Setor acelera investimentos e expansão de plantas, enquanto o combustível renovável ganha espaço como alternativa ao diesel e ao gás natural fóssil
Época Negócios
Por muito tempo, os resíduos de atividades agropecuárias, industriais, urbanas e de saneamento foram tratados apenas como itens a serem descartados, contribuindo para agravar problemas ambientais. Hoje em dia, no entanto, parte desse material tem outro destino: é usado na produção de biometano.
Obtido a partir da purificação do biogás, que, por sua vez, é gerado pela decomposição dos resíduos citados, o combustível gasoso renovável vem avançando no Brasil como alternativa ao diesel e ao gás natural fóssil, o que, consequentemente, ajuda o Brasil a acelerar a descarbonização de sua matriz energética.
Em 2025, a capacidade autorizada de produção do biometano cresceu cerca de 75%, saindo de aproximadamente 607 mil para 1,06 milhão de m³/dia, segundo a Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás).
“Atualmente, há 21 plantas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), com capacidade próxima de 1,37 milhão de Nm³/dia, e 48 empreendimentos em processo de autorização. Considerando os projetos já em desenvolvimento, a capacidade instalada pode alcançar 3,37 milhões de Nm³/dia até 2028”, diz Tiago Samos Santovito, diretor-executivo da ABiogás.
Ele acrescenta que, olhando para o mapeamento mais amplo feito pela entidade, que soma plantas autorizadas, em processo de autorização, em operação não comercial e projetos identificados junto aos associados, a projeção é aumentar de 93 plantas em 2025 para 200 em 2032, com capacidade de produção diária saindo de 1,8 milhão de m³/dia para 8,0 milhões de m³/dia no mesmo período.
Regionalmente, a produção se concentra no Sudeste – responde por cerca de 66% das plantas e mais de 73% da capacidade de produção. Um estudo da Copersucar, empresa que oferece soluções em escala de energia renovável, mostra que São Paulo atualmente concentra 40% da capacidade instalada e 31% dos projetos de expansão, e pode atingir um potencial produtivo de até 36 milhões m³/dia no longo prazo. Esse volume seria suficiente para substituir integralmente o consumo industrial de gás natural no estado ou até 85% do diesel.
O levantamento aponta ainda que mais da metade do potencial produtivo paulista está concentrado no setor sucroenergético, que utiliza resíduos da produção de açúcar e etanol como vinhaça, torta de filtro, bagaço e palha para produzir o biogás/biometano.
Os resíduos sucroenergéticos, inclusive, respondem pela maior parte (52%) da matéria-prima empregada na produção do biometano, de acordo com a ABiogás. Na sequência aparecem os resíduos de saneamento (28%), de animais (11%), agroindustriais (6,5%) e industriais (2%).
“Esses números mostram um setor que já saiu do campo apenas do potencial teórico e está, de fato, aumentando produção, recebendo investimentos e ampliando o número de projetos ano a ano”, destaca Santovito.
Apesar disso, ainda há muito a ser explorado. “O Brasil tem um potencial teórico estimado em 120 milhões de m³/dia de biometano, mas aproveita menos de 2% desse volume”, ele aponta, complementando que ampliar esse aproveitamento é estratégico por três razões principais.
A primeira é a segurança e a soberania energética – o país ainda depende fortemente de combustíveis e insumos importados, como diesel e fertilizantes, e essa dependência aumenta a exposição a choques externos de oferta e preço. A segunda é a descarbonização. “Por ser renovável e, em muitos casos, evitar a emissão de metano (gás cerca de 30 vezes mais danoso que o CO2), que seria liberado pelos resíduos não tratados, o biometano contribui de forma relevante para a redução de gases de efeito estufa em setores estratégicos, como transporte, indústria e agropecuária”, indica o executivo.
A terceira razão, ele completa, é o desenvolvimento econômico. “A cadeia produtiva do biogás e do biometano gera empregos, atrai investimentos privados, fortalece o agronegócio por meio do biofertilizante e cria uma nova fonte de receita a partir de um resíduo que hoje, na maior parte das vezes, é tratado apenas como passivo ambiental”, salienta.
Para se ter uma ideia da dimensão desse mercado, a ABiogás projeta a mobilização de R$ 216 bilhões em investimentos privados, a criação de mais de 251 mil empregos diretos e a geração de R$ 57 bilhões por ano em receitas adicionais. Também estima potencial para substituir R$ 42 bilhões anuais em importações e evitar emissões de mais de 230 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano – volume correspondente a aproximadamente 10% das atuais emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil.
Setores com mais oportunidades
Como adiantou Santovito, os setores de transporte, indústria e agropecuária podem ser os maiores beneficiados pelo uso do biometano.
No caso do de transporte, o estudo From Waste to Wheels – Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, encomendado pelo Instituto MBCBrasil e desenvolvido por professores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI), do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e do Instituto Mauá de Tecnologia, demonstra que o biometano consolidou-se como uma das soluções “mais imediatas, maduras e custo-eficientes para acelerar a descarbonização do transporte terrestre em escala mundial, sobretudo no segmento pesado e de longa distância”.
O trabalho demonstra que, em termos climáticos mundiais, a substituição do diesel por biometano no transporte pesado reduz emissões de CO2 equivalente no ciclo poço-à-roda em 45% a 75%. Quando computados os créditos pela eliminação das emissões fugitivas de metano, projetos baseados em dejetos e resíduos podem atingir um balanço net-negative (até -246% de emissões em relação ao diesel), retirando mais carbono equivalente da atmosfera do que emitindo.
Outros atrativos do biometano demonstrados pelo estudo são melhora da qualidade do ar e ganhos econômicos. No primeiro quesito, há redução de até 10 vezes das emissões de material particulado e fuligem em relação aos combustíveis fósseis líquidos e entre 67% e 82% de emissões de NOx (óxidos de nitrogênio) em motores pesados de duplo combustível.
No segundo quesito, simulações de Custo Total de Propriedade (TCO), que soma aquisição, manutenção e operação ao longo da vida útil do veículo, para frotas pesadas indicam que o custo por quilômetro rodado com biometano no Brasil pode ser de -30% a +25% em comparação ao diesel.
‘O estudo deixa claro que o biometano não é uma aposta futura ou experimental, mas uma realidade pronta e em escala global”, diz José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho de Administração do Instituto MBCBrasil. “Esse combustível é muito interessante porque você transforma em energia algo que é um enorme passivo ambiental, que são os resíduos.”
Para além do setor de transportes, o biometano traz oportunidades para o agronegócio e a indústria. O digestato resultante da produção de biogás pode ser aproveitado como biofertilizante, devolvendo nutrientes ao solo e reduzindo a dependência de insumos minerais importados.
Santovito, da ABiogás, relata que, com a estruturação de um Plano Nacional de Valorização do Digestato, o Brasil poderia chegar a 52 milhões de toneladas anuais de biofertilizantes. Ele continua: “Há ainda uma fronteira de produtos de maior valor agregado: o biometano pode ser transformado em Bio-GNL para operações de longa distância, e o CO2 biogênico recuperado no processo pode se tornar matéria-prima para combustíveis sintéticos como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o e-metanol, voltados a setores de difícil descarbonização, como aviação e navegação”.
O setor elétrico também se beneficia com a produção do biometano, por complementar a expansão das fontes solar e eólica. A indústria, por sua vez, pode utilizar o combustível para uso térmico e como parte de estratégias de descarbonização de seus processos.
Ainda há desafios
Do ponto de vista regulatório, o Brasil também avança. A Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) instituiu o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, determinando que produtores e importadores de gás natural cumpram metas anuais de redução de emissões por meio do uso de biometano ou da aquisição de Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOBs).
Em 2026, a implementação avançou de forma concreta: o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu a meta de redução de emissões em 0,5% para o primeiro ano do programa – sobe gradualmente até 10% -, e a ANP publicou as Resoluções nº 995 e nº 996, que disciplinam, respectivamente, a individualização das metas dos agentes obrigados e a certificação necessária para a emissão dos CGOBs. A estrutura de certificadoras, escrituradoras e do registro desses certificados já está sendo operacionalizada, e o setor aguarda agora a primeira emissão efetiva de CGOB no mercado.
Também este ano, a ANP publicou a Resolução nº 1.006, consolidando as regras de especificação e controle de qualidade do biometano para diferentes rotas de produção.
Apesar disso, ainda há desafios a serem enfrentados. “Um deles é que a rede de gasodutos no Brasil ainda é incipiente. Ela está praticamente na costa do país. Sendo assim, são necessárias políticas públicas e investimentos tanto para a expansão dos gasodutos quanto para a conexão das plantas produtoras de biometano aos grandes gasodutos existentes. Só assim conseguiremos garantir a capilaridade em âmbito nacional desse combustível”, indica Luzzi, do Instituto MBCBrasil.
Outro ponto importante, segundo ele, é dar um tratamento tributário ao combustível competitivo frente ao diesel. “Por exemplo, o etanol tem paridade de preço em relação à gasolina. O biometano também deveria ter um sistema tributário que o ajudasse a ser competitivo com o diesel”, observa.
