Poder 360 – Opinião
* Pedro Rodrigues
Em maio de 2023, a Petrobras aposentou o PPI (Preço de Paridade de Importação), em vigor desde 2016, e adotou o que o governo batizou de “abrasileiramento” dos preços. A promessa era sedutora: se o Brasil produz petróleo, o brasileiro não precisaria pagar o diesel pelo preço internacional. No lugar de uma regra, entraram critérios vagos como “custo alternativo do cliente”. A formação do preço deixou de ser transparente e passou a seguir uma conveniência.
Enquanto o petróleo esteve comportado, a conta não apareceu. Agora, apareceu. Segundo dados do CBIE Analytics, o PPI do diesel em Paulínia chegou perto de R$ 7,00 por litro em setembro, enquanto a Petrobras vende a cerca de R$ 3,30. A estatal vende o diesel pela metade do que custa trazê-lo de fora, com o barril acima de US$ 108.
O governo dirá que isso é bom para o consumidor, já que a Petrobras abastece cerca de 70% do mercado. Seria verdade se preço fosse média de custos, mas preço é custo de reposição. O Brasil importa de 27% a 30% do diesel que consome, e o último litro necessário para abastecer o país vem de fora, a preço internacional. É esse litro que define o preço. Nenhum importador compra a R$ 7 para vender a R$ 3,30. E a distribuidora que recebe diesel barato da Petrobras não tem por que vendê-lo abaixo do que o mercado paga.
Quando um produto é vendido abaixo do mercado, ele não fica mais barato. Fica racionado. Foi o que ocorreu: em março, a Petrobras passou a entregar só os volumes contratados.
Os números confirmam. A Petrobras vende hoje praticamente ao mesmo preço de janeiro. Na bomba, porém, o diesel S10 saiu de R$ 5,78 em janeiro para R$ 6,59 no início de setembro. Na 2ª semana do mês, a ANP já registrava média de R$ 6,97. O preço da estatal ficou parado e o do consumidor subiu. A defasagem não chegou à bomba.
O painel da ANP completa o quadro. As importações de diesel pela própria Petrobras saltaram para 850 mil m³ em agosto e despencaram em setembro. Faz sentido. Sociedade de economia mista, com acionistas privados e sujeita à Lei das Estatais, a Petrobras não pode importar para revender com prejuízo.
E a subvenção? O Tesouro banca hoje R$ 2,12 por litro de diesel. Como a bomba segue o custo de reposição, esse dinheiro não chega ao consumidor. Vai para o caixa da Petrobras, reduz o prejuízo e embeleza o crack spread no balanço.
Na 5ª feira (17.set.2026), a estatal elevou o diesel A em R$ 1,00 e aplicou desconto idêntico bancado pela subvenção, com efeito líquido zero. É o pagador de impostos bancando para que o preço defasado continue defasado. E agora, José? A armadilha tem duas saídas. E ambas são ruins.
E agora, José? A armadilha tem duas saídas. E ambas são ruins. A 1ª é o apagão de diesel. Com a Petrobras cortando cotas e importações, quase 1/3 do consumo depende de importadores privados que convivem com o risco permanente de uma nova intervenção. Basta que recuem para abrir um buraco que ninguém cobre. Faltar diesel é paralisia.
A 2ª é a volta à era Dilma. Para evitar o desabastecimento, a Petrobras será empurrada a importar caro e vender barato, assumindo a responsabilidade política pelo abastecimento e pelos preços. Já vimos esse filme de 2011 a 2014: prejuízos bilionários no refino, endividamento recorde e acionistas –a União incluída–, pagando a conta. Para ler esta notícia, clique aqui.
*Sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE)