Marcelo Alecrim: “Há uma taxação muito forte nos combustíveis”

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Fonte: Tribuna do Norte – RN

Com mais de 30 anos de experiência no mercado de combustíveis, o empresário potiguar Marcelo Alecrim terá um grande desafio como presidente executivo do Conselho de Administração da ALE, que é o de ampliar negócios num ambiente de instabilidade econômica como o atual. A oscilação do dólar em níveis recordes, a desvalorização do real no mercado internacional e o elevado índice de desemprego são problemas que impactam diretamente no consumo.
Na entrevista a seguir, Marcelo Alecrim analisa o processo de negociação da ALE com a Glencore, que em agosto formalizou a compra de 78% das ações da empresa brasileira com vistas à exploração de um novo mercado: o de distribuição e revenda de combustíveis. Para o empresário, o Brasil cobra muitos impostos e não reverte a alta carga tributária em favor da população. Segundo declarou, o próximo presidente da República deverá adotar medidas austeras para colocar o país de volta nos trilhos do crescimento. Acompanhe a seguir.

Como o senhor avalia a fusão da Ale com a Glencore e de que forma esse negócio irá contribuir para o desenvolvimento do mercado de combustíveis no País?
Nosso primeiro passo foi conquistar o Rio Grande do Norte ainda em 1996. Depois, nosso passo foi chegar ao Nordeste e nós conseguimos. Quando foi para chegar ao nível Brasil, nós tivemos um investimento internacional em 2004. E, dois anos depois, nós celebramos uma grande vitória que foi a conquista do pioneirismo no Nordeste e a primeira empresa nordestina a se tornar uma distribuidora nacional em 2006 quando se juntou com a ALE, formando a ALE SAT. A gente fez um trabalho bacana. Chegamos a comprar multinacionais, a crescer e dobrar a quantidade de postos e a nos tornarmos a quarta maior distribuidora do Brasil. Isso fez com que o tempo passasse e a gente crescesse ao lado dos antigos sócios que entraram em 2006. Mas os interesses da empresa, e aqui eu não falo em briga, em judicialização, em arbitragem, mas não estavam mais com o mesmo alinhamento em termos de futuro.

Em que sentido?
Um queria a curto prazo, outro queria a longo prazo, e fez com a que a empresa da gente se tornasse um sucesso, por sermos a quarta do segmento no País, ficasse muito cobiçada. E a gente carregou, ao longo de seis anos, se iria ser vendida e, até em alguns momentos, foi quase vendida para a Cosan e, no final, foi vendida para a Ipiranga. Mas, no final, o CADE, que é o antitruste brasileiro, falou que a gente não poderia ser vendido por motivos de concentração de mercado e que só existiam quatro empresas nacionais e nós éramos a quarta maior no País.

E como se deu o novo processo de negociação?
No ano passado, em 2 de agosto, a gente ficou sabendo que foi negada a venda para a Ipiranga. Isso nos trouxe muito prejuízo. Nós estávamos vendidos e não fazíamos planos para a marca nem para longo prazo. Nós estávamos prontos para entregar a empresa. O negócio estava consumado e certo. Mas aí teve uma força muito forte, até mesmo dos funcionários, pois quase nenhum saiu da sua função e a confiança do mercado, além da confiança do mercado financeiro. Nós fomos a primeira empresa que, desde muito tempo, foi devolvida. Então, é difícil você estar numa empresa sabendo que ela está vendida e depois ela voltar para o seu comando. No dia 3 de agosto de 2017, seis ou sete empresas já estavam querendo conversar com a gente. Então, começou todo um processo no qual a Total, a Vitol e outras empresas, além da Glencore, que entrou nesse novo ciclo de negociação. Fica difícil ficar competitivo no mercado ao mesmo tempo que se está sendo vendido.

A negociação com a Glencore foi encerrada este ano?
No dia 15 de agosto deste ano, a negociação foi fechada com a Glencore. O CADE aprovou e, no início de setembro, a Glencore assumiu com 78%. Eu continuo com 22%. Meus sócios foram comprados. E isso foi muito bacana. Dentro de um ano, a gente ter consolidado e ter tirado essa estigma de uma empresa que estava vendida e que ninguém sabia o futuro dela. Então, graças a Deus, os sócios da Glencore formaram o maior trade de commodities, é uma grande empresa e, para a ALE, isso é muito bom. Além de estarem alinhados comigo, soma uma experiência regional e nacional, já que a Glencore não tem revenda e distribuição de combustível no mundo. Essa operação começou agora. O Brasil foi o segundo país. O primeiro foi o México. E ela confiar na empresa. A ALE está bem mais robusta, com toda uma experiência de uma das maiores empresas do mundo, com atuação internacional em termos de conhecimento, de importação, de trade e isso só tem a fortalecer. No meu caso, eu estou como presidente do Conselho Executivo, continuo comandando, mas agora com o objetivo de ajudar os executivos a baterem metas.

