As ações da Petrobras continuarão subindo?

CONSUMO DE GÁS NATURAL CRESCE 10,3% EM AGOSTO ANTE JULHO, DIZ ABEGÁS
02/11/2016
Um avanço no programa de ajuste da Petrobrás
03/11/2016
Mostrar tudo

Fonte: Valor Online
Um dos melhores investimentos nos últimos 12 meses foi investir nas ações da Petrobras. Os papéis sem direto a voto tiveram apreciação de 115,5% no período. O presidente escolhido, Pedro Parente, com carreira bem-sucedida no setor privado trouxe de volta um discurso comprometido com a razoabilidade econômica. Nada muito sofisticado: apenas relembrou que despesas e investimentos têm que caber dentro do orçamento. Essa máxima havia sido ignorada pelo governo anterior guiado por um voluntarismo pueril e por objetivos menos nobres. A alteração da postura da administração foi fundamental para a sobrevivência da companhia que caminhava para um cenário de inviabilidade econômica. O desempenho da ação demonstra que os investidores reconheceram essa mudança. Mas o realizado, até agora, é suficiente para uma valorização sustentada das ações? As ações ficaram caras após o rali? Muitos indicam a Operação Lava-Jato como a principal causa da derrocada dos resultados financeiros da Petrobras. O prejuízo com propinas é calculado em R$ 6 bilhões. Embora esse esquema tenha drenado o caixa da empresa, a política de contenção dos preços dos derivados entre 2010 e 2014 foi muito mais danoso à empresa. Como a Petrobras importava o óleo a um valor superior ao vendido no mercado doméstico, estima-se que a perda gerada foi de R$ 60 bilhões no período, dez vezes o escândalo com corrupção. A consequência dessa política e de investimentos desastrosos foi a elevação do endividamento a níveis preocupantes. As primeiras medidas da nova administração foram reduzir os investimentos futuros, anunciar a venda de ativos não estratégicos e controlar custos e despesas. Embora a execução das medidas ainda seja embrionária, o mercado se antecipou fazendo com que o preço da ação tenha mais do que duplicado em um ano. Contudo, duas métricas mostram como a petrolífera ainda apresenta uma situação preocupante. O endividamento líquido sobre a receita estava em 4,0 vezes em junho último. É a empresa mais alavancada entre nove analisadas. A segunda mais endividada é a Royal Dutch Shell com 3,1 vezes. A média desse grupo é cerca de metade do da companhia brasileira: 2,2 vezes. Em um ano, a queda da alavancagem foi imaterial de 4,1 vezes para 4 vezes. A outra medida é a divisão das despesas administrativas pela receita. Em outras palavras, quanto da receita é destinada ao custeio das despesas gerais, administrativas e de vendas. Em junho, a Petrobras possuía um dos maiores indicadores – 9,2% – superada apenas pela Petrochina (não por coincidência outra estatal) e pela russa Gazprom. A média das nove companhias analisadas é bem inferior: 6,7%. O número da Petrobras chama ainda mais a atenção porque, nos últimos três anos, essas despesas tiveram uma queda nominal de 24,9%. A diretoria ainda terá muito trabalho. A valorização das ações não tornou os papéis da Petrobras caros quando medidas pelo indicador FV/Ebitda de 2016, em que o valor da firma (“firm value”, em inglês) é calculado somando-se o valor de mercado com a dívida líquida, enquanto o Ebitda é uma medida simplificada da geração de caixa projetada para 2016. Em 29 de outubro, as ações preferenciais negociavam a um múltiplo de 6,9 vezes ainda com desconto de cerca de 8% para o grupo das nove empresas observadas. Apesar de ainda depreciadas para as demais, os papéis de Petrobras devem perder força caso as medidas anunciadas pela administração não se confirmem. As ações não continuarão subindo apenas impulsionadas por discursos como se viu até agora. Houve uma expansão do múltiplo sem resultados concretos ainda. A administração precisa entregar o que prometeu – especialmente, a redução do endividamento – para que a ação continue a subir. Nesse caso, o valor de mercado pode se elevar ocupando o espaço antes ocupado pelo endividamento no numerador. Assim, o preço da ação pode subir mesmo com o múltiplo FV/Ebitda se mantendo intacto. André Rocha é analista certificado pela Apimec e atua há 20 anos como especialista na avaliação de companhias listadas na bolsa. As opiniões contidas neste espaço refletem a visão do analista sobre as companhias, e não a do Valor Econômico. O Valor e o autor não se responsabilizam por prejuízos decorrentes do uso dessas informações (Veja os termos de uso completos em www.valor.com.br/valor-investe/o-estrategista)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *