Reajuste de preços pela petroleira não elimina cautela no mercado

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19/02/2021
Petrobras reduz desconto no preço do diesel com nova alta
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Fonte: Valor Econômico

A decisão da Petrobras em calibrar os preços da gasolina e do diesel, em um momento de disparada do petróleo no exterior, ajuda a amenizar a desconfiança crescente do mercado sobre a política de preços da estatal. No entanto, apesar de bem recebida pelos analistas, a iniciativa não elimina a cautela sobre os próximos passos da companhia em um cenário valorização da commodity lá fora e de câmbio depreciado no Brasil. “O mercado vai seguir cético sobre a política de preços da Petrobras. E isso só vai acabar quando vender as refinarias. Se o preço do petróleo subir para US$ 70 e a Petrobras demorar para agir, vão voltar as preocupações sobre o uso da empresa como ferramenta de política de governo. O que vai amenizar é a venda de refinarias, quando a política de preços se tornará algo menos sensível”, afirma o gestor de uma grande asset, que preferiu não ser identificado.

Ele explica que a preocupação no mercado se agrava quando a defasagem do preço do diesel se aproxima de dois dígitos em relação às referências internacionais. “Enquanto estiver perto de 5%, o mercado tolera porque um dia de variação do câmbio ou do petróleo pode equilibrar isso. Já vimos isso acontecer, são dois componentes muito voláteis. Mas quando começa a se aproximar de dois dígitos, aí acende o sinal de alerta porque poderia gerar um efeito bilionário nos resultados da empresa, se você considerar um período de um ano, por exemplo”, diz o profissional.

Ontem, a Petrobras anunciou reajuste de 15% no preço do diesel – o maior aumento da companhia para o derivado desde o início de 2019, quando o atual presidente Roberto Castello Branco assumiu a petroleira. Além disso, elevou o valor da gasolina em cerca de 10%.

Com isso, a defasagem no preço do diesel saiu de 19,7% para 7% enquanto o da gasolina ficou em linha com a paridade internacional, nos cálculos da XP Investimentos. Já para o Goldman Sachs, os descontos estão em 8% e 11%, respectivamente – no caso do diesel, é a menor diferença desde o início de janeiro.

“Foi positivo, mas não é nenhum favor. Esta [paridade de preços] é uma discussão que já estava madura. Era um não assunto há quatro meses, mas voltou a ser um assunto. A Petrobras não tem que dar resposta ao mercado, ela tem de praticar paridade como companhia”, afirma o analista Gabriel Francisco, da XP.

Ele alerta que o ambiente ainda é arriscado, dado a trajetória de alta do petróleo e a desvalorização do câmbio. Em seus cálculos, considerando todos os outros fatores constantes, a defasagem de 7% do preço do diesel custaria US$ 1,9 bilhão à Petrobras no período de um ano – algo que se refere à queda da margem de refino e o custo de importação de combustível.

As ações da Petrobras chegaram a subir mais de 3% durante a manhã. No entanto, perderam força ao longo do pregão com a aversão ao risco no exterior. Petrobras ON perdeu 0,84%, a R$ 29,43, enquanto a PN caiu 1,08%, a R$ 29,27.

A desconfiança em torno do preço do diesel também perpassa o risco constante de greve dos caminhoneiros, embora esse seja um risco reduzido neste momento, na avaliação de parte dos analistas.

“É uma espada que ficará eternamente na cabeça dos brasileiros. Mas os fretes no mundo e no Brasil estão subindo. Mesmo com o reajuste no preço do diesel, os fretes subiram mais, porque teve atraso nas safras do Brasil e agora está ocorrendo a colheita. Ou entrega agora ou não tem o que entregar daqui dois ou três meses. O risco de uma greve é menor agora”, explica Kaique Vasconcellos, sócio da Helius Capital.

Nas contas do profissional, o diesel estaria agora com desconto de 4% a 5% ante a paridade internacional. “Está praticamente na paridade internacional. A preocupação aumenta quando chega em 10% e fica muito preocupante acima de 15%”, explica. Uma forma de amenizar os preços seria via corte de impostos, diz Vasconcellos, embora reconheça que a situação fiscal é bastante delicada no país. “O fiscal é complicado, mas precisa diminuir a máquina do Estado para reduzir impostos. Não é algo de curto prazo”, acrescenta.

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