A partir de agora, quais são os planos de expansão?
Nós temos uma grande capacidade de crescimento com nossa estrutura própria. Estamos preparados para aproveitar e estudar essas situações novas, já que o Brasil vem nessa decadência há quatro anos com o PIB negativo e com esse grande problema gerado pela greve dos caminhoneiros e a intervenção sofrida pela Petrobras. Estamos muito atentos às regras que ainda não estão claras para a economia. Principalmente, por causa da eleição. Se o presidente for uma coisa, a Petrobras irá se comportar dependendo de quem vencer a campanha. Se for um centro-esquerda, se for um centro-direita... Mas, nós seguimos animados. A nossa empresa não está mais vendida, está alinhada, são apenas dois acionistas agora. Eu estou muito feliz também por ter uma multinacional que fatura 222 bilhões de dólares, quase um trilhão de reais, me ter como sócio da pessoa física e comandando os negócios no País. Agora, todo o Brasil está se preparando e aguardando. O combustível está muito ligado à economia e ao PIB. Se o Brasil voltar a crescer, nós iremos crescer vegetativamente com muita força.

Como o senhor acredita que o Brasil sairá dessa situação de instabilidade?
Na realidade, vai depender muito do novo presidente. Veio a Lava Jato, depois o problema da ingovernabilidade. Nós estamos arrumando a casa. A grande esperança está nas novas políticas. Se será um centro-direita aberto que desonere mais as folhas, que facilite o ambiente de trabalho, que avalie o nível de desemprego no qual nos encontramos e as chances que estamos perdendo. Mesmo assim, o Brasil ainda é seguro. Eu não tenho medo do câmbio, se o petróleo será ou não subsidiado, se o Executivo será tratado como deve ser tratado sem indicações políticas. O mercado, como um todo, está aguardando isso. Está tendo muita desordem na Venezuela, na Argentina. A América Latina não está sendo bem vista e, o Brasil, tem tudo para crescer. A agricultura é muito boa, pode ter três safras em um ano por causa do clima tropical. O Brasil é uma potência que precisa se modernizar e deixar os executivos públicos e privados serem do mesmo nível para que os Estados possam ser governados dentro de um padrão de excelência. Não adianta pagar tantos impostos se eles não voltam para os empresários, para o povo da forma que ele merece.

Em relação à política de precificação dos combustíveis adotada pela Petrobras, o senhor avalia que é a mais adequada?
O Brasil tem que colocar na cabeça que o combustível é uma commoditie mundial. Então, não adianta se a gasolina estiver cara no mundo, ser subsidiada no Brasil. O que existe é um custo, uma taxação muito forte na energia, nos combustíveis e no consumo. O imposto, hoje, corresponde a 45% do valor do litro da gasolina. Eu não sou a favor dos subsídios. Sou a favor que o Estado saiba tratar bem as commodities mundiais que são valorizadas pelo dólar como o trigo, o arroz, o açúcar dependem de como está o preço lá fora. Se aqui está mais barato e lá fora está mais caro, a pessoa irá tirar a gasolina daqui para vender lá fora. Então, não adianta enrolar. A carga tributária em cada litro de gasolina, pelo menos aqui no Rio Grande do Norte, incide em 27%. O consumidor não irá brigar com o dono do posto, mas com o Estado. A CIDE incide em mais 13%. Quando se junta, é 45% do todo. São impostos federais, estaduais e municipais. Se o combustível ficou muito caro, é preciso reavaliar e buscar formas de solução. Não se pode maquiar o que amanhã pode estourar. É esse o problema do Brasil. Tudo é em curto prazo. Tem que se pensar em longo prazo. Se o combustível ficou caro e tem outra alternativa, vamos buscar outras.
Qual será o grande desafio do próximo presidente da República para o País voltar a crescer?
É preciso adotar uma austeridade muito forte. Não lotear e escolher os membros do Executivo não por indicação, mas por competência, por meritocracia. Isso é importantíssimo, além de ter um plano que mostre, que diga aonde o País irá chegar e como irá chegar e que os empresários acreditem nesse plano e possam investir. Fica difícil construir uma casa em algum lugar, por exemplo, sem saber se o asfalto irá passar, se terá energia elétrica e infraestrutura. O Brasil tem hoje o maior índice de desempregados da história e é preciso desonerar impostos ou facilitar a atuação dos empresários. Para o País voltar aos trilhos, os gestores precisam ter responsabilidade nas contas, assim como nós temos com nossas empresas, com nossas famílias. É pensar no social e não tirar proveito. Com isso, a credibilidade internacional aumenta.

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