Fonte: Valor Online
O príncipe saudita Salman bin Abdulaziz ligou para o presidente russo, Vladimir Putin, na segunda-feira, na tentativa de uma solução para a queda no preço do petróleo Foto: AP Images
O esforço diplomático da Arábia Saudita por um corte na produção da Opep+ encontrou resistência russa durante o primeiro dia da reunião do comitê técnico do cartel realizada ontem em Viena. O encontro continua hoje. O grupo se reuniu para avaliar os efeitos do surto de coronavírus sobre a economia mundial e o petróleo. Segundo dois delegados presentes à reunião, a Arábia Saudita está pressionando por corte de produção de pelo menos 500 mil barris por dia – e até o dobro dessa quantidade. Mas a Rússia, cujo orçamento sofreria mais com o corte na produção, se manteve contra.
O enviado da China nas Nações Unidas, Wang Qun, foi convidado para falar sobre as perspectivas de consumo chinês. O departamento de pesquisa da Opep apresentou dois modelos com estimativas diferentes de como o vírus pode afetar o consumo de petróleo, de acordo com um delegado. O pior cenário previa uma epidemia de rápida expansão que dura seis meses e destrói cerca de 400 mil barris por dia de demanda, antes que o mercado se recupere para níveis de crescimento pré-vírus no segundo semestre. A análise mostrou ainda que se a Opep + mantivesse suas atuais reduções de produção durante esse período, haveria excedente de 600 mil barris por dia no primeiro trimestre e 1 milhão de barris diários no segundo trimestre. A petroleira BP divulgou ontem que estima queda na demanda de petróleo de 300 mil a 500 mil barris diários em 2020.
Na segunda-feira, o príncipe saudita Salman bin Abdulaziz ligou para o presidente russo, Vladimir Putin, na tentativa de avançar nas discussões em torno de uma solução para a queda no preço da commodity.
O resultado prático desse impasse foi uma nova queda na cotação do petróleo tipo Brent, referência mundial. O contrato para entrega em abril caiu 0,89%, cotado a US$ 53,96 o barril. O menor valor desde janeiro de 2019. Acho que o temor de destruição da demanda continua a ter controle total sobre o mercado, disse Gene McGillian, vice-presidente de Pesquisa de Mercado da Tradition Energy. No início do dia as cotações chegaram a subir, apoiadas por expectativas positivas sobre a reunião da Opep.
Mas os efeitos da paralisia que toma conta da economia chinesa vão muito além do petróleo. Criadores de vison na Dinamarca cancelaram um leilão de peles porque compradores chineses não puderam comparecer em razão das restrições a viagens, impostas para conter a doença. Cerca de 25 mil voos para a China e dentro do país foram cancelados por empresas aéreas, segundo a consultoria de dados OAG. E Macau anunciou o fechamento de seus cassinos por duas semanas como medida de precaução. O território é uma importante fonte de receita para as operadoras de cassinos americanos Wynn Resorts e Las Vegas Sand.
A Feira Aérea de Cingapura, que começaria na próxima semana, anunciou ontem o cancelamento de uma conferência de negócios em razão da ausência de participantes chineses. A receita turística da Tailândia e outros países asiáticos que dependem da China para até 30% dos visitantes estrangeiros teve forte queda depois de Pequim ter cancelado grupos de excursão. Além disso, empresários foram avisados para adiar viagens ao exterior.
Muitos eventos nacionais, assim como internacionais, agora já estão cancelados, disse Jesper Lauge Christensen, executivo-chefe da Kopenhagen Fur, uma cooperativa de 1,5 mil produtores criadores dinamarqueses de vison. Responsável por 40% da produção mundial de vison, a cooperativa cancelou seu leilão mensal, no qual deveriam ser vendidas 2 milhões de peles. A maior parte das exportações do grupo normalmente vai para a China e Hong Kong.
Ruas e metrôs de muitas cidades ainda estão em grande medida vazios mesmo depois do que deveria ser o retorno oficial ao trabalho da maior parte dos chineses nesta semana. Milhares de restaurantes e cinemas foram fechados para impedir aglomerações de pessoas – o que fez os estúdios de Hollywood perderem as vendas de ingressos no Ano Novo Lunar, o ápice da receita do setor cinematográfico.
O confinamento de Wuhan, um centro industrial de 11 milhões de pessoas, comprometeu a produção de telas de diodos emissores de luz (LED, na sigla em inglês) e de cristal líquido, segundo a firma de análises do mercado de tecnologia IHS Markit, atualmente parte da Informa Tech. Isso afetou a oferta e elevou os preços cobrados das fábricas de computadores, televisores e outros produtos.
A China foi alvo de preocupações parecidas em 2003 durante o surto de síndrome respiratória aguda grave (sars, na sigla em inglês). O crescimento recuperou-se rapidamente logo depois e o impacto mundial foi pequeno.
Desta vez, mesmo se a China se recuperar rapidamente, o impacto no mundo poderia ser maior do que com o sars, já que hoje a China representa 16,3% da atividade econômica mundial, mais do que o triplo da porcentagem em 2003, de 4,3%, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
As medidas contra o vírus vão derrubar a atividade chinesa neste trimestre, o que vai ampliar a pressão sobre a economia global e atiçar temores nos mercados financeiros, escreveu Louis Kuijs, chefe de assuntos econômicos na Ásia da firma de análises Oxford Economics, em relatório.