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Valor Econômico

Visto como uma empresa “old school” pelo mercado, o grupo Ultra – controlador da Ultrapar -, dona da rede de postos Ipiranga, vai renovar uma parte do seu conselho de administração em abril, com três novos nomes. A mensagem é de que o conglomerado está disposto a passar por uma transformação maior. O grupo começa também a preparar este ano a sucessão da liderança do colegiado – Pedro Wongtschowski vai passar o bastão em 2023 e já está organizando esse processo, com a contratação de uma consultoria.
A indicação de Marcos Lutz, ex-presidente da Cosan, um dos maiores concorrentes do Ultra, para ser um dos membros do colegiado a partir de abril reforça a disposição do grupo em repensar seus negócios e estratégias de crescimento. Com o foco na área de óleo e gás, o conglomerado está em negociações para a compra da refinaria Alberto Pasqualini, do Rio Grande do Sul, e planeja vender suas divisões Oxiteno e Extrafarma (ver matéria Indorama e fundo Advent miram Oxiteno). Outros negócios que vai manter são a Utragaz e a Ultracargo.
A chegada de novos conselheiros vai ajudar a pensar o futuro do Ultra. E Lutz não está sozinho. O sócio-gestor do fundo de investimentos Pátria, Otávio Castello Branco Neto, e o especialista em energia, José Luiz Alquéres (ex- Light e Eletrobras), vão compor o novo colegiado. Com esses novos nomes, a companhia passa a ter cinco acionistas de referência em seu conselho, aumentando o “olho do dono” no negócio. Todos foram eleitos por unanimidade.
Wongtschowski continuará presidente do conselho de administração, e Lucio de Castro Andrade Filho, como vice-presidente, nos próximos dois anos. A assembleia para aprovar a nova chapa está marcada para 14 de abril. Mas o chairman já tornou pública sua decisão de sair do comando do colegiado. Em carta aos acionistas, ele disse que ao longo deste ano dará também início a um processo planejado de transição na liderança do conselho. O grupo contratou Sandra Guerra, da Better Governance, nome que é referência em governança, para buscar um sucessor para Wongtschowski dentro ou fora do conglomerado, apurou o Valor.
O ex-presidente da Cosan é apontado como possível substituto de Wongtschowski. Lutz assume como conselheiro com o apoio da família Igel, fundadora do conglomerado, e também do Pátria, que se tornou, desde 2018, um dos principais acionistas do grupo. A Ultrapar é controlada pela Ultra S.A., que reúne executivos, herdeiros da família e o Pátria, e pela Parth Participações – outra ala dos Igel. Juntos, compõem o bloco controlador com quase 35% das ações. Lutz vai também se tornar acionista.
Aos 51 anos, o executivo já tinha trabalhado na Ultracargo e seu retorno ao grupo é visto como um salto na carreira. As expectativas do mercado e de parte dos acionistas do conglomerado são de que ele “traga os segredos da concorrência” para levar o Ultra de novo ao crescimento. Cosan, com a Raízen, e Ultra são rivais em distribuição de combustíveis e ambos querem entrar no negócio de refino no Brasil.
Nos últimos anos, Lutz foi um dos braços-direito de Rubens Ometto, fundador da Cosan. Foi ele quem convenceu Ometto a comprar a ferrovia América Latina Logística (ALL) e ajudou o empresário a transformar a companhia líder em produção em açúcar e etanol em um dos maiores grupos de infraestrutura e energia do país.
“Não tem como evitar a comparação entre os grupos. A Cosan conseguiu dar um salto e é um dos maiores grupos de infraestrutura e energia. O Ultra também se transformou com a diversificação de negócios, mas há uma rota que precisa ser corrigida. O grupo agora está numa encruzilhada”, disse uma fonte ligada ao conselho, sob reserva, ao Valor.
“Muito do sucesso do grupo Cosan é atribuído a Lutz. Entendemos que a ida dele para o conselho do Ultra trará um contribuição importante para a empresa, que deverá comprar uma refinaria e está revendo seus negócios”, diz Gabriel Francisco, analista de óleo e gás da XP. “Mas só lembrando: o conselho não é composto por um só membro.”
Para a fonte ligada ao conselho do Ultra, Lutz tem todo o potencial para assumir a presidência do colegiado em 2023, mas o martelo não está batido. Esta posição de liderança está nas mãos do engenheiro químico Pedro Wongtschowski, diretor da Ultrapar desde 1985 e ficou na presidência da companhia de 2007 a 2012. Nome de confiança de Paulo Cunha, Wongtschowski liderou importantes processos de transformação do Ultra, com a compra da Ipiranga e expansão da Oxiteno e Ultracargo. Wongtschowski também é referência entre os líderes empresariais do país, como Cunha, seu antecessor, foi.
A renovação do Ultra também terá ajuda do Pátria, agora com dois assentos no conselho. “A gestora tem participação em importantes empresas, por meio do fundo Pipe, e busca ser ativista em seus negócios”, disse esse conselheiro. A chegada de Alquéres, nome de confiança da família Monteiro Aranha, também sócia do conglomerado, dá mostras de que o grupo poderá dar uma atenção especial na área de gás e energia.
Saem do conselho Alexandre Gonçalves Silva (Embraer), Joaquim Monteiro de Carvalho Collor de Mello (grupo Monteiro Aranha) e Nildemar Secches (ex- Perdigão). Permanecem Alexandre Saigh (sócio do Pátria, que chegou em 2020), Ana Paula Vescovi (ex-secretária do Tesouro), Flávia Almeida (gestora da Península), Jorge Marques de Toledo Camargo (da Prumo), José Galló (Renner) e José Maurício Pereira Coelho (Previ).
“O que vemos é o grupo Ultra tentando arrumar a casa, principalmente na rede de postos Ipiranga”, diz Diana Stuhlberger, analista da Eleven Financial Research. Em 2020, a receita líquida da Ultrapar foi de R$ 81,2 bilhões, queda de 9% em relação ao ano anterior. O recuo nas vendas reflete os resultados, sobretudo, da Ipiranga, que foi afetada pela pandemia.
Procurados, Ultra, Lutz e Pátria não comentaram o assunto.

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