Setor teme entrada do crime organizado no mercado de botijões

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ANP discute possibilidade de venda fracionada e fim das marcas no gás de cozinha. Especialistas veemrisco à segurança e maior sonegação

 Jornal O Globo 

Mercado de gás de botijão (GLP) pode ter novas regras a partir de sexta-feira, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) votará a revisão da regulamentação do setor, que prevê alterações na comercialização e distribuição, a possibilidade de venda fracionada e o fim das marcas nos botijões. As mudanças são vistas com preocupação pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e por especialistas, que veem risco de menor segurança ao consumidor, estímulo à falsificação e sonegação.

A proposta estava na pauta da ANP no último dia 29, mas teve a votação postergada após o MME enviar ofício afirmando que o enchimento fracionado e o envase de recipientes de outras marcas podem ter efeitos negativos ao consumidor e ao mercado. Segundo pessoas a par do assunto ouvidas pelo GLOBO, as novas regras ganharam espaço na ANP após empresas do setor, que atuam nos segmentos de revenda e atacado, apontarem a possibilidade de que o fracionamento poderia reduzir os preços. Para isso, defendem a necessidade de usar os botijões das grandes

distribuidoras, acessar uma parcela do gás nos polos da Petrobras e abrir o varejo, permitindo injetar o produto em revendas identificadas com outras marcas.

SEM RASTREABILIDADE Estudos independentes, realizados pela Escola de Segurança – Multidimensional (Esem) da Universidade de São Paulo (USP) e pela Ecoa Consultoria Econômica em fevereiro e março de 2026, apontam riscos de avanço da sonegação. Para Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Esem e especialista em segurança pública, a diluição da responsabilidade sobre os botijões abre as portas para o crime organizado: – Há a possibilidade concreta de o setor de GLP se tornar uma nova fronteira para o crime organizado no Brasil. A flexibilização regulatória pode ampliar a influência de milícias e facções, hoje restrita ao varejo, para o segmento estratégico de distribuição. Ou seja, o crime subiria um degrau e controlaria parte importante do enchimento dos botijões.

O estudo da USP aponta risco ao consumidor final com a possível perda da rastreabilidade física dos botijões, preocupação levantada pelo

MME. Sem a marca em alto-relevo nos botijões, a responsabilização por acidentes e explosões decorrentes de vazamentos de gás se torna mais difícil, o que pode desestimular investimentos em segurança, segundo especialistas. O setor investe R$ 280 milhões anuais na requalificação de vasilhames. Carneiro lembra que, antes da implantação do Programa Nacional de Requalificação dos Botijões, nos anos 1980, distribuidoras envasavam botijões de qualquer marca, o que levou a um aumento de acidentes domésticos.

– A proposta de permitir o enchimento universal de botijões, sem mecanismos de controle, pode repetir, em escala industrial e com um produto inflamável de uso doméstico, distorções do passado e aumentar o risco de acidentes domésticos – alerta o professor da USP.

O mercado de GLP no Brasil é o sexto maior do mundo, com a comercialização de 400 milhões de botijões por ano. Desde que a Petrobras saiu da distribuição com a venda da

Liquigás, cinco empresas concentram 95,89% do mercado, segundo dados do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás). O ranking é liderado pela Copagaz (23,82%), seguida por Ultragaz (21,95%), Nacional Gás (21,49%), Supergasbras (21,40%) e Consigaz (7,23%).

MAIS INFORMALIDADE Estudo da Ecoa Consultoria compara a informalidade em combustíveis, estimada em 8,3%, com a dos cigarros, de 41%, e calcula que, se os mesmos níveis forem atingidos no GLP, as perdas de arrecadação podem variar de R$ 120,6 milhões a R$ 797,1 milhões por ano em tributos e contribuições previdenciárias.

– Se considerarmos que o número de fiscalizações da ANP caiu 18% em 2024 em relação ao ano anterior, temos consciência de que a informalidade vai explodir – afirma Claudia Viegas, economista da Ecoa, destacando o recente corte nos orçamentos das agências reguladoras.

O MME diz que as novas regras da ANP inviabilizarão o Gás do Povo, uma das principais bandeiras do governo Lula, que amplia o acesso ao gás de cozinha para 15 milhões de famílias. O programa prevê que os botijões sejam vendidos lacrados e cheios, com selo de inviolabilidade, para evitar fraudes. O ministério solicita a suspensão dos temas no debate regulatório da ANP argumentando que as novas regras vão contra as decisões do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e da lei que criou o Gás do Povo.

O MME diz que as regras, se implementadas, trazem “riscos de sujeição do mercado de GLP ao crime organizado” com fraudes, adulterações e desvios tecnológicos.

– A expansão da informalidade pode impedir que famílias de baixa renda recebam a devolução de impostos prevista na Reforma Tributária, já que o benefício exige a emissão de nota fiscal. O benefício depende da formalização das vendas – diz Claudia.

A Associação Brasileira das Empresas Revendedoras de Gás (Abragás), que representa 60 mil pontos de venda, defende a mudança como caminho para reduzir a concentração de mercado. José Luiz Rocha, presidente da Abragás, diz que hoje o valor do botijão chega a R$ 150 em algumas regiões e que, com as mudanças, poderia cair a menos de R$ 100: – O consumidor compra esse botijão, mas as empresas que controlam o setor se acham no direito de exigir que ele seja recarregado apenas por distribuidoras da mesma marca. Circulam no país 134 milhões de botijões. Desses, 114 milhões pertencem a consumidores e revendedores.

O Sindigás argumenta que há desafios e questões que precisam ser consideradas.

– A identificação da marca gravada em alto-relevo e a responsabilidade das empresas constitui o único meio de garantir rastreabilidade, segurança do consumidor, responsabilização dos agentes e combate à informalidade e às atividades ilícitas que historicamente afetam mercados que demandam intensa fiscalização – diz Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás.

Na reunião de diretoria no fim de maio, a ANP destacou a necessidade de um projeto-piloto para adotar tecnologias de rastreabilidade, que ainda não existem. Porém, executivos avaliam que uma aprovação de mudança na regulação econômica deveria ser precedida de uma fase experimental de rastreabilidade, e não o contrário.

São ao todo seis medidas em discussão na ANP, em uma lista que inclui a possibilidade de uso do GLP no aquecimento de piscinas, em caldeiras e em motores, exceto os de carros.

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