Petrobras reduz desconto no preço do diesel com nova alta

Reajuste de preços pela petroleira não elimina cautela no mercado
19/02/2021
Reajuste da Petrobras ocorre em meio a queixas de distribuidoras por falta de diesel
19/02/2021
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Valor Econômico

Em meio à desconfiança do mercado em relação à política de preços da Petrobras, nas últimas semanas, a estatal anunciou ontem aumentos de 15,2% para o diesel e de 10,2% para a gasolina. Com isso, a petroleira eliminou boa parte do desconto ante o preço de paridade de importação (PPI) – defasagem que é alvo de críticas de investidores. Ainda assim, segundo analistas, a companhia mantém os preços abaixo da referência internacional no diesel.

O reajuste anunciado para o diesel foi o maior já feito pela companhia, pelo menos desde 2017 – quando a empresa passou a trabalhar com variações quase diárias, atreladas ao mercado internacional, ainda na gestão Pedro Parente – segundo a consultoria Stonex. Se até então a Petrobras vinha segurando os preços, sem repassar, na íntegra, a valorização do petróleo no mercado internacional, dessa vez a situação foi diferente. Os reajustes, válidos a partir de hoje nas refinarias, ficaram acima da variação do barril, de 6,2% desde o dia 9, data do último aumento nos preços da estatal.

Petrobras atinge menor defasagem do ano no diesel em relação à paridade de importação, diz Goldman Sachs

O Goldman Sachs destacou que, com isso, o desconto praticado pela Petrobras no diesel em relação ao PPI atingiu o seu menor tamanho no ano.

O banco, porém, estima que a estatal continua a trabalhar com defasagens de 8% para o derivado e de 11% para a gasolina. A XP Investimentos, por sua vez, calcula que o desconto do diesel saiu de 19,7% para 7% com o novo reajuste e que a gasolina agora está em linha com a paridade internacional.

O novo aumento no diesel – o terceiro em 2021 – repercutiu em Brasília. Ontem à noite, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que, a partir de março, o governo irá zerar os impostos federais sobre o derivado. “Isso [zerar imposto] vai contrabalançar este aumento excessivo da Petrobras, mas eu não posso interferir, nem iria interferir. Se bem que alguma coisa vai acontecer na Petrobras nos próximos dias, tem que mudar alguma coisa”, completou Bolsonaro, sem entrar em detalhes.

O novo reajuste, agora, ocorre em meio à expectativa de crescimento da demanda por diesel nas próximas semanas e a queixas de distribuidoras de que a Petrobras não tem dado conta de atender, integralmente, às encomendas de clientes. Na avaliação do líder da área de petróleo da Stonex, Thadeu Silva, ao se aproximar mais do PPI, a petroleira dá um sinal positivo aos importadores, num momento em ela própria enfrenta dificuldades para suprir o mercado.

“Agora, quando chegamos à beira de março, com a safra agrícola crescendo e o consumo do diesel com tendência de aumentar bastante nas próximas semanas, o mercado está muito mal suprido. A Petrobras teve que caminhar a fazer o aumento. Se não, poderíamos entrar ou numa crise de abastecimento ou ela teria que incorrer em prejuízo, tendo que importar muito diesel e vender abaixo [do PPI]”, comenta. “Mas as incertezas geradas pelas declarações do presidente [Bolsonaro] não ajudam a dar a direção ao mercado”, disse.

De acordo com as estimativas da Stonex, ainda há espaço para um “leve reajuste”, de R$ 0,05 no litro do diesel, mas é inegável que os preços se aproximaram da paridade internacional. No caso da gasolina, segundo o analista, os preços estão, agora, alinhados ao PPI.

Na semana passada, a Federação Nacional de Distribuidores de Combustíveis (Brasilcom) enviou uma carta à Agência Nacional de Petróleo (ANP) alertando para riscos de desabastecimento. No documento, a entidade relata que a Petrobras vem reportando às distribuidoras cortes na entrega de produtos pedidos para março, em diversos polos de suprimento.

Segundo duas fontes, embora a petroleira esteja respeitando os compromissos contratuais, as distribuidoras estão com dificuldades para encomendar cargas extras – no mercado, as empresas costumam contratar uma parte da demanda, geralmente entre 70% e 80%, com a Petrobras e deixar uma “folga” para negociar com importadores. As distribuidoras reclamam que os preços da petroleira têm afastado importadores e que, ao mesmo tempo, a estatal não vem dando conta da demanda.

A Brasilcom também reclama que a Petrobras deixou para comunicar os agentes sobre os cortes na entrega num “prazo exíguo” que resultará “na quase impossibilidade de se obterem contratos de importação em quantidade suficiente”. A ANP pediu mais informações sobre os casos narrados, sob a justificativa de que se trata de um requerimento “genérico”.

Já a Petrobras esclareceu que está atendendo à demanda por diesel das distribuidoras, dentro dos prazos e volumes previstos nos contratos. “Os volumes aceitos para março estão muito acima da média de vendas dos últimos meses e em conformidade com a sistemática prevista nos contratos e nos normativos da ANP”.

O presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, conta que depois de meses com dificuldades de trazer cargas para o país, as associadas já têm sido procuradas pelas distribuidoras, interessadas em contratar novos volumes. Ele lembra, porém, que a Petrobras ainda trabalha com uma defasagem de cerca de R$ 0,10 para o litro do diesel. “As importadoras têm condições de atender à demanda complementar das distribuidoras, mas a preços de mercado, não aos preços da Petrobras”.

O reajuste do diesel se dá em meio a questionamentos no mercado sobre a estratégia da Petrobras de segurar o repasse do aumento dos preços internacionais. A percepção entre analistas é de que a companhia teria dificuldades para fazer reajustes elevados quando necessário. O novo aumento, num momento de disparada do petróleo, portanto, ajudou a amenizar a desconfiança. Apesar de bem recebida, contudo, a alta ainda não elimina a cautela sobre os próximos passos, num cenário de volatilidade da commodity.

A tendência é que o assunto volte a agitar o mercado depois que Bolsonaro declarou, ontem à noite, “que alguma coisa vai acontecer na Petrobras” – embora não tenha detalhado a afirmação.

De acordo com o chefe da área de produção de óleo e gás da S&P Global Platts Analytics, Ashutosh Singh, a tendência é que os preços do barril se mantenham em alta nos próximos meses, como reflexo da expectativa de aumento do consumo durante o verão no hemisfério Norte. Nas últimas semanas, o barril do tipo Brent superou os US$ 60 pela primeira vez em 12 meses, como reflexo do otimismo com o avanço da vacinação contra a covid-19 no mundo e dos pacotes de estímulos de diversos países, para lidar com a crise, além de cortes de produção da Arábia Saudita. Os efeitos da nevasca sobre as refinarias no Texas (EUA) também têm afetado o mercado.

“Os fundamentos hoje mantêm a tendência de aumento dos preços, pois a demanda está crescendo. Talvez no segundo semestre o Irã volte a aumentar a produção e a extração nos EUA também cresça, então poderemos ver alguma fraqueza nos preços”, explica Singh.

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