Setor de etanol cobra do próximo governo mais demanda e segurança para investir

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O próximo governo terá o desafio de criar um ambiente mais seguro para novos investimentos e, ao mesmo tempo, ampliar a demanda por etanol no Brasil. Na avaliação de Martinho Ono, CEO da SCA Brasil, o país tem espaço para aumentar significativamente o consumo do biocombustível, mas precisa avançar em segurança jurídica, política tributária e infraestrutura para que o produto consiga chegar a mais regiões com preços competitivos.

“O que nós precisamos é de segurança jurídica e maior previsibilidade na política dos biocombustíveis”, afirma Ono.

A falta de estabilidade nas políticas de preços dos combustíveis pode reduzir o apetite do setor por novos investimentos. A política de preços praticada pela Petrobras é um dos pontos de atenção, já a gasolina tem mecanismos de controle que não encontram reciprocidade nos biocombustíveis.

“Isso tira o apetite, tira a vontade de fazer investimento e fica aquela dúvida”, pontua Ono.

Etanol ainda concentrado em poucos mercados

Para o setor, uma das principais oportunidades para o próximo governo está na expansão do consumo de etanol para além dos grandes mercados consumidores.

Atualmente, seis estados (São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) concentram cerca de 80% do consumo de etanol hidratado no Brasil , enquanto os demais ainda apresentam grande potencial de crescimento.

Para que isso aconteça, porém, seria necessário enfrentar dois dos principais obstáculos apontados pelo especialista: a diferença de tributação entre os estados e o elevado custo logístico.

O CEO da SCA Brasil destaca que gasolina e diesel já contam com uma sistemática de tributação uniforme, enquanto o etanol ainda enfrenta diferenças entre os estados. Para ele, uma maior equalização tributária poderia contribuir para ampliar a competitividade do biocombustível.

A logística também pesa. Grande parte do etanol é transportada por caminhões, o que encarece o produto quando ele precisa percorrer longas distâncias entre as regiões produtoras e os centros consumidores.

Por isso, investimentos em ferrovias e dutos são apontados como necessários para reduzir custos e ampliar o mercado.

Etanol de milho abre novas fronteiras

O crescimento da produção de etanol de milho também deve contribuir para a expansão do mercado brasileiro, principalmente por permitir a instalação de unidades em regiões sem tradição na produção de cana.

A produção começou a ganhar escala principalmente no Centro-Oeste, em estados como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, e agora avança para outras regiões do país.

Na avaliação de Ono, essa expansão pode ajudar a reduzir distâncias entre produção e consumo.

“O milho tem maior capacidade em mais território do país, o que facilita os investimentos do etanol de milho em vários estados onde não há produção de cana”, explica.

Para o especialista, o avanço do etanol de milho é positivo para aumentar a oferta e levar o biocombustível a novos mercados.

Mas esse crescimento também traz um desafio para a própria indústria.

Competição entre cana e milho preocupa

O setor chama atenção para a necessidade de criar condições para um equilíbrio maior entre o etanol produzido a partir da cana e aquele produzido a partir do milho.

Segundo ele, o etanol de milho apresenta vantagens de custo e pode operar durante os 12 meses do ano, enquanto as usinas de cana trabalham durante um período mais restrito. Além disso, o capital necessário para uma unidade de cana e açúcar é significativamente maior.

Sem mecanismos que considerem essas diferenças, o avanço acelerado do etanol de milho pode pressionar a viabilidade econômica das usinas de cana.

“É preciso criar um mecanismo de promover um equilíbrio maior entre a produção de etanol de cana e etanol de milho”, afirma.

O objetivo é evitar que o aumento da oferta de uma modalidade ocorra em detrimento da outra e comprometa investimentos realizados na indústria sucroenergética.

Novas fronteiras para aumentar a demanda

Além de ampliar o consumo dentro do Brasil, o próximo governo poderia ajudar o setor a buscar novas fontes de demanda no mercado internacional.

Ono cita a possibilidade de aumentar as exportações de etanol para utilização como combustível em outros países, inclusive na mistura com gasolina.

Mas ele vê oportunidades também em mercados que ainda estão em desenvolvimento, especialmente o combustível sustentável de aviação (SAF) e o bunker para navegação.

“O Brasil tem uma potencialidade diferenciada em relação aos outros países”, afirma.

Para o executivo, políticas de incentivo e estímulo à demanda nesses segmentos poderiam ajudar a sustentar os investimentos realizados pelo setor brasileiro de biocombustíveis.

Etanol também no campo

Outra frente defendida por Ono é a ampliação do uso de etanol em máquinas e equipamentos agrícolas.

A lógica, segundo ele, é aproximar a produção do combustível do próprio local onde ele poderá ser utilizado, reduzindo custos logísticos e criando uma nova fonte de demanda.

O especialista defende que o governo desenvolva mecanismos de incentivo para aumentar a utilização de etanol, e eventualmente outros biocombustíveis, em equipamentos pesados utilizados na agricultura.

Governo precisa comunicar vantagens do biocombustível

Além das medidas econômicas e regulatórias, Ono defende uma atuação mais direta do governo na comunicação com o consumidor.

Na avaliação dele, ainda existe resistência entre motoristas ao uso do etanol, muitas vezes por falta de informação sobre as vantagens do combustível.

“O governo precisa, juntamente com o setor produtivo, abraçar essa causa para levar uma comunicação mais assertiva aos consumidores, especialmente ao automobilista”, afirma.

A proposta é criar um programa de comunicação e marketing que mostre os benefícios dos biocombustíveis para o meio ambiente, a economia e o desenvolvimento do país.

Para Ono, o Brasil deveria valorizar mais sua matriz de transportes, que possui participação relevante de fontes renováveis.

Preços dos combustíveis e carros elétricos

Entre as prioridades para o próximo governo, o CEO da SCA Brasil também defende que as políticas de incentivo aos combustíveis fósseis sejam avaliadas em conjunto com as medidas destinadas aos biocombustíveis.

Na visão dele, mecanismos de redução de preços ou benefícios tributários para a gasolina, quando não acompanhados por medidas equivalentes para o etanol, prejudicam a competitividade do biocombustível.

Ono também critica a manutenção de incentivos para veículos elétricos importados. Para ele, políticas desse tipo podem desestimular investimentos na matriz brasileira de biocombustíveis.

As prioridades para o próximo presidente

Ao olhar para os próximos quatro anos, Ono resume suas principais demandas em uma agenda de expansão da demanda, redução de custos e maior segurança para os investimentos.

Entre as prioridades estão a criação de políticas para ampliar o consumo de etanol em todas as regiões do país, a equalização tributária entre os estados e investimentos em infraestrutura logística.

O especialista também defende que o governo evite utilizar a Petrobras como instrumento de controle de preços dos combustíveis sem estabelecer mecanismos de reciprocidade para os biocombustíveis.

Outra frente seria incentivar o uso de etanol em máquinas agrícolas, estimular a abertura de mercados internacionais e desenvolver novas demandas, como SAF e bunker.

Para Ono, o próximo governo também precisa trabalhar em conjunto com o setor privado para mostrar ao consumidor brasileiro o potencial dos biocombustíveis.

A avaliação é que o Brasil já possui capacidade para ampliar significativamente a produção, mas precisa criar demanda e condições de mercado que sustentem os investimentos.

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