
O GLOBO
A Refinaria de Mataripe, na Bahia, virou um dos principais entraves para o governo e a Petrobras tentarem conter a alta dos combustíveis no Nordeste. Vendida pela estatal ao fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, no governo de Jair Bolsonaro, a unidade é operada pela Acelen, que mantém preços de combustíveis alinhados aos do mercado internacional. Como a Petrobras não repassa a alta do petróleo imediatamente aos seus preços em suas refinarias, a de Mataripe acaba distribuindo em sua área de inflação no Nordeste combustíveis mais caros que os da estatal.
Segundo dados da ANP, o preço do diesel vendido por Mataripe subiu 31,44% entre a primeira semana de fevereiro e a última de março, chegando a R$ 7,86 por litro no primeiro mês de guerra no Oriente Médio. A variação nacional foi de 19,37%, para R$ 7,11. No caso da gasolina, o mesmo cenário: 14,15% na refinaria da Bahia, para R$ 7,26, contra 6,5% na média do país, atingindo 6,72 por litro.
Mataripe responde por cerca de 15% do consumo nacional de combustíveis. Desde o início da guerra no Irã, a Acelen tem feito reajustes sucessivos, sempre às quartas-feiras.
Guerrilha comercial
Para tentar influenciar a rival a baixar preços, a Petrobras articula uma ofensiva comercial para ampliar sua presença no Nordeste, principalmente na zona de influência de Mataripe, que engloba Bahia, Sergipe e parte de outros estados. O plano discutido internamente pela presidente da estatal, Magda Chambriard, segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, é entregar mais combustíveis na região, inclusive com caminhões-tanque, a partir de sua Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco.
Tradicionalmente, refinarias abastecem mercados no seu entorno com pouca ou sem concorrência. O alcance é definido por fatores logísticos, principalmente os custos de transporte de combustível por dutos, rodovias ou cabotagem, além da armazenagem.
A Rnest recebe investimentos de R$ 12 bilhões para a manutenção de sua primeira unidade e a conclusão da segunda, o que vai adicionar 130 mil barris por dia à capacidade de processamento. Em 2029, a refinaria pernambucana deve refinar 260 mil por dia. Elevará muito a produção de derivados ( diesel, gasolina, nafta e GLP) da estatal no Nordeste.
A Petrobras, que é dona da maior parte das refinarias do país, é também fornecedora de Mataripe. Desde que assumiu a refinaria baiana, a Acelen já questionou a estatal junto ao Cade por vender a ela petróleo bruto pela cotação internacional e usar um patamar mais baixo nas transações com suas próprias refinarias, inviabilizando a concorrência.
Nos bastidores do setor circulam informações de que os controladores árabes estudam alternativas para Mataripe, inclusive a eventual revenda à Petrobras. Há conversas em curso, e o Mubadala destaca que já investiu mais de R$ 4 bilhões em melhorias que possibilitaram elevar a produção de 205 mil para 290 mil barris de óleo processados por dia. Segundo uma das fontes, Magda diz internamente na estatal que a recompra dependerá do preço. Procurada, Mataripe afirma ter uma política de preços transparente amparada por “critérios de mercado”.