Santovito, da ABiogás, acrescenta mais três pontos. O primeiro é que o custo de aquisição de veículos pesados a gás ou biometano ainda é superior ao de veículos a diesel, o que torna fundamental olhar para o custo total de propriedade e criar mecanismos que reduzam essa diferença inicial – como linhas de financiamento específicas e incentivos à renovação de frota.
“Também é preciso avançar na fungibilidade e na previsibilidade do CGOB, garantir o tratamento adequado do biometano na Reforma Tributária e assegurar neutralidade tecnológica nas políticas de transporte, para que os atributos ambientais do combustível sejam devidamente reconhecidos”, inclui. “Por fim, há o desafio de atrair capital em escala – o que passa pela criação de instrumentos de blended finance capazes de mobilizar investimento privado – e de fazer oferta e demanda crescerem de forma coordenada, para que o biometano deixe de depender majoritariamente de operações dedicadas e contratos bilaterais e ganhe presença mais ampla no mercado de abastecimento.”
Empresas de olho no biometano
No Brasil, diversas empresas já têm investido no biometano. Caso da Unilever, que conta com cinco unidades operando integralmente com biometano ou biomassa. Somadas, essas operações evitam a emissão de cerca de 40 mil toneladas de CO2 por ano, pontua a empresa.
A última fábrica a adotar o combustível é a de desodorantes de Aguaí, no interior de São Paulo. A iniciativa tem como objetivo zerar as emissões de gases de efeito estufa do local e evitar que mais de 700 toneladas cheguem à atmosfera por ano.
O biometano é fornecido pela Edge, companhia brasileira de soluções de gás, e o acordo para a unidade de Aguaí prevê um volume contratado de 1.125 metros cúbicos/dia.
A ICC Nutrição Animal, desenvolvedora de soluções naturais à base de levedura de cana-de-açúcar para nutrição, saúde, bem-estar e performance animal, iniciou um projeto em conjunto com a LOTS Group, empresa do Grupo Scania, para o uso de biometano no transporte de levedura entre suas unidades no Estado de São Paulo.
Para a safra 2026/2027, a expectativa é movimentar mais de 12 mil toneladas de levedura utilizando caminhões movidos a biometano e, com isso, reduzir a partir de 84% as emissões de gases de efeito estufa, passando de 223,58 toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) para 36,02 toneladas de CO2e, e substituir aproximadamente 100 mil litros de diesel.
Em relação aos poluentes locais, como óxidos de nitrogênio (NOx), monóxido de carbono (CO), dióxido de enxofre (SO2) e material particulado, a previsão é de redução de 99%, passando de 2.226 quilos para 31 quilos emitidos pelos caminhões.
“Estamos utilizando um combustível renovável gerado dentro da própria cadeia de onde adquirimos nossa matéria-prima, transformando um recurso disponível no setor em uma alternativa para o transporte de cargas. Além da redução das emissões de gases de efeito estufa nos trechos operados, a iniciativa reforça o potencial da economia circular para acelerar a adoção de soluções mais sustentáveis no agronegócio”, enfatiza Ricardo Manzoli Jr., gerente de Logística e Armazéns da ICC Nutrição Animal.
Outra companhia a utilizar o biometano é a Mondelez Brasil, dona das marcas Lacta, Oreo, Trident, BIS, Club Social e Sonho de Valsa. Em parceria com a produtora de biometano Gás Verde, ela incorporou o combustível em sua fábrica de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco.
Esta é a primeira unidade do grupo na América Latina a integrar o biometano em seu mix de abastecimento, como uma alternativa ao gás natural. A operação foi iniciada com capacidade de 50.238 m³/mês de biometano. Em 2027, alcançará, em média, 100.476 m³/mês. O fornecimento previsto aumentará gradualmente e chegará em 100 mil metros cúbicos/mês, ou 1,1 milhão de metros cúbicos por ano.
Com esse movimento, a previsão da empresa é uma diminuição de aproximadamente 6 mil toneladas de CO2e ao longo do contrato – o equivalente ao plantio de cerca de 40 mil árvores.
‘Após dois anos de análises de mercado e alinhamentos internos, conseguimos incorporar à Mondelez uma solução renovável capaz de substituir gradualmente o uso de combustíveis fósseis”, destaca Josué Evangelista, gerente de Compras de Energia LATAM na Mondelez International. “Esse avanço reforça nosso compromisso com uma matriz energética cada vez mais sustentável”, completa.