração de quatro temporadas.

“O automobilismo de competição sempre foi um grande espaço de avaliação para a indústria. Aqui, há situações que são limites para o combustível. Estamos aproveitando para adquirir mais dados e, no momento certo, aperfeiçoá-lo ainda mais”, explicou Camilo Adas, diretor de transição energética da Be8, também durante o evento, em Interlagos.

O BeVant é um metil éster bidestilado. É produzido a partir do biodiesel, com as mesmas matérias-primas, como óleo de soja e gordura animal. Depois de fabricado, esse biodiesel passa por processos físico-químicos, além da bidestilação.

Na estratégia da empresa, a entrada no automobilismo funciona como uma vitrine e como um selo de desempenho do BeVant. A promessa é de um combustível que pode substituir imediatamente o diesel em 100% nos tanques dos veículos, com redução de até 99% nas emissões.

BeVant, da Be8: Automobilismo como vitrine e como teste de eficiência – Foto: Divulgação

Atualmente, a maior parte da clientela do BeVant está no transporte rodoviário. Mas a expectativa é de crescer em outros segmentos, como mineração, navegação e agronegócio, no abastecimento, por exemplo, de máquinas agrícolas.

Na carteira, ainda é visto como um “produto de entrada”. A expectativa é de que, em até três anos, ele passe a representar de 15% a 20% da receita da companhia.

“O agro, para nós é fundamental. É um setor que tem pouca margem e precisa controlar muito o preço que paga por combustível. E, com a guerra no Irã, estamos vendo o preço subir e já temos clientes no agro que olham para o BeVant com a possibilidade de uso imediato”, disse Adas (Globo Rural, 12/6/26)